pensamento violento numa tarde vazia de sol e humor
Sim, é verdade, queria não fazer nada, assim o fazer nada resumia-se ao pensar, actividade que constantemente pratico mas que é constantemente esquecida. O não fazer nada permitiria a mim mesma a paz de fazer somente uma coisa e não duas, ou mais. O não fazer nada dói-me como os joanetes a um velho.
Se o meu nome fosse YeKaterinna, nascida e criada na Rússia, pensaria na ordem pela qual teria de limpar as casas amanhã. YeKaterinna, criada pela avó, violada pelo tio, vendida e revendida pelos bordéis europeus até aos 28, abandonada em Sevilha aos 31, 2 abortos, 7 países, espancada e só.
Pensar nas casas a limpar no dia seguinte parece-me bem.
Pensar nas casas a limpar no dia seguinte parece-me bem.
as árvores sabem cantar
Ainda tenho uma carteira grande onde posso guardar garrafas de vinho verde. Vamos comprar? O parque deve estar vazio a esta hora, pomos musica a tocar e dançamos com a garrafa na mão, dançamos aquela música que fala sobre árvores que voam.
Sinto falta desses momentos em que nos deixávamos ir sem pensar nas consequências, o tempo era uma mentira e nós éramos deuses capazes de mudar o mundo. Eu acreditava em mim. Eu acreditava naqueles beijos na boca, todos eles.
Sinto falta desses momentos em que nos deixávamos ir sem pensar nas consequências, o tempo era uma mentira e nós éramos deuses capazes de mudar o mundo. Eu acreditava em mim. Eu acreditava naqueles beijos na boca, todos eles.
Depois corríamos e rebolávamos na relva húmida pelo orvalho. As estrelas multiplicavam-se porque nós assim o queríamos, queríamos mais estrelas, mais céu, mais sentimento.
A todos esses momentos, eu dedico esta dança tresloucada de sábado à noite.
não importa quem és
Como companhia, tenho uma chávena de chá e um CD de 2006 que toca repetidamente. Hoje as cores acordaram mais esbatidas, e eu preciso delas no pico da sua concentração. Preciso sentir que afinal o frio do inverno já se sente nos dedos das mãos... também eu o consigo sentir.
Não passo de uma criança com um caderno rabiscado, cheio de listas de sonhos que ora quero ora esqueço, às vezes, quando a revejo, alguns desses sonhos já se concretizaram, outros morreram antes de nascer - sonho morto a 21 de Novembro por falta de amor.
Preciso daqueles momentos em que danço sozinha na semi-escuridão de umas belas noites solitárias. Hoje fí-lo na banheira enquanto a água corria quente, o público?
Um gato e muitas outras partes de mim, partes sorridentes por saírem um bocadinho cá para fora.É preciso arrumar a minha cabeça para finalmente começar a fazer alguma coisa da minha vida, coisas fantásticas e verdes, como árvores plantadas na Primavera. A cultivar uma pequena história, Olenka, a personagem que imagino na minha cabeça, veio viver para Portugal este ano...
Ah, o mundo inteiro é um carrossel. Hoje, quero andar no cavalo, amanhã, amanhã talvez opte pela chávena. No meu íntimo, estás do lado de fora a fazer girar a minha chávena para que tudo se torne mais emocionante.
O chá persegue-me, e as recordações boas também.
Espero que eles saibam que tenho saudades.
coisas de sexta
Também eu preciso de arrumar a minha cabeça. De dentro para fora. Ah, eu só queria ser pequenina para poder não pensar em coisas de adulto. Sonhar nos intervalos dos desenhos animados e brincar com bonecos até adormecer.
pensamentos de loucura
Foi já vestida de branco que todas as dúvidas a assolaram. Estaria a seguir o caminho que sonhara para si? Era, aquela rapariga assustada com sombra rosa que via reflectida no espelho, a mulher que sonhara ser?
Haveria algures lugares mais fantásticos, pessoas mais interessantes, vidas mais fascinantes que aquela que estava a viver no seu quarto de adolescente?
Depois de comer mais um croquete quentinho pegou no seu saco de viagem e mascarada de freira saiu do hospital sem haver perguntas, ainda não sabia bem porquê, mas a fome tinha passado e o céu azul prometia sol.
Não havia nada a temer.
