A memória esbatida da tua imagem surpreendeu-me hoje. Não poderia colocar por palavras esta satisfação infantil de estar livre das emoções que me prendiam a ti. É libertador olhar para trás e ter a certeza de seres um capítulo terminado, nada mais poderia ser acrescentado na nossa história. Partis-te o meu coração, finalmente, como te havia pedido. Livre para recomeçar outra coisa qualquer. Livre.
Como é que aqui cheguei, a esta fase da vida em que os dias se repetem e os sonhos ficam esquecidos em gavetas fundas?

é que eu sou assim

Eu não quero ser a tua miúda, nunca mais.
Quero ver-te, abraçar-te, e pedir-te para me dizeres coisas boas. Podes? Consegues?
Quero dizer adeus, despir-me das ilusões e dos sonhos que não vamos viver nunca, esquecer e começar do zero. Quero ter essa oportunidade, quero ter a oportunidade de criar cicatrizes que não tenham as tuas mãos. Quero arrancar este coração, queimar tudo o que esta la dentro contigo e nunca olhar para trás, acima de tudo isso: não voltar a olhar para trás.

pausa. será?

Este receio, de ao escrever a próxima palavra dar a mostrar ao mundo que te amo.

No princípio era a fábula

Depois de coisas como as de ontem, em que só me faltou vomitar de nojo sobre uma das amizades que mais queria, fico sem saber, afinal, por que razão vim a este vale de lágrima, lutei tanto, amei tanto, e fiz deste calvário um caminho de justificação. | Miguel Torga

Freak


Canetas de feltro em unhas de criança

Se a vida não surtir efeito eu mato-me e deixo ficar para trás estas frases malditas presas no goto de algum amante amaldiçoado. Mãe, chama por mim ou atravesso a estrada sem olhar para os lados.
"Sai da estrada, Mãe do Céu, e querias ir tu para a escola sozinha".
Eu não queria ir sozinha, eu queria ir contigo, todos os dias de mão dada - mas nunca te disse nada.
Agora é tarde de mais e já não posso sair da estrada, é o único lugar onde posso estar, é seguro, pode-se sonhar e espairecer. Divago... rendas, rendas ao vento, rendas sobre o corpo de uma mulher, e eu que gosto de beijar bocas com batom. Por favor, deixe uma mensagem - I love you.

O caderno vermelho

O meu pai era um homem alto e forte que chegava sempre a casa tarde. Eu ficava muito contente quando o via, com ele chegava o silêncio com que todas as coisas se vestiam, um nocturno diferente. Nunca conversamos, eu e o meu pai, talvez sobre trivialidades, frases curtas, para que eu agora não pudesse escrever que conversava com o meu pai. 
Eu achava que tinha o melhor pai do mundo, mas estava enganada, há pais melhores, o meu era mais ou menos. Eu às vezes queria estar muito zangada com ele, mas não consigo, primeiro porque ele é meu pai, segundo porque sei que ele não é lá muito feliz. O meu pai é uma pessoa solitária e não consegue mostrar o que sente. Tenho pena por ele, porque o amo e ele não sabe isso. Queria que ele soubesse. 
Obrigada pai pelos pés que me deste e por me pores na rua, o mundo é um lugar grande e há espaço para todos. Somos muitos e felizes.

O pecado mortal

E no silêncio da mente há o desejo de acreditar nas suas próprias regras, de seguir em frente sem receio de sentir falta do que nunca viveu. No tecto, os carros seguem sem parar, alheios a qualquer tumúlto do coração.
No silêncio do quarto apenas o vazio e a incerteza de sentir, 

"Quero tanto sentir. Sou de carne e osso ou serei a fingir?"