Your softly spoken words
Release my whole desire
Undenied
Totally
And so bare is my heart, I can't hide
And so where does my heart, belong
Beneath your tender touch
My senses can't divide
Ohh so strong
My desire
For so bare is my heart, I can't hide
And so where does my heart, belong
Now that I've found you
And seen behind those eyes
How can I
Carry on
For so bare is my heart, I can't hide
And so where does my heart, belong
Belong
Belong
Belong
(Portishead)
Oxalá (se quiserem ouvir o que eu ando a ouvir - A Andorinha da Primavera - Madredeus!)
Quero comprar uma peruca nova! Eu costumava usar uma peruca loira, mas já não a tenho. Quero uma peruca nova! Eu vi uma de que gostei muito, acho que vou comprar! (Hum... começar um texto com "quero comprar uma peruca nova" é esquisito! Acho que o sol me está a dar a volta à cabeça, está sol!!! Dá para acreditar!? Só me apetece sorrir e mudar o mundo!)
Hoje não vou vestir-me de nenhum personagem, vou falar na primeira pessoa.
Estou já na casa nova (para quem não sabe eu mudei-me de casa!). Foi um começo complicado, 4 dias sem água quente, 7 dias sem cozinha, 10 dias sem móveis (e a somar, sabe-se lá quando iremos ter dinheiro para esses luxos)!
Está a ser uma experiência interessante, passámos de uma casa completamente mobilada para o extremo oposto - nem sequer temos sofá para nos sentarmos! Bah, assim é que é, nús e com sonhos!
Ao menos temos agora o sol para aliviar a sensação de não ter casa!
Hoje, acordei mais optimista! A cereja no topo do bolo foi mesmo a intoxicação alimentar com dores de cabeça! Foram os 4 dias mais estranhos da minha vida, dormia, acordava cansada, não tinha fome, parecia quase que a vida não valia a pena! Agora vejo o sol, bem brilhante e gordo, ao fundo do túnel! E apesar de ainda querer emagrecer uns bons 3 quilinhos, digo-vos, é bom ter vontade de comer, ter a sensação de fome!
Ai, o que é que foi que me deu! Estou estupidamente alegre, tão alegre que quase não consigo deixar de ser eu, quase não consigo entrar no mundo da fantasia que é a escrita!
Com vontade de fazer listas intermináveis de coisas que quero, acho que nunca quis tantas coisas (incluindo flores frescas e uma peruca nova!), apetece-me mudar de país e... mudar de vida! Gosto da vista da minha janela. Uma casa estilo séc XIX, amarelo antigo, portadas de madeira brancas, árvores altas, o sol a iluminar tudo, como se um quadro antigo se tratasse. Saudades desse mundo antigo que já ninguém sabe onde encontrar!
Bem, depois coloco aqui umas fotografias a mostrar a nossa nova toca (desta vez não vou dar mão de uma secretária só para mim, livre de computadores, com um candeeiro de vidro e folhas para escrever... preciso do meu canto da escrita!).
Se quiserem ir espreitando o antes e o depois desta aventura de comprar casa vão a -www.queridocompramoscasa.blogspot.com - assim sempre podem rir-se da nossa caricata situação!
Maria, Maria... isto não é um diário!
Hoje não vou vestir-me de nenhum personagem, vou falar na primeira pessoa.
Estou já na casa nova (para quem não sabe eu mudei-me de casa!). Foi um começo complicado, 4 dias sem água quente, 7 dias sem cozinha, 10 dias sem móveis (e a somar, sabe-se lá quando iremos ter dinheiro para esses luxos)!
Está a ser uma experiência interessante, passámos de uma casa completamente mobilada para o extremo oposto - nem sequer temos sofá para nos sentarmos! Bah, assim é que é, nús e com sonhos!
Ao menos temos agora o sol para aliviar a sensação de não ter casa!
Hoje, acordei mais optimista! A cereja no topo do bolo foi mesmo a intoxicação alimentar com dores de cabeça! Foram os 4 dias mais estranhos da minha vida, dormia, acordava cansada, não tinha fome, parecia quase que a vida não valia a pena! Agora vejo o sol, bem brilhante e gordo, ao fundo do túnel! E apesar de ainda querer emagrecer uns bons 3 quilinhos, digo-vos, é bom ter vontade de comer, ter a sensação de fome!
Ai, o que é que foi que me deu! Estou estupidamente alegre, tão alegre que quase não consigo deixar de ser eu, quase não consigo entrar no mundo da fantasia que é a escrita!
Com vontade de fazer listas intermináveis de coisas que quero, acho que nunca quis tantas coisas (incluindo flores frescas e uma peruca nova!), apetece-me mudar de país e... mudar de vida! Gosto da vista da minha janela. Uma casa estilo séc XIX, amarelo antigo, portadas de madeira brancas, árvores altas, o sol a iluminar tudo, como se um quadro antigo se tratasse. Saudades desse mundo antigo que já ninguém sabe onde encontrar!
Bem, depois coloco aqui umas fotografias a mostrar a nossa nova toca (desta vez não vou dar mão de uma secretária só para mim, livre de computadores, com um candeeiro de vidro e folhas para escrever... preciso do meu canto da escrita!).
Se quiserem ir espreitando o antes e o depois desta aventura de comprar casa vão a -www.queridocompramoscasa.blogspot.com - assim sempre podem rir-se da nossa caricata situação!
Maria, Maria... isto não é um diário!
o risco de não ter casa
mudámos de casa. mudar de casa é sempre complicado, é como mudar de país. tens de voltar a escolher lugares onde te sentes bem para escrever, redescobrir onde cada coisa deve ficar... é muito complicado tudo isso. sinto que agora não tenho mesmo casa. é muito estranho, sou uma espécie de sem abrigo que vive dentro de uma casa que não conhece...
escrito num pacote de açucar
Gostei de te encontrar debruçado na varanda a descascar rebuçados. Tinhas as bochechas de antigamente, rosadas e infantis, aquele ar malandro, o olhar meigo... tanto tempo, quase não me lembrava de ti. Chamas-te por mim, uma, talvez duas vezes, só então te vi. Queria ter sussurrado segredos e coisas malandras, mas limitei-me a sorrir e a acenar-te. Ah, como ainda vives nas paredes do meu quarto, à noite, escondido no escuro, sussurrando palavras de amor, e eu a adormecer com sorrisos gigantes naquele calor imenso que era a nossa vida, que era o mundo.