Constatação nº 1002
MENSAGEM ANÓNIMA NUM GUARDANAPO DE PAPEL
Ainda que me ames, há dias em que me sinto como o Salomão.
Ainda que me ames, parece que me queres mandar para longe.
que bom que era, ò andorinha, na primavera também voar (ah, aquela guitarra)
Hoje, enquanto fazia o meu percurso diário para a pé, usando os meus novos brincos de menina de sonhos, pensei no que é de facto o amor, será a ilusão de acreditarmos que aquela pessoa é a que sonhamos a vida inteira, ainda que não totalmente a dos sonhos?
Pensava que, em todas as relações há um momento de silêncio entre as duas pessoas, aquele momento em que pensamos "serás tu o tal?". Será que acreditamos mesmo nisso?
E aquela busca eterna, a tentava de descobrir quem é quem?
Aquele copo de vinho que me foi oferecido depois de me resgatarem a uma noite aborrecida de revistas e filmes, aquele copo fez-me perceber que de facto as pessoas não podem ser tudo quilo que gostaríamos que fossem, ainda assim, há nelas coisas que precisamos para nos complementarem os dias de sol. Pensando em todas as pessoas da minha vida, amigos, paixões, o amor... não trocava nada deles por um ser perfeito.
Não sei bem que texto é este, não costumo escrever sobre estas coisas. Acho que... acho que é um delírio de café.
Pensava que, em todas as relações há um momento de silêncio entre as duas pessoas, aquele momento em que pensamos "serás tu o tal?". Será que acreditamos mesmo nisso?
E aquela busca eterna, a tentava de descobrir quem é quem?
Aquele copo de vinho que me foi oferecido depois de me resgatarem a uma noite aborrecida de revistas e filmes, aquele copo fez-me perceber que de facto as pessoas não podem ser tudo quilo que gostaríamos que fossem, ainda assim, há nelas coisas que precisamos para nos complementarem os dias de sol. Pensando em todas as pessoas da minha vida, amigos, paixões, o amor... não trocava nada deles por um ser perfeito.
Não sei bem que texto é este, não costumo escrever sobre estas coisas. Acho que... acho que é um delírio de café.
eu sei lá bem
Fartíssima
íssima
íssima
Quem, onde, quando e como? Matem todas as perguntas, são para mim as respostas todas. Estas, as de amanhã e ainda as de ontem. Aqui ou ali, ninguém o sabe, nem tu. Amo as pessoas, odeio as pessoas, não as compreendo, não as beijo, não as vejo. Quem são?
Tu, eu, o que interessa?
Os mexericos, os comentários, quem, como onde e quando?
Fartíssima
íssima
íssima
íssima
íssima
Quem, onde, quando e como? Matem todas as perguntas, são para mim as respostas todas. Estas, as de amanhã e ainda as de ontem. Aqui ou ali, ninguém o sabe, nem tu. Amo as pessoas, odeio as pessoas, não as compreendo, não as beijo, não as vejo. Quem são?
Tu, eu, o que interessa?
Os mexericos, os comentários, quem, como onde e quando?
Fartíssima
íssima
íssima
Eu queria saber..?
Na realidade eu só queria saber se era normal chegar a casa, beber chá e estender-me com uma manta a ler ou a escrever, não é pois não?
feeling goooooooooooooooood
Quero umas galochas brilhantes, vermelho cereja. O meu guarda-chuva transparente para sair de casa a ouvir musicas dos sessenta e passear junto a um jardim relvado. Comprar um gelado e continuar o meu passeio até chegar a um parque com muitas árvores verdes e um pequeno rio com pontes que o atravessam demasiadas vezes.
Quero uma casa de chá com bules redondos de todas as cores possíveis e imagináveis, beber chá de menta com rosa e comer bolachas de manteiga, daquelas bem enroladas que sabem tão bem quando está frio. Quero o meu livro do Saramago e ler mais um capítulo enquanto espero por ti.
Tu vens com as tuas calças à boca de sino azuis escuras e uma camisola de gola alta cor-de-laranja. Um casaco peludo (sexy!) e entras na Casa de Chá para me encontrares muito apaixonada no meu mini dress preto e branco.
Bah... rimos de tudo e inventamos uns cavalos com os quais fugimos para o Oeste, e aí, sacamos das nossas pistolas de água e vamos roubar alguns bancos!
Quem sabe depois não iremos para as Bahamas.
