Poem...

      TABACARIA


      Não sou nada.

      Nunca serei nada.

      Não posso querer ser nada.

      À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

      Janelas do meu quarto,

      Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

      (E se soubessem quem é, o que saberiam?),

      Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

      Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

      Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

      Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

      Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

      Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

      Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

      Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

      E não tivesse mais irmandade com as coisas

      Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

      A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

      De dentro da minha cabeça,

      E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

      Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.

      Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

      À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

      E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

      Falhei em tudo.

      Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

      A aprendizagem que me deram,

      Desci dela pela janela das traseiras da casa.

      Fui até ao campo com grandes propósitos.

      Mas lá encontrei só ervas e árvores,

      E quando havia gente era igual à outra.

      Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

      Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

      Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!

      E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

      Gênio? Neste momento

      Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,

      E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

      Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

      Não, não creio em mim.

      Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!

      Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

      Não, nem em mim...

      Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

      Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?

      Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -

      Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

      E quem sabe se realizáveis,

      Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

      O mundo é para quem nasce para o conquistar

      E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

      Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

      Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

      Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

      Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

      Ainda que não more nela;

      Serei sempre o que não nasceu para isso;

      Serei sempre só o que tinha qualidades;

      Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,

      E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

      E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

      Crer em mim? Não, nem em nada.

      Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

      O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,

      E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

      Escravos cardíacos das estrelas,

      Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

      Mas acordamos e ele é opaco,

      Levantamo-nos e ele é alheio,

      Saímos de casa e ele é a terra inteira,

      Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

      (Come chocolates, pequena;

      Come chocolates!

      Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

      Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

      Come, pequena suja, come!

      Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

      Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

      Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

      Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei

      A caligrafia rápida destes versos,

      Pórtico partido para o Impossível.

      Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,

      Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

      A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,

      E fico em casa sem camisa.

      (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,

      Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,

      Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

      Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,

      Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,

      Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

      Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -

      Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

      Meu coração é um balde despejado.

      Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco

      A mim mesmo e não encontro nada.

      Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.

      Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,

      Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,

      Vejo os cães que também existem,

      E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

      E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

      Vivi, estudei, amei e até cri,

      E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

      Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

      E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

      (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

      Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo

      E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

      Fiz de mim o que não soube

      E o que podia fazer de mim não o fiz.

      O dominó que vesti era errado.

      Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

      Quando quis tirar a máscara,

      Estava pegada à cara.

      Quando a tirei e me vi ao espelho,

      Já tinha envelhecido.

      Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

      Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

      Como um cão tolerado pela gerência

      Por ser inofensivo

      E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

      Essência musical dos meus versos inúteis,

      Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,

      E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,

      Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

      Como um tapete em que um bêbado tropeça

      Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

      Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.

      Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada

      E com o desconforto da alma mal-entendendo.

      Ele morrerá e eu morrerei.

      Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.

      A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

      Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

      E a língua em que foram escritos os versos.

      Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

      Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

      Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

      Sempre uma coisa defronte da outra,

      Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

      Sempre o impossível tão estúpido como o real,

      Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

      Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

      Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)

      E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

      Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

      E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

      Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

      E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

      Sigo o fumo como uma rota própria,

      E gozo, num momento sensitivo e competente,

      A libertação de todas as especulações

      E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

      Depois deito-me para trás na cadeira

      E continuo fumando.

      Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

      (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

      Talvez fosse feliz.)

      Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

      O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

      Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

      (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

      Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

      Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

      Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
    Álvaro de Campos, 15-1-1928

Não me deixes...

Confesso que por vezes ser forte é difícil. Ser forte significa engolir as lágrimas e fingir que nada nos afecta. Significa fingir que sabemos o que estamos a fazer, que já sabemos tomar conta de nós, que já separamos a roupa branca da roupa de cor quando pomos a máquina da roupa a funcionar. Mas é tudo mentira.