Sei que são desejos impossíveis, as memórias que restam são vagas.
Saudades das noites de Verão.
Carta (parte II)
Bebi demasiado chá, não me estou a sentir muito bem, mas a carta tem de continuar para a poder colocar amanhã de manhã bem cedo no correio. Vou usar daqueles envelopes que têm o maravilhoso frame azul e vermelho! São os meus favoritos!
Percebi finalmente que quando deixamos de ter quem nos mande para cama ou quem nos obrigue a comer bróculos (obriguem-me, eu adoro!9, deixamos de ser tão activos. Preciso de uma guerra qualquer, por favor, desafiem-me num duelo de morte!
Querido amigo, sinto que estou numa história de crianças mas as coisas não parecem fazer sentido, e eu tento, acredita, tento não deixar de ver aquela linda árvore amarela lá ao fundo, sim, a amarela, mas tudo indica que ela é verde. Tudo equivale a X. E eu tenho sonhos de ruas inclinadas, bons dias, o café, o caderno com rabiscos. Às vezes não consigo falar dos meus sentimentos. Consigo mascará-los de formigas e fazê-los desfilar diante de uma manada de papa-formigas sem os bichos perceberem que ali têm um belo banquete animal... (disperso-me?)
Estou a reaprender a comunicar, é mais difícil do que eu me lembrava, é sempre mais fácil vestir-me de qualquer coisa e fingir que esta não sou eu, eu sou aquela que está esparramada em meia dúzia de linhas e que tem a vida mais fascinante alguma vez vista (sim, comeu mangas no Cambodja e...).
Aqui estou, sem o meu sofá verde, os telhados das minhas aventuras, as janelas, o rádio que tocava sem parar... Onde tenho estado eu ao longo de todo este tempo? Sentada cá atrás a ver e sem perceber estes nós que se formaram à minha volta. Tenho saudades das coisas mais simples.
Quero recuperar essa fascinação e... e viver finalmente como sempre gostei! Vou colocar esta carta dentro de um envelope e enviar-ta, perdoa-me, meu querido, querido amigo, é um esquisso amargo de quem dá os primeiros passos no caminho de regresso à estrada principal!
Não tenho um cão, nem esse cão que não tenho tem cão... e os dias não são sempre uma montanha russa com túneis secretos, às vezes os meus chinelos podem incomodar, porque são os mesmos todos os dias, mas e depois?
Quando quiseres, diz-me, e vamos desenhar esse café.
E, e fica prometido... outras cartas chegarão!
Um abraço apertado, deste lado do mundo
Percebi finalmente que quando deixamos de ter quem nos mande para cama ou quem nos obrigue a comer bróculos (obriguem-me, eu adoro!9, deixamos de ser tão activos. Preciso de uma guerra qualquer, por favor, desafiem-me num duelo de morte!
Querido amigo, sinto que estou numa história de crianças mas as coisas não parecem fazer sentido, e eu tento, acredita, tento não deixar de ver aquela linda árvore amarela lá ao fundo, sim, a amarela, mas tudo indica que ela é verde. Tudo equivale a X. E eu tenho sonhos de ruas inclinadas, bons dias, o café, o caderno com rabiscos. Às vezes não consigo falar dos meus sentimentos. Consigo mascará-los de formigas e fazê-los desfilar diante de uma manada de papa-formigas sem os bichos perceberem que ali têm um belo banquete animal... (disperso-me?)
Estou a reaprender a comunicar, é mais difícil do que eu me lembrava, é sempre mais fácil vestir-me de qualquer coisa e fingir que esta não sou eu, eu sou aquela que está esparramada em meia dúzia de linhas e que tem a vida mais fascinante alguma vez vista (sim, comeu mangas no Cambodja e...).
Aqui estou, sem o meu sofá verde, os telhados das minhas aventuras, as janelas, o rádio que tocava sem parar... Onde tenho estado eu ao longo de todo este tempo? Sentada cá atrás a ver e sem perceber estes nós que se formaram à minha volta. Tenho saudades das coisas mais simples.
Quero recuperar essa fascinação e... e viver finalmente como sempre gostei! Vou colocar esta carta dentro de um envelope e enviar-ta, perdoa-me, meu querido, querido amigo, é um esquisso amargo de quem dá os primeiros passos no caminho de regresso à estrada principal!
Não tenho um cão, nem esse cão que não tenho tem cão... e os dias não são sempre uma montanha russa com túneis secretos, às vezes os meus chinelos podem incomodar, porque são os mesmos todos os dias, mas e depois?
Quando quiseres, diz-me, e vamos desenhar esse café.
E, e fica prometido... outras cartas chegarão!
Um abraço apertado, deste lado do mundo
a tua amiga que te ama
R
Carta (parte I)
Querido amigo:
Parecem séculos desde a ultima carta, talvez tenham sido (3 anos?)... Ah, por onde começar depois de tanto tempo, é como se houvesse uma barreira de vidro entre nós e pudéssemos apenas desenhar coisas abstractas com os dedos no vidro, talvez soprar (ou é bufar?) e desenhar qualquer coisa, uma chávena de café, tu desenhas outra, era um bom começo de conversa, não achas?
Talvez não para ti, era demasiado comprometedor verem-te a desenhar uma chávena de café (será que aqueles dois andam?)...
Sinto falta destas cartas do "como estás tu? ainda não morreste, pois não?".
Não, e esta carta é para te provar que ainda aqui estou!
Aqui, na cidade dos descobrimentos e dos navios sem destino. A ouvir Amy Seeley (ah, pois, agora sou eu a mostrar-te música, bem feita!). Bem, vou redireccionar esta caneta que se perde já nas entrelinhas em vez de mergulhar nas coisas que realmente interessam. Já tenho 24 anos, é verdade, ainda ontem parecia entrar nos 16, ainda ontem parecia que eu vestia t-shirts com flores e calças à boca de sino (eu queria muito ser hippie... e tinha umas calças azuis que adorava), agora aqui estou, mais despersonalizada que nunca. A verdade é que quanto mais cresço menos sei das coisas, parece quase uma viagem ao contrário... é mesmo assim? Já não tenho o meu antigo sofá verde, onde nos deitávamos para ver as estrelas que desenhámos com as canetas de feltro no tecto, agora é um sofá qualquer que nem sei para que serve. Sinto falta de um ombro amigo para poder dizer que me quero mudar para África e viver numa palhota a cantar e a dançar com os meninos da escola.