James?
Sim Bonny?
Não devias ser Clyde?
E tu? Não era suposto seres Girl?
"I love you more"
Quero uma casa de chá com bules redondos de todas as cores possíveis e imagináveis, beber chá de menta com rosa e comer bolachas de manteiga, daquelas bem enroladas que sabem tão bem quando está frio. Quero o meu livro do Saramago e ler mais um capítulo enquanto espero por ti.
Tu vens com as tuas calças à boca de sino azuis escuras e uma camisola de gola alta cor-de-laranja. Um casaco peludo (sexy!) e entras na Casa de Chá para me encontrares muito apaixonada no meu mini dress preto e branco.
Bah... rimos de tudo e inventamos uns cavalos com os quais fugimos para o Oeste, e aí, sacamos das nossas pistolas de água e vamos roubar alguns bancos!
Quem sabe depois não iremos para as Bahamas.
James?
Sim Bonny?
Não devias ser Clyde?
E tu? Não era suposto seres Girl?
"I love you more"
Contos contados com contas dos colares da Constança
Albertina era uma mulher solitária. Não casara aos 17 pois Joaquim, seu grande amor, fugira para as Américas deixando-a desgraçada e sem noivo. Seu pai, bêbado de profissão, espancava-a sempre que podia, para a lembrar quem era a vergonha e a desgraça da família. A mãe, Maria da Luz, encolhia as lágrimas por amor à filha.
Albertina trabalhava com a mãe a arranjar bainhas e a alargar os vestidos das senhoras de bem que iam acumulando quilos de boa vida. Gorduras suaves e macias de bancos de veludo.
Era a filha mais nova de uma linhagem de desgraçadas. Amélia, a mais velha, casada com um funcionário público, mulher reservada e assustada, vivia para o seu filho obeso, único amor que conheceu na vida.
Adelaide, a do meio, casou-se com o filho de um empreiteiro bem sucedido, diz-se que construía prédios lá para as bandas da Moita, homem rico que poucas importâncias dava à família da desgraçada com quem casara. Dizem as más línguas que gostava de boates e de raparigas brasileiras de perna ao léu, mas é o que o povo praí diz.
Albertina já não se importava com o seu futuro, o amor fora uma ratoeira, não queria mais desses queijos, ela nem gostava desses produtos lácteos, digeria-os mal.
O pai morreu-se-lhe aos 21, um alivio para o corpo macerado. Como herança, herdou a mãe já cansada da vida e o estaminé dos copos de vinho que o seu pai geria, uma pequena taberna antiga onde os desempregados despejavam as poucas moedas que ainda tinham nos bolsos.
Um par de dias depois do velório já Albertina servia copos, 21 anos de desamores a fritar bolinhos de bacalhau sob os olhares lascivos que iam ficando pousados nas mesas tarde adentro, na esperança de a conseguirem também papar.
Foi com o consentimento da mãe, que concordava que aquilo não era futuro para uma mulher sem homem, que Albertina mudou o ramo do estaminé, cansada dos galanteios dos avôs do bairro, investiu o dinheiro das madames e abriu uma mercearia à qual chamou "Flor do Mar". Lera uma vez um poema sobre uma flor que nascia debaixo de água e que salvava os peixes pequeninos de serem devorados pelos graúdos. Para Albertina, a sua "Flor do Mar" era a mercearia, onde ela poderia ser salva.
Aos 35 anos, sua mãe morria de doença prolongada, suas irmãs, pouco sabia delas, e mesmo depois de mandar instalar os telefones na mercearia, raramente se falavam. Cresceu com a rua, com as famílias de cá para lá na sua azáfama citadina, encantou gerações de crianças com os seus mágicos rebuçados que lhes enfiava nos bolsos às escondidas das mães.
Os anos passaram por Albertina sem lhe roubarem as faces rosadas de menina, os olhos amendoados da cor das azeitonas, as poucas rugas na sua pele aveludada de avó sem netos, reforçam o seu ar de menina eterna. Ainda hoje, quando entro no "Flor do Mar", sinto que ali, no meio das alfaces e das bananas da Madeira, ali se pode ser um bocadinho mais feliz.
Albertina trabalhava com a mãe a arranjar bainhas e a alargar os vestidos das senhoras de bem que iam acumulando quilos de boa vida. Gorduras suaves e macias de bancos de veludo.