Não está tudo bem.
As datas continuam a ter significados atrelados a elas e, apesar de já não chorar e de fingir que sou uma mulherzinha como no filme, as lágrimas caem para dentro como se os rios pudessem correr para dentro das nascentes e criar vales debaixo da terra, debaixo do corpo, dentro da alma.
Não está tudo bem porque os calendários continuam a acrescentar dias aos anos, anos aos dias, e subitamente as rugas vão cavando socalcos no rosto que dantes era de cera e agora está cada vez mais parecido com a avó Luisa. E eu fecho os olhos e tento viajar na máquina do tempo das memórias, mas tudo são fragmentos de uma vida que já não existe, uma pessoa que já não sou, uma vida que já não tenho com pessoas que não me conhecem. E tu não existes, és apenas uma sombra, uma forma de gente cada vez mais difusa, mais distante. Eu fecho mais os olhos e, nada.
Não me deixes... e lembro-me da frase "sinto-me órfã", aquela frase que tanto me chocou a certa altura da minha vida. E sabes uma coisa, acho que é isso que está a acontecer, com o passar do tempo até nas minhas memórias me começo a sentir órfã.
A tua imagem começa a desaparecer, os poucos, um pouco por todo o lado. Acho que... é difícil perder aquilo que nunca realmente tivemos.

a carta que ela nunca enviou - eu e tu


Era mais um fim de tarde depois de mais um dia de trabalho como tantos outros. Nada augurava nada de diferente naquele pôr do sol deslavado em tons de malva. O percurso para casa foi o de sempre - a rua da escola primária depois as traseiras do Casino e por fim a rua do Hotel Saboia. No entanto como todos sabemos, deixemo-nos de rodeios, algo iria ser diferente naquele fim de tarde igual a tantos, tantos outros.
Aguardava-a, na caixa do correio, uma carta.
Carta essa que ela não esperava receber.

Sentou-se no sofá segurando-a entre os dedos, ainda incrédulos, estudando o papel, lendo as letras minúsculas do selo, observando todos os detalhes do envelope, tentando perceber como seria possível aquela carta estar ali, apesar de tudo, aquela carta chegou.
A sua cabeça não parava, eram tantas as emoções, os sentimentos atropelavam-se uns aos outros para terem o seu momento na ribalta do coração. Pousou o envelope. Tinha de ponderar o que aquela carta significava. Se a abrisse, toda a sua vida poderia mudar para sempre. Estaria preparada? Estaria preparada para todas as coisas que havia para dizer? Tantos anos... tantas distâncias, tantas vidas que as separavam, seria possivel combater isso, seria possivel voltar atrás? Estariam ainda a tempo?
Fechou os olhos.


"Minha querida
Queria poder dizer que te vou visitar em breve, mas a verdade é que não sei quando o vou poder fazer. Por enquanto estou a tentar montar o puzzle em que a minha vida se transformou, e olha que é um daqueles bem complicado, com peças muito pequeninas. 
Não digas que estás triste e com medo. E os teus medos são patetas? Todos os medos são patetas, os medos são apenas medos, não os devemos levar a sério de mais. Devemos apenas enfrentá-los, por vezes até convidá-los para um chá e ter uma conversa com eles, mostrar-lhes que as nossas vidas são fantásticas, olha para ti: tens uma família linda, uma casa espectacular (com espaço para fazeres uns 100 piqueniques diferentes, sim, se calhar deveriam experimentar fazer coisas diferentes com o jardim, não ter medo!), tens tudo o que sonhaste quando eras pequenina. E se a casa que tens agora não é exactamente como a dos teus sonhos, pensa bem, não seria complicado ter um castelo? Por vezes a tristeza que sentimos por não termos as coisas que não temos, quer seja a casa dos nossos sonhos, quer seja o amor dos nossos sonhos, quer seja outra coisa qualquer... por vezes essa tristeza é apenas a insegurança e o medo que aquilo que temos não chegue. Mas olha bem? Achas que não chega? Tens pessoas que gostam de ti, que se preocupam, que estão aí quando precisas (ainda