Poder dizer isto sem levar palmadas no rabo "salva-te a ti primeiro...".
Isto de crescer é como na escola, temos de estar constantemente a mostrar a todos que somos muito fixes, "o que é que fazes? " - "limpo latrinas".
Juro que um dia me vai escapar sem querer!
Acho que sou assim, uma cabeça de vento que nunca sabe bem para que lado vai soprar nem quando! Eu quero escrever. Essa é a minha paixão, vestir-me de lobo, mas na verdade eu sou o capuchinho vermelho. Viver a vida de uma criança de cinco anos novamente. Viver a vida de um senhor de 85, como se na verdade essa fosse a minha vida.
Vender flores. Enviar ramos a desconhecidas solteiras, sorrir, malandrar com malmequeres - bem-me-queres.
No entanto preciso de mais emoções, a vida é feita delas sabes?! Correr até o coração bater tão rápido que parece que vai sair de nós e correr ainda mais depressa. Ouvir alguém tocar na rua e chorar de emoção... rir às gargalhadas!
Onde estão todas essas coisas?
Parecem séculos desde a ultima carta, talvez tenham sido (3 anos?)... Ah, por onde começar depois de tanto tempo, é como se houvesse uma barreira de vidro entre nós e pudéssemos apenas desenhar coisas abstractas com os dedos no vidro, talvez soprar (ou é bufar?) e desenhar qualquer coisa, uma chávena de café, tu desenhas outra, era um bom começo de conversa, não achas?
Talvez não para ti, era demasiado comprometedor verem-te a desenhar uma chávena de café (será que aqueles dois andam?)...
Sinto falta destas cartas do "como estás tu? ainda não morreste, pois não?".
Não, e esta carta é para te provar que ainda aqui estou!
Aqui, na cidade dos descobrimentos e dos navios sem destino. A ouvir Amy Seeley (ah, pois, agora sou eu a mostrar-te música, bem feita!). Bem, vou redireccionar esta caneta que se perde já nas entrelinhas em vez de mergulhar nas coisas que realmente interessam. Já tenho 24 anos, é verdade, ainda ontem parecia entrar nos 16, ainda ontem parecia que eu vestia t-shirts com flores e calças à boca de sino (eu queria muito ser hippie... e tinha umas calças azuis que adorava), agora aqui estou, mais despersonalizada que nunca. A verdade é que quanto mais cresço menos sei das coisas, parece quase uma viagem ao contrário... é mesmo assim? Já não tenho o meu antigo sofá verde, onde nos deitávamos para ver as estrelas que desenhámos com as canetas de feltro no tecto, agora é um sofá qualquer que nem sei para que serve. Sinto falta de um ombro amigo para poder dizer que me quero mudar para África e viver numa palhota a cantar e a dançar com os meninos da escola.
Poder dizer isto sem levar palmadas no rabo "salva-te a ti primeiro...".
Isto de crescer é como na escola, temos de estar constantemente a mostrar a todos que somos muito fixes, "o que é que fazes? " - "limpo latrinas".
Juro que um dia me vai escapar sem querer!
Acho que sou assim, uma cabeça de vento que nunca sabe bem para que lado vai soprar nem quando! Eu quero escrever. Essa é a minha paixão, vestir-me de lobo, mas na verdade eu sou o capuchinho vermelho. Viver a vida de uma criança de cinco anos novamente. Viver a vida de um senhor de 85, como se na verdade essa fosse a minha vida.
Vender flores. Enviar ramos a desconhecidas solteiras, sorrir, malandrar com malmequeres - bem-me-queres.
No entanto preciso de mais emoções, a vida é feita delas sabes?! Correr até o coração bater tão rápido que parece que vai sair de nós e correr ainda mais depressa. Ouvir alguém tocar na rua e chorar de emoção... rir às gargalhadas!
Onde estão todas essas coisas?
(continua)
make a turn
Hoje quero ser menina. Sim, vestidos com lacinhos, baton, perfume e flores. Saudades de comprar ramos de flores e de as colocar dentro de garrafas com significados especiais. Dançar Belle & Sebastian às três horas da manhã quando já estou farta de ver televisão e me começo a sentir um bocadinho sozinha. Fazer café e beber chávenas cheias como se fosse chá. Coisas de miúda.
Cinzento escuro
Não posso salvar o mundo. Seria óptimo acordar um dia e dizer, hoje, vou salvar o mundo, não me telefonem. A verdade é que não há nada para salvar, nada para acontecer, nada para surpreender. A vida é uma sopa de dias que vamos mexendo na esperança que nos saia um dia de sol, quem sabe um dia romântico, na melhor das hipóteses um dia em que nos sai o Euromilhões e...
E podemos fingir que somos felizes com estilo!
Eu gostava de sopa de letras porque podia escrever as palavras que queria com a comida.
Agora tenho mais dificuldade em gostar das pequenas coisas da vida. Tudo se vai tornando gradualmente mais complicado, mais cinzento...
Somos escravos.
o dia um
Não sei porque ainda aqui venho - de vez enquando, certo, mas venho.
Sinto-me como uma velhinha de 80 anos que guarda de baixo da cama uma caixa de sapatos com cartas secretas que esconde desde que se casou aos 20.
É como escrever cartas sem destinatário que guardo, não sei para quê. Acho que é a esperança vã de encontrar alguém que leia a língua que eu falo.
Bem... aqui estou para escrever qualquer coisa sobre - sobre nada, quem sabe.
Escrevia sobre Lisboa para alguém que não conheço quando lhe digo que ao menos em Lisboa me encontro na cidade de onde grandes marinheiros partiram para lugares longínquos e desconhecidos, e sendo assim, esperava ser contagiada por esse espírito aventureiro e ser levada também para longe num navio pirata.