Era a filha mais nova de uma linhagem de desgraçadas. Amélia, a mais velha, casada com um funcionário público, mulher reservada e assustada, vivia para o seu filho obeso, único amor que conheceu na vida.
Adelaide, a do meio, casou-se com o filho de um empreiteiro bem sucedido, diz-se que construía prédios lá para as bandas da Moita, homem rico que poucas importâncias dava à família da desgraçada com quem casara. Dizem as más línguas que gostava de boates e de raparigas brasileiras de perna ao léu, mas é o que o povo praí diz.
Albertina já não se importava com o seu futuro, o amor fora uma ratoeira, não queria mais desses queijos, ela nem gostava desses produtos lácteos, digeria-os mal.
O pai morreu-se-lhe aos 21, um alivio para o corpo macerado. Como herança, herdou a mãe já cansada da vida e o estaminé dos copos de vinho que o seu pai geria, uma pequena taberna antiga onde os desempregados despejavam as poucas moedas que ainda tinham nos bolsos.
Um par de dias depois do velório já Albertina servia copos, 21 anos de desamores a fritar bolinhos de bacalhau sob os olhares lascivos que iam ficando pousados nas mesas tarde adentro, na esperança de a conseguirem também papar.
Foi com o consentimento da mãe, que concordava que aquilo não era futuro para uma mulher sem homem, que Albertina mudou o ramo do estaminé, cansada dos galanteios dos avôs do bairro, investiu o dinheiro das madames e abriu uma mercearia à qual chamou "Flor do Mar". Lera uma vez um poema sobre uma flor que nascia debaixo de água e que salvava os peixes pequeninos de serem devorados pelos graúdos. Para Albertina, a sua "Flor do Mar" era a mercearia, onde ela poderia ser salva.
Aos 35 anos, sua mãe morria de doença prolongada, suas irmãs, pouco sabia delas, e mesmo depois de mandar instalar os telefones na mercearia, raramente se falavam. Cresceu com a rua, com as famílias de cá para lá na sua azáfama citadina, encantou gerações de crianças com os seus mágicos rebuçados que lhes enfiava nos bolsos às escondidas das mães.
Os anos passaram por Albertina sem lhe roubarem as faces rosadas de menina, os olhos amendoados da cor das azeitonas, as poucas rugas na sua pele aveludada de avó sem netos, reforçam o seu ar de menina eterna. Ainda hoje, quando entro no "Flor do Mar", sinto que ali, no meio das alfaces e das bananas da Madeira, ali se pode ser um bocadinho mais feliz.
Eu sei...
Agora me recordo de como era o mundo antigamente.
As noites longas, o rádio sempre a tocar qualquer coisa, mesmo quando tinha muito sono. A janela, entreaberta, deixava entrar o lusco-fusco do amanhecer, e eu lutava por manter os meus olhos bem abertos para ver o sol a acordar, mas nunca conseguia, ao primeiro raio já eu dormia.
Saudades desse sol que acordava com o miar dos gatos. Saudades da calçada e do velho autocarro amarelo que me levava a todo o lado, mesmo quando estava atrasado. Gostava dos cigarros clandestinos fumados debruçada na janela. A lua, cúmplice de todas as mentiras, espreitava do outro lado das nuvens.
Já não tenho desses cigarros, já não existem essas janelas da minha memória. Agora tenho o mar azul e a areia de búzios. Os barcos cansados que pousam asas no horizonte e as gaivotas que se recusam a parar de voar.
Há em mim um pequeno floco de gelo que não derrete. As montanhas, as suas gentes. Já não sei porque fiquei longe. Eu sei quem sou.
As noites longas, o rádio sempre a tocar qualquer coisa, mesmo quando tinha muito sono. A janela, entreaberta, deixava entrar o lusco-fusco do amanhecer, e eu lutava por manter os meus olhos bem abertos para ver o sol a acordar, mas nunca conseguia, ao primeiro raio já eu dormia.
Saudades desse sol que acordava com o miar dos gatos. Saudades da calçada e do velho autocarro amarelo que me levava a todo o lado, mesmo quando estava atrasado. Gostava dos cigarros clandestinos fumados debruçada na janela. A lua, cúmplice de todas as mentiras, espreitava do outro lado das nuvens.
Já não tenho desses cigarros, já não existem essas janelas da minha memória. Agora tenho o mar azul e a areia de búzios. Os barcos cansados que pousam asas no horizonte e as gaivotas que se recusam a parar de voar.
Há em mim um pequeno floco de gelo que não derrete. As montanhas, as suas gentes. Já não sei porque fiquei longe. Eu sei quem sou.
Diz-me como é, como é quando sonhas?
Vamos brincar, só mais uma vez!
Eu sempre gostei muito do Romeu e da Julieta. Desta vez achas que eu posso ser o Romeu?
Fazemos assim, eu vou trepar pela tua janela e acordar-te com um sorriso. Tu acordas ensonado sem perceber que sou eu que estou de volta, eu, a subir pela tua janela. Comigo levo uma bola de espelhos antiga que vamos utilizar para dançar músicas indianas.
Imaginamos que somos actores e fazemos o nosso musical, até pudemos dançar no telhado daquela vizinha irritante que nos beliscava os pés quando íamos ver a lua depois de jantar.
Se te apetecer vamos até ao rio e fazemos barquinhos das folhas de Outono, cada um com um tripulante secreto que irá a navegar até ao Oceano, e quem sabe encontre a nossa ilha dos sonhos.
Não temos nenhuma? Tens razão, mas passamos a ter! O nosso pequeno pirata irá encontrá-la para nós! Temos esse pequeno segundo antes do acordar para podermos ser o que queremos.
Não acordes já, vamos ficar aqui mais um bocadinho, neste intervalo entre as palavras que ninguém sabe bem o que dizem, mas que guardam tantas e tantas histórias velhas que querem ser contadas. Eu conto-te histórias para continuares a dormir, para eu poder ficar mais um pouco no teu sono, eu e a minha bola de espelhos que continua a girar! Agora... agora... talvez o velho da guitarra toque para nós e eu continue a embalar-te para que sonhes. Os dias são a noite, e as noites são de dia.
Talvez acorde contigo.
Fazemos assim, eu vou trepar pela tua janela e acordar-te com um sorriso. Tu acordas ensonado sem perceber que sou eu que estou de volta, eu, a subir pela tua janela. Comigo levo uma bola de espelhos antiga que vamos utilizar para dançar músicas indianas.
Imaginamos que somos actores e fazemos o nosso musical, até pudemos dançar no telhado daquela vizinha irritante que nos beliscava os pés quando íamos ver a lua depois de jantar.
Se te apetecer vamos até ao rio e fazemos barquinhos das folhas de Outono, cada um com um tripulante secreto que irá a navegar até ao Oceano, e quem sabe encontre a nossa ilha dos sonhos.
Não temos nenhuma? Tens razão, mas passamos a ter! O nosso pequeno pirata irá encontrá-la para nós! Temos esse pequeno segundo antes do acordar para podermos ser o que queremos.
Não acordes já, vamos ficar aqui mais um bocadinho, neste intervalo entre as palavras que ninguém sabe bem o que dizem, mas que guardam tantas e tantas histórias velhas que querem ser contadas. Eu conto-te histórias para continuares a dormir, para eu poder ficar mais um pouco no teu sono, eu e a minha bola de espelhos que continua a girar! Agora... agora... talvez o velho da guitarra toque para nós e eu continue a embalar-te para que sonhes. Os dias são a noite, e as noites são de dia.
Talvez acorde contigo.
Quem sabe o que poderá acontecer se fecharmos os olhos!
despir
Hoje quero despir-me essas preocupações mundanas e irritantes. Quero somente sentar-me num banco de jardim e não pensar em mais nada. Ter uma caneta azul na mão e escrever todas as coisas que me vierem à cabeça sem me preocupar com os erros ortográficos e a sensação de estar constantemente a falhar. A verdade é que qualquer miúda de 14 anos escreve mais do que eu, e depois?
"querido diário, estou muito feliz, comprei as calças que tanto queria. O a. agora vai reparar em mim, finalmente estou igual a todas as outras miudas do liceu"
Não quero mais uma felicidade alcoólica que me adormece os sentidos e me impede de viver as coisas como realmente são. Não mais esse jogo perigoso de fingir que se vive.
Estes dias quentes de Outubro fazem-me sorrir.
Pudesse eu escrever sempre as coisas que me vêem à cabeça antes de chegarem todos os medos. Pudesse eu ficar-me pelas histórias, esse momento mágico antes de todas as coisas mundanas me afogarem em medos e me despirem das minhas canetas.