Ser destemida, não haver o medo do desconhecido, levar comigo um papagaio que come bananas para todo o lado e ter uma perna de pau da qual me orgulho bastante, obrigado por perguntarem.
Os primeiros dias do ano são sempre soturnos, parece que algo muda, temos sonhos e planos e lá ao fundo, nos meses que se avizinham, muitas tempestades e ilhas que não conhecemos, tribos canibais a querer comer a minha outra perna, e as saudades do nosso porto, lá longe numa Pátria da qual só nos lembramos do nome, e na memória umas imagens deslavadas de um rio.
Às vezes parece mais que estou num navio sem rumo, perdido no meio do oceano, sem saber para onde ir. Bah... disparates do primeiro dia do ano.
Maria Caxuxa - 10 e muitos anos
Querido Ano Novo
Estou a escrever-te esta carta porque tenho umas coisinhas para te pedir. Deves estar admirado, não deve ser todos os dias que recebes uma carta, achas que só o Pai Natal tem esse privilégio. Como vês, não podes estar mais enganado. Bem, estou a escrever esta carta porque eu quero pedir-te umas coisinhas, sim, é uma daquelas cartas de "pedir coisas", esperavas o quê, que fosse uma carta de "Obrigado por mais um ano"? Também poderia ser, mas não é.
Bem, deixemo-nos de rodeios.
Querido Ano Novo, ouvi dizer que estás muito zangado e que vais dificultar a vida a toda a gente este ano. Não imagino porquê, será por causa do aquecimento global? Da reciclagem? Bem... ouvi dizer que estás mesmo mesmo zangado e que vai ser um ano terrível e difícil.
Não achas que já chega de anos terríveis e difíceis? Quer dizer, se reparares todos os anos fazemos (nós, humanos, os animais são animais bem mais simples), fazemos planos e listas de coisas que queremos mudar na nossa vida, e acredites ou não estamos empenhados a fazê-lo.
Queremos de facto melhorar a pessoa que somos e as coisas que fazemos, mas depois, depois os meses passam que nem cavalos selvagens num lago, levantam toda aquela nuvem de água no ar e acabamos por nos perder desse desejo de melhorar, de mudar. O que eu quero dizer é que todos os anos nos distraímos com as coisas mais estranhas: a bolsa, a guerra, as bombas, o emprego, o dinheiro que nunca chega para aquelas botas que eu tanto quero, para aquele fim de semana no Porto que ando a planear à séculos, enfim... todos os anos os teus primos fazem o mesmo, levam-nos num barquinho calminho, onde adormecemos sem mudar nada e subitamente temos mais um ano à porta e na nossa lista os mesmos desejos. Estás zangado, e possivelmente vais distrair toda a gente com problemas financeiros, consequentemente problemas familiares, a tristeza, a agonia... e mais uma vez vais fazer o que todos os outros anos fizeram, vais afastar-nos dos nossos objectivos (aquela simples lista que nos poderia fazer uma pessoa melhor).
Desafio-te a ser um ano diferente. O ano da diferença na vida de todos. Se emagrecer está na lista, então força de vontade, trás força de vontade, a força de vontade é capaz de fazer muito, até serve para ultrapassar as intempéries que aí trazes. Se mudar de emprego está na lista, que haja outras oportunidades, negócios a florescer, ideias no ar que sobrevivam. Se "Ser Feliz" também está na lista, que haja dias de sol, passeios na praia, mais piqueniques! Que haja mais amor, que ajudemos quem mais precisa, que não guardemos mais tempo dentro de nós as coisas que temos para dar aos outros. Lembra-te que podes ser o último ano para muitas pessoas, não queres fazer a diferença?
Tu podes fazer a diferença na vida de todos. Desejo que este ano, tu, não seja mais um ano como todos os outros, um barco que nos leva na corrente para lugares que não queremos ir.
Estou a escrever-te esta carta porque tenho umas coisinhas para te pedir. Deves estar admirado, não deve ser todos os dias que recebes uma carta, achas que só o Pai Natal tem esse privilégio. Como vês, não podes estar mais enganado. Bem, estou a escrever esta carta porque eu quero pedir-te umas coisinhas, sim, é uma daquelas cartas de "pedir coisas", esperavas o quê, que fosse uma carta de "Obrigado por mais um ano"? Também poderia ser, mas não é.
Bem, deixemo-nos de rodeios.
Querido Ano Novo, ouvi dizer que estás muito zangado e que vais dificultar a vida a toda a gente este ano. Não imagino porquê, será por causa do aquecimento global? Da reciclagem? Bem... ouvi dizer que estás mesmo mesmo zangado e que vai ser um ano terrível e difícil.
Não achas que já chega de anos terríveis e difíceis? Quer dizer, se reparares todos os anos fazemos (nós, humanos, os animais são animais bem mais simples), fazemos planos e listas de coisas que queremos mudar na nossa vida, e acredites ou não estamos empenhados a fazê-lo.
Queremos de facto melhorar a pessoa que somos e as coisas que fazemos, mas depois, depois os meses passam que nem cavalos selvagens num lago, levantam toda aquela nuvem de água no ar e acabamos por nos perder desse desejo de melhorar, de mudar. O que eu quero dizer é que todos os anos nos distraímos com as coisas mais estranhas: a bolsa, a guerra, as bombas, o emprego, o dinheiro que nunca chega para aquelas botas que eu tanto quero, para aquele fim de semana no Porto que ando a planear à séculos, enfim... todos os anos os teus primos fazem o mesmo, levam-nos num barquinho calminho, onde adormecemos sem mudar nada e subitamente temos mais um ano à porta e na nossa lista os mesmos desejos. Estás zangado, e possivelmente vais distrair toda a gente com problemas financeiros, consequentemente problemas familiares, a tristeza, a agonia... e mais uma vez vais fazer o que todos os outros anos fizeram, vais afastar-nos dos nossos objectivos (aquela simples lista que nos poderia fazer uma pessoa melhor).