A caneta é a minha boca, sem ela nada sei dizer.
Tragam os vossos alfinetes e espetem-nos no meu coração, quero saber se ainda sinto.
7
(...) Sinto a cabeça nadar à roda e as emoções não sei onde param. Não quero arrumar nada, não consigo, não há no espaço espaço que chegue para arrumar a idiotice, ela não cabe em lado nenhum. Porquê um "mim" tão barulhento? Fecho os olhos, mas quem poderá tapar os ouvidos? O som da rua não se cala; as veias não param; as vozes que chegam de todos os lados desta casa deserta de mim. Onde encontrar o fim para sempre? Ou só agora, porque não sei o que quero para sempre... talvez sol, mas isso podia fazer mal às plantas.
Deixem-me aprender a escrever outra vez, "Senhora professora, eu preciso aprender a escrever novamente para escrever coisas bonitas... as minhas mãos só escrevem merda."
Se eu fumasse morria de desejo por um cigarro agora. Como não fumo, a televisão serve.
6
Começo a duvidar da vontade de escrever. A vontade de ser palavra. A vontade de ser mais do que aquilo que posso na realidade. Já não acredito. Suspeito. Desconfio como desconfia o lojista do cliente. Serei de confiança? O que é esse ar de suspeita?
Desconfio como desconfia o cigano do polícia. Sou como os gatos. Quero querer qualquer coisa que ainda não sei o que é ou vai ser. Vou querendo este querer mentiroso que me faz sentir mais segura por sentir que quero querer. E agora? E agora o que fazer no espaço vazio que existe entre querer e o querer o que vou querer?! O que há? Branco. Branco como folha que quero escrever mas que nunca escrevo pois nasci com mãos preguiçosas e com uma cabeça cheia de janelas que me fazem perder na luz branca.
A luz - um hospital para ceguinhos, serve para abrir portas. Fechem as janelas que eu não quero ver o sol.
5
Eu quero escrever todas as folhas do mundo! O quê? Palavras, ora!. Se puder ser eu gostava de contar histórias. Será que há tempo para este sonho se eu tirar uma ficha?
4
Sim, sim, quero parar com essas coisas. Quero estar calada. O que é que estás a fazer?
Deixem-me estar calada a lembrar-me das amendoeiras. O cheiro do batatal de madrugada, o barulho das mulheres do campo a bater os baldes enquanto esperam por mais um amanhecer. Calem-se também os grilos que cantam.
A mãe quer chá? Eu queria amigos, mas paciência, as crianças não podem ter tudo. Não faz mal, eu faço o chá e invento as crianças nos livros e nas coisas.
Eu falava sozinha "O que é que estás a fazer?", nos livros, nas coisas. Eu falava sozinha e imaginava um mundo diferente em que me obrigavam a comer a sopa e a tomar banho. Pensando bem sou uma cigana. Sempre de cá para lá, um deambular solitário de quem só quer comer pão com manteiga.
Ao menos que eu tivesse tido um burro.
1
"Necessitava de falar com os outros para me ver melhor a mim."
Naquele tempo embebedava-me com leite. Corria descalça e deixava o meu corpo refrescar-se com o vento das tardes de Verão. Abria os braços e rodava. Naquele tempo o coração batia e eu deixava. Agora bate com uma fúria que desconheço e só quero que ele acalme. O mundo assim roda demasiado rápido.
moral da história
Ontem fui ao teatro. É um teatro pequeno com peças sempre muito diferentes.
A peça chama-se "aquário na gaiola". Uma história a fugir para o "contemporâneo juvenil".
Uma história de amor no século XXI (presumo), os temas de antes: as diferenças entre as classes sociais, o impacto que isso tem nos amor e no personagem.
A verdade é que a peça focou um ponto importante do mundo em que vivemos agora: o exterior de cada um de nós vale tudo, aquilo que somos, não vale quase nada. Todos diferentes todos iguais. Não quereremos nós ser iguais a toda a gente para assim sermos aceites nesta sociedade "voyeurista"?
Uma das falas da personagem Inês ficou-me como que gravada "é proibido ser-se feio". Não há uma lei escrita que o proíba, mas sim uma lei que se espalha como um vírus. O que é o conceito de beleza hoje em dia?
Às vezes sinto que sou de outro tempo, algures num lugar onde as pequenas coisas também são importantes...
fragmento de um diário antigo II
Eu não tive muitas avós.
Tudo o que me foi legado como herança foram as histórias perdidas que me iam contando, memórias esbranquiçadas pelo sol de pessoas que ainda se recordavam dessas avós de outros tempos.
Aquela que mais curiosidade me deixou foi a avó Conceição. Acho que o primeiro nome era Maria. O meu pai, homem de poucas palavras e afectos, nada, ou muito pouco, me falou dela, mas todas as migalhas que consegui reunir me fazem crer que era uma mulher forte, inteligente e perspicaz. Cresceu e viveu numa época em que as mulheres pouca importância tinham no mundo (achavam os homens dessa época, tal como o meu avô Fernando, homem do campo que se casou com a Conceição ninguém sabe bem como).
Não sei de onde era essa minha avó, acho que em tempos perguntei ao meu pai, mas foi uma resposta vaga, um lugar nenhum. Pressuponho que seja transmontana como toda a minha família. O sobrenome, não o sei também, os seus 7 filhos herdaram somente o Magalhães; dela, mulher magra e frágil, talvez as feições e a magreza.
Nasceu no século XIX, cresceu na época áurea da evolução. Viajou em jovem, viveu no Porto, trabalhando em casa de alguns senhores importantes, penso, e viveu em Inglaterra, de onde veio a saber tocar violino e a falar Inglês, coisa que ela muito se orgulhava. Durante toda a vida disse que não se casaria com um homem simples, e um piparote do destino deixou-a casada com um homem do campo, a viver numa pequena aldeia em Trás-os-Montes, grávida do seu primeiro filho e a gerir uma pequena Venda (mercearia). Dizem que foi a idade que assustou seus pais e a quiseram despachar o mais rápido possível não fosse ela acabar solteira - desgraça.
Dizem que era má, brincava malevolamente com a inocência dos que na altura pouco percebiam do mundo, sábios apenas nas épocas das colheitas e na qualidade das batatas.
Envelheceu franzina, amarga e distante. Só, num mundo que não reconhecia. Era costureira, nos seus últimos anos dava aulas. Com ela também a minha mãe aprendeu essas artes das agulhas. Quando ela morreu, teria eu uns 5 anos, lembro-me de mexer na sua máquina de costura e encontrar botões pretos.
Não sei se a teria amado, mulher bruxa, vestida de preto e ríspida. Mas fez crescer em mim a curiosidade que a querer explorar, desvendar quem seria essa mulher.
un jour colour d'orange, tu comprend mon cherie?
quero viver na época da Beatlemania =(
Vou fazer birra...
Porque tudo é tão triste? Ah... se ele soubesse. (carta tresloucada de sexta)
Eu quero uma mini saia. Sim, é verdade, parece que os meus 15 anos finalmente chegaram e quero uma mini saia! O meu cabelo está maior do que quando nos conhecemos, talvez agora possas trepar a torre! Eu faço crepes e podemos ver filmes a noite toda! Ou se preferires, fugimos como dantes. Ah, parecem pequeninas formigas estas emoções que se perderam. Estão a voltar, sentem-se da mesma forma que um pé dormente quando dormimos mal... Ah, as viagens de comboio, os candeeiros das cidades à noite... Vou devorar tudo como se de um chocolate se tratasse! Vou pegar em ti e abanar-te, abanar-te e beijar-te e abraçar-te! Quero correr no lusco-fusco de braços abertos e rodar a olhar o céu. Despimo-nos e eu finjo que sou tu e tu és eu, até uso o teu chapéu!
Ah, se as palavras tivessem fechaduras especiais e tu tivesses todas as chaves, poderias descobrir mil tesouros escondidos em tantos e tantos papéis esquecidos e rasgados, palavras e palavras... Ah, que loucura, quero dançar só porque me apetece... e não estou farta, e uso as reticencias como qualquer miúda apaixonada com 13 anos!
Fazes parte das minhas reticencias. És o terceiro ponto.
Escolhi esse porque é o que está mais longe, assim posso espiar-te sem saberes.
Sabias que as árvores às vezes têm maçãs?
Bilhete por baixo do guardanapo, xiu, é segredo!
Não me podes julgar. Eu não deixo.
Se tenho o poder para fazer alguma coisa? Não, mas não acho justo.
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