Desafio-te a ser um ano diferente. O ano da diferença na vida de todos. Se emagrecer está na lista, então força de vontade, trás força de vontade, a força de vontade é capaz de fazer muito, até serve para ultrapassar as intempéries que aí trazes. Se mudar de emprego está na lista, que haja outras oportunidades, negócios a florescer, ideias no ar que sobrevivam. Se "Ser Feliz" também está na lista, que haja dias de sol, passeios na praia, mais piqueniques! Que haja mais amor, que ajudemos quem mais precisa, que não guardemos mais tempo dentro de nós as coisas que temos para dar aos outros. Lembra-te que podes ser o último ano para muitas pessoas, não queres fazer a diferença?
Tu podes fazer a diferença na vida de todos. Desejo que este ano, tu, não seja mais um ano como todos os outros, um barco que nos leva na corrente para lugares que não queremos ir.
Espero que penses nisto com todo o carinho.
Beijinhos
Maria Caxuxa, Portugal
Paloma - com chá e panettone
Dicen que por las noches
No má¡s se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
Ay, ay, ay, ay, ay
Gemia
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
De pasion mortal Moria
Que una paloma triste
Muy de maá±ana le va a cantar
A la casita sola
Con las puertitas de par en par
Juran que esa paloma
No es otra cosa mas que su alma
Que todavia la espera
A que regrese la desdichada
Cucurrucucu
Paloma
Cucurrucucu
No llores
Las piedras jamás
Paloma
Que van a saber
De amores
No má¡s se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
Ay, ay, ay, ay, ay
Gemia
Ay, ay, ay, ay, ay
Cantaba
De pasion mortal Moria
Que una paloma triste
Muy de maá±ana le va a cantar
A la casita sola
Con las puertitas de par en par
Juran que esa paloma
No es otra cosa mas que su alma
Que todavia la espera
A que regrese la desdichada
Cucurrucucu
Paloma
Cucurrucucu
No llores
Las piedras jamás
Paloma
Que van a saber
De amores
Olha lá... eu tenho um número da sorte
É com todos os meus dedos pintalgados de tinta que aqui venho anunciar que se hoje houvesse um gelado no frigorífico eu fazia birra como se fosse uma miúda de 10 anos. Hoje não quero ir à escola, quero calçar as minhas galochas vermelhas e ir passear no meio das vinhas abandonadas para ver se encontro algum ninho, se não encontrar, então talvez tropece numa raposa e me deite de barriga para cima na relva quentinha com um cobertor de raios de sol.
Hoje quero andar de lacinhos no cabelo, correr e comer torradas com chá quando chegar a casa, naqueles bules antigos que já ninguém usa.
Hoje quero andar de lacinhos no cabelo, correr e comer torradas com chá quando chegar a casa, naqueles bules antigos que já ninguém usa.
Ceremony
O Porto veio visitar Lisboa. As mesmas nuvens, a chuva, o frio. Só falta aquela luz amarelada do anoitecer, quando os candeeiros se acendem para iluminar as ruas enegrecidas pelo tempo. tenho saudades das vitrinas dos cafés, as mesas apinhadas, o brilho das luzes reflectida no chão...
Ah, como me sabe bem esta visita!
pensamento violento numa tarde vazia de sol e humor
Sim, é verdade, queria não fazer nada, assim o fazer nada resumia-se ao pensar, actividade que constantemente pratico mas que é constantemente esquecida. O não fazer nada permitiria a mim mesma a paz de fazer somente uma coisa e não duas, ou mais. O não fazer nada dói-me como os joanetes a um velho.
Se o meu nome fosse YeKaterinna, nascida e criada na Rússia, pensaria na ordem pela qual teria de limpar as casas amanhã. YeKaterinna, criada pela avó, violada pelo tio, vendida e revendida pelos bordéis europeus até aos 28, abandonada em Sevilha aos 31, 2 abortos, 7 países, espancada e só.
Pensar nas casas a limpar no dia seguinte parece-me bem.
Pensar nas casas a limpar no dia seguinte parece-me bem.
as árvores sabem cantar
Ainda tenho uma carteira grande onde posso guardar garrafas de vinho verde. Vamos comprar? O parque deve estar vazio a esta hora, pomos musica a tocar e dançamos com a garrafa na mão, dançamos aquela música que fala sobre árvores que voam.
Sinto falta desses momentos em que nos deixávamos ir sem pensar nas consequências, o tempo era uma mentira e nós éramos deuses capazes de mudar o mundo. Eu acreditava em mim. Eu acreditava naqueles beijos na boca, todos eles.
Sinto falta desses momentos em que nos deixávamos ir sem pensar nas consequências, o tempo era uma mentira e nós éramos deuses capazes de mudar o mundo. Eu acreditava em mim. Eu acreditava naqueles beijos na boca, todos eles.
Depois corríamos e rebolávamos na relva húmida pelo orvalho. As estrelas multiplicavam-se porque nós assim o queríamos, queríamos mais estrelas, mais céu, mais sentimento.
A todos esses momentos, eu dedico esta dança tresloucada de sábado à noite.
não importa quem és
Como companhia, tenho uma chávena de chá e um CD de 2006 que toca repetidamente. Hoje as cores acordaram mais esbatidas, e eu preciso delas no pico da sua concentração. Preciso sentir que afinal o frio do inverno já se sente nos dedos das mãos... também eu o consigo sentir.
Não passo de uma criança com um caderno rabiscado, cheio de listas de sonhos que ora quero ora esqueço, às vezes, quando a revejo, alguns desses sonhos já se concretizaram, outros morreram antes de nascer - sonho morto a 21 de Novembro por falta de amor.
Preciso daqueles momentos em que danço sozinha na semi-escuridão de umas belas noites solitárias. Hoje fí-lo na banheira enquanto a água corria quente, o público?
Um gato e muitas outras partes de mim, partes sorridentes por saírem um bocadinho cá para fora.É preciso arrumar a minha cabeça para finalmente começar a fazer alguma coisa da minha vida, coisas fantásticas e verdes, como árvores plantadas na Primavera. A cultivar uma pequena história, Olenka, a personagem que imagino na minha cabeça, veio viver para Portugal este ano...
Ah, o mundo inteiro é um carrossel. Hoje, quero andar no cavalo, amanhã, amanhã talvez opte pela chávena. No meu íntimo, estás do lado de fora a fazer girar a minha chávena para que tudo se torne mais emocionante.
O chá persegue-me, e as recordações boas também.
Espero que eles saibam que tenho saudades.
coisas de sexta
Também eu preciso de arrumar a minha cabeça. De dentro para fora. Ah, eu só queria ser pequenina para poder não pensar em coisas de adulto. Sonhar nos intervalos dos desenhos animados e brincar com bonecos até adormecer.
pensamentos de loucura
Foi já vestida de branco que todas as dúvidas a assolaram. Estaria a seguir o caminho que sonhara para si? Era, aquela rapariga assustada com sombra rosa que via reflectida no espelho, a mulher que sonhara ser?
Haveria algures lugares mais fantásticos, pessoas mais interessantes, vidas mais fascinantes que aquela que estava a viver no seu quarto de adolescente?
Depois de comer mais um croquete quentinho pegou no seu saco de viagem e mascarada de freira saiu do hospital sem haver perguntas, ainda não sabia bem porquê, mas a fome tinha passado e o céu azul prometia sol.
Não havia nada a temer.
Constatação nº 1002
MENSAGEM ANÓNIMA NUM GUARDANAPO DE PAPEL
Ainda que me ames, há dias em que me sinto como o Salomão.
Ainda que me ames, parece que me queres mandar para longe.
que bom que era, ò andorinha, na primavera também voar (ah, aquela guitarra)
Hoje, enquanto fazia o meu percurso diário para a pé, usando os meus novos brincos de menina de sonhos, pensei no que é de facto o amor, será a ilusão de acreditarmos que aquela pessoa é a que sonhamos a vida inteira, ainda que não totalmente a dos sonhos?
Pensava que, em todas as relações há um momento de silêncio entre as duas pessoas, aquele momento em que pensamos "serás tu o tal?". Será que acreditamos mesmo nisso?
E aquela busca eterna, a tentava de descobrir quem é quem?
Aquele copo de vinho que me foi oferecido depois de me resgatarem a uma noite aborrecida de revistas e filmes, aquele copo fez-me perceber que de facto as pessoas não podem ser tudo quilo que gostaríamos que fossem, ainda assim, há nelas coisas que precisamos para nos complementarem os dias de sol. Pensando em todas as pessoas da minha vida, amigos, paixões, o amor... não trocava nada deles por um ser perfeito.
Não sei bem que texto é este, não costumo escrever sobre estas coisas. Acho que... acho que é um delírio de café.
Pensava que, em todas as relações há um momento de silêncio entre as duas pessoas, aquele momento em que pensamos "serás tu o tal?". Será que acreditamos mesmo nisso?
E aquela busca eterna, a tentava de descobrir quem é quem?
Aquele copo de vinho que me foi oferecido depois de me resgatarem a uma noite aborrecida de revistas e filmes, aquele copo fez-me perceber que de facto as pessoas não podem ser tudo quilo que gostaríamos que fossem, ainda assim, há nelas coisas que precisamos para nos complementarem os dias de sol. Pensando em todas as pessoas da minha vida, amigos, paixões, o amor... não trocava nada deles por um ser perfeito.
Não sei bem que texto é este, não costumo escrever sobre estas coisas. Acho que... acho que é um delírio de café.
eu sei lá bem
Fartíssima
íssima
íssima
Quem, onde, quando e como? Matem todas as perguntas, são para mim as respostas todas. Estas, as de amanhã e ainda as de ontem. Aqui ou ali, ninguém o sabe, nem tu. Amo as pessoas, odeio as pessoas, não as compreendo, não as beijo, não as vejo. Quem são?
Tu, eu, o que interessa?
Os mexericos, os comentários, quem, como onde e quando?
Fartíssima
íssima
íssima
íssima
íssima
Quem, onde, quando e como? Matem todas as perguntas, são para mim as respostas todas. Estas, as de amanhã e ainda as de ontem. Aqui ou ali, ninguém o sabe, nem tu. Amo as pessoas, odeio as pessoas, não as compreendo, não as beijo, não as vejo. Quem são?
Tu, eu, o que interessa?
Os mexericos, os comentários, quem, como onde e quando?
Fartíssima
íssima
íssima
Eu queria saber..?
Na realidade eu só queria saber se era normal chegar a casa, beber chá e estender-me com uma manta a ler ou a escrever, não é pois não?
feeling goooooooooooooooood
Quero umas galochas brilhantes, vermelho cereja. O meu guarda-chuva transparente para sair de casa a ouvir musicas dos sessenta e passear junto a um jardim relvado. Comprar um gelado e continuar o meu passeio até chegar a um parque com muitas árvores verdes e um pequeno rio com pontes que o atravessam demasiadas vezes.
Quero uma casa de chá com bules redondos de todas as cores possíveis e imagináveis, beber chá de menta com rosa e comer bolachas de manteiga, daquelas bem enroladas que sabem tão bem quando está frio. Quero o meu livro do Saramago e ler mais um capítulo enquanto espero por ti.
Tu vens com as tuas calças à boca de sino azuis escuras e uma camisola de gola alta cor-de-laranja. Um casaco peludo (sexy!) e entras na Casa de Chá para me encontrares muito apaixonada no meu mini dress preto e branco.
Bah... rimos de tudo e inventamos uns cavalos com os quais fugimos para o Oeste, e aí, sacamos das nossas pistolas de água e vamos roubar alguns bancos!
Quem sabe depois não iremos para as Bahamas.
James?
Sim Bonny?
Não devias ser Clyde?
E tu? Não era suposto seres Girl?
"I love you more"
Quero uma casa de chá com bules redondos de todas as cores possíveis e imagináveis, beber chá de menta com rosa e comer bolachas de manteiga, daquelas bem enroladas que sabem tão bem quando está frio. Quero o meu livro do Saramago e ler mais um capítulo enquanto espero por ti.
Tu vens com as tuas calças à boca de sino azuis escuras e uma camisola de gola alta cor-de-laranja. Um casaco peludo (sexy!) e entras na Casa de Chá para me encontrares muito apaixonada no meu mini dress preto e branco.
Bah... rimos de tudo e inventamos uns cavalos com os quais fugimos para o Oeste, e aí, sacamos das nossas pistolas de água e vamos roubar alguns bancos!
Quem sabe depois não iremos para as Bahamas.
James?
Sim Bonny?
Não devias ser Clyde?
E tu? Não era suposto seres Girl?
"I love you more"
Contos contados com contas dos colares da Constança
Albertina era uma mulher solitária. Não casara aos 17 pois Joaquim, seu grande amor, fugira para as Américas deixando-a desgraçada e sem noivo. Seu pai, bêbado de profissão, espancava-a sempre que podia, para a lembrar quem era a vergonha e a desgraça da família. A mãe, Maria da Luz, encolhia as lágrimas por amor à filha.
Albertina trabalhava com a mãe a arranjar bainhas e a alargar os vestidos das senhoras de bem que iam acumulando quilos de boa vida. Gorduras suaves e macias de bancos de veludo.
Era a filha mais nova de uma linhagem de desgraçadas. Amélia, a mais velha, casada com um funcionário público, mulher reservada e assustada, vivia para o seu filho obeso, único amor que conheceu na vida.
Adelaide, a do meio, casou-se com o filho de um empreiteiro bem sucedido, diz-se que construía prédios lá para as bandas da Moita, homem rico que poucas importâncias dava à família da desgraçada com quem casara. Dizem as más línguas que gostava de boates e de raparigas brasileiras de perna ao léu, mas é o que o povo praí diz.
Albertina já não se importava com o seu futuro, o amor fora uma ratoeira, não queria mais desses queijos, ela nem gostava desses produtos lácteos, digeria-os mal.
O pai morreu-se-lhe aos 21, um alivio para o corpo macerado. Como herança, herdou a mãe já cansada da vida e o estaminé dos copos de vinho que o seu pai geria, uma pequena taberna antiga onde os desempregados despejavam as poucas moedas que ainda tinham nos bolsos.
Um par de dias depois do velório já Albertina servia copos, 21 anos de desamores a fritar bolinhos de bacalhau sob os olhares lascivos que iam ficando pousados nas mesas tarde adentro, na esperança de a conseguirem também papar.
Foi com o consentimento da mãe, que concordava que aquilo não era futuro para uma mulher sem homem, que Albertina mudou o ramo do estaminé, cansada dos galanteios dos avôs do bairro, investiu o dinheiro das madames e abriu uma mercearia à qual chamou "Flor do Mar". Lera uma vez um poema sobre uma flor que nascia debaixo de água e que salvava os peixes pequeninos de serem devorados pelos graúdos. Para Albertina, a sua "Flor do Mar" era a mercearia, onde ela poderia ser salva.
Aos 35 anos, sua mãe morria de doença prolongada, suas irmãs, pouco sabia delas, e mesmo depois de mandar instalar os telefones na mercearia, raramente se falavam. Cresceu com a rua, com as famílias de cá para lá na sua azáfama citadina, encantou gerações de crianças com os seus mágicos rebuçados que lhes enfiava nos bolsos às escondidas das mães.
Os anos passaram por Albertina sem lhe roubarem as faces rosadas de menina, os olhos amendoados da cor das azeitonas, as poucas rugas na sua pele aveludada de avó sem netos, reforçam o seu ar de menina eterna. Ainda hoje, quando entro no "Flor do Mar", sinto que ali, no meio das alfaces e das bananas da Madeira, ali se pode ser um bocadinho mais feliz.
Albertina trabalhava com a mãe a arranjar bainhas e a alargar os vestidos das senhoras de bem que iam acumulando quilos de boa vida. Gorduras suaves e macias de bancos de veludo.
Era a filha mais nova de uma linhagem de desgraçadas. Amélia, a mais velha, casada com um funcionário público, mulher reservada e assustada, vivia para o seu filho obeso, único amor que conheceu na vida.
Adelaide, a do meio, casou-se com o filho de um empreiteiro bem sucedido, diz-se que construía prédios lá para as bandas da Moita, homem rico que poucas importâncias dava à família da desgraçada com quem casara. Dizem as más línguas que gostava de boates e de raparigas brasileiras de perna ao léu, mas é o que o povo praí diz.
Albertina já não se importava com o seu futuro, o amor fora uma ratoeira, não queria mais desses queijos, ela nem gostava desses produtos lácteos, digeria-os mal.
O pai morreu-se-lhe aos 21, um alivio para o corpo macerado. Como herança, herdou a mãe já cansada da vida e o estaminé dos copos de vinho que o seu pai geria, uma pequena taberna antiga onde os desempregados despejavam as poucas moedas que ainda tinham nos bolsos.
Um par de dias depois do velório já Albertina servia copos, 21 anos de desamores a fritar bolinhos de bacalhau sob os olhares lascivos que iam ficando pousados nas mesas tarde adentro, na esperança de a conseguirem também papar.
Foi com o consentimento da mãe, que concordava que aquilo não era futuro para uma mulher sem homem, que Albertina mudou o ramo do estaminé, cansada dos galanteios dos avôs do bairro, investiu o dinheiro das madames e abriu uma mercearia à qual chamou "Flor do Mar". Lera uma vez um poema sobre uma flor que nascia debaixo de água e que salvava os peixes pequeninos de serem devorados pelos graúdos. Para Albertina, a sua "Flor do Mar" era a mercearia, onde ela poderia ser salva.
Aos 35 anos, sua mãe morria de doença prolongada, suas irmãs, pouco sabia delas, e mesmo depois de mandar instalar os telefones na mercearia, raramente se falavam. Cresceu com a rua, com as famílias de cá para lá na sua azáfama citadina, encantou gerações de crianças com os seus mágicos rebuçados que lhes enfiava nos bolsos às escondidas das mães.
Os anos passaram por Albertina sem lhe roubarem as faces rosadas de menina, os olhos amendoados da cor das azeitonas, as poucas rugas na sua pele aveludada de avó sem netos, reforçam o seu ar de menina eterna. Ainda hoje, quando entro no "Flor do Mar", sinto que ali, no meio das alfaces e das bananas da Madeira, ali se pode ser um bocadinho mais feliz.
Eu sei...
Agora me recordo de como era o mundo antigamente.
As noites longas, o rádio sempre a tocar qualquer coisa, mesmo quando tinha muito sono. A janela, entreaberta, deixava entrar o lusco-fusco do amanhecer, e eu lutava por manter os meus olhos bem abertos para ver o sol a acordar, mas nunca conseguia, ao primeiro raio já eu dormia.
Saudades desse sol que acordava com o miar dos gatos. Saudades da calçada e do velho autocarro amarelo que me levava a todo o lado, mesmo quando estava atrasado. Gostava dos cigarros clandestinos fumados debruçada na janela. A lua, cúmplice de todas as mentiras, espreitava do outro lado das nuvens.
Já não tenho desses cigarros, já não existem essas janelas da minha memória. Agora tenho o mar azul e a areia de búzios. Os barcos cansados que pousam asas no horizonte e as gaivotas que se recusam a parar de voar.
Há em mim um pequeno floco de gelo que não derrete. As montanhas, as suas gentes. Já não sei porque fiquei longe. Eu sei quem sou.
As noites longas, o rádio sempre a tocar qualquer coisa, mesmo quando tinha muito sono. A janela, entreaberta, deixava entrar o lusco-fusco do amanhecer, e eu lutava por manter os meus olhos bem abertos para ver o sol a acordar, mas nunca conseguia, ao primeiro raio já eu dormia.
Saudades desse sol que acordava com o miar dos gatos. Saudades da calçada e do velho autocarro amarelo que me levava a todo o lado, mesmo quando estava atrasado. Gostava dos cigarros clandestinos fumados debruçada na janela. A lua, cúmplice de todas as mentiras, espreitava do outro lado das nuvens.
Já não tenho desses cigarros, já não existem essas janelas da minha memória. Agora tenho o mar azul e a areia de búzios. Os barcos cansados que pousam asas no horizonte e as gaivotas que se recusam a parar de voar.
Há em mim um pequeno floco de gelo que não derrete. As montanhas, as suas gentes. Já não sei porque fiquei longe. Eu sei quem sou.
Diz-me como é, como é quando sonhas?
Vamos brincar, só mais uma vez!
Eu sempre gostei muito do Romeu e da Julieta. Desta vez achas que eu posso ser o Romeu?
Fazemos assim, eu vou trepar pela tua janela e acordar-te com um sorriso. Tu acordas ensonado sem perceber que sou eu que estou de volta, eu, a subir pela tua janela. Comigo levo uma bola de espelhos antiga que vamos utilizar para dançar músicas indianas.
Imaginamos que somos actores e fazemos o nosso musical, até pudemos dançar no telhado daquela vizinha irritante que nos beliscava os pés quando íamos ver a lua depois de jantar.
Se te apetecer vamos até ao rio e fazemos barquinhos das folhas de Outono, cada um com um tripulante secreto que irá a navegar até ao Oceano, e quem sabe encontre a nossa ilha dos sonhos.
Não temos nenhuma? Tens razão, mas passamos a ter! O nosso pequeno pirata irá encontrá-la para nós! Temos esse pequeno segundo antes do acordar para podermos ser o que queremos.
Não acordes já, vamos ficar aqui mais um bocadinho, neste intervalo entre as palavras que ninguém sabe bem o que dizem, mas que guardam tantas e tantas histórias velhas que querem ser contadas. Eu conto-te histórias para continuares a dormir, para eu poder ficar mais um pouco no teu sono, eu e a minha bola de espelhos que continua a girar! Agora... agora... talvez o velho da guitarra toque para nós e eu continue a embalar-te para que sonhes. Os dias são a noite, e as noites são de dia.
Talvez acorde contigo.
Fazemos assim, eu vou trepar pela tua janela e acordar-te com um sorriso. Tu acordas ensonado sem perceber que sou eu que estou de volta, eu, a subir pela tua janela. Comigo levo uma bola de espelhos antiga que vamos utilizar para dançar músicas indianas.
Imaginamos que somos actores e fazemos o nosso musical, até pudemos dançar no telhado daquela vizinha irritante que nos beliscava os pés quando íamos ver a lua depois de jantar.
Se te apetecer vamos até ao rio e fazemos barquinhos das folhas de Outono, cada um com um tripulante secreto que irá a navegar até ao Oceano, e quem sabe encontre a nossa ilha dos sonhos.
Não temos nenhuma? Tens razão, mas passamos a ter! O nosso pequeno pirata irá encontrá-la para nós! Temos esse pequeno segundo antes do acordar para podermos ser o que queremos.
Não acordes já, vamos ficar aqui mais um bocadinho, neste intervalo entre as palavras que ninguém sabe bem o que dizem, mas que guardam tantas e tantas histórias velhas que querem ser contadas. Eu conto-te histórias para continuares a dormir, para eu poder ficar mais um pouco no teu sono, eu e a minha bola de espelhos que continua a girar! Agora... agora... talvez o velho da guitarra toque para nós e eu continue a embalar-te para que sonhes. Os dias são a noite, e as noites são de dia.
Talvez acorde contigo.
Quem sabe o que poderá acontecer se fecharmos os olhos!
despir
Hoje quero despir-me essas preocupações mundanas e irritantes. Quero somente sentar-me num banco de jardim e não pensar em mais nada. Ter uma caneta azul na mão e escrever todas as coisas que me vierem à cabeça sem me preocupar com os erros ortográficos e a sensação de estar constantemente a falhar. A verdade é que qualquer miúda de 14 anos escreve mais do que eu, e depois?
"querido diário, estou muito feliz, comprei as calças que tanto queria. O a. agora vai reparar em mim, finalmente estou igual a todas as outras miudas do liceu"
Não quero mais uma felicidade alcoólica que me adormece os sentidos e me impede de viver as coisas como realmente são. Não mais esse jogo perigoso de fingir que se vive.
Estes dias quentes de Outubro fazem-me sorrir.
Pudesse eu escrever sempre as coisas que me vêem à cabeça antes de chegarem todos os medos. Pudesse eu ficar-me pelas histórias, esse momento mágico antes de todas as coisas mundanas me afogarem em medos e me despirem das minhas canetas.
A caneta é a minha boca, sem ela nada sei dizer.
Tragam os vossos alfinetes e espetem-nos no meu coração, quero saber se ainda sinto.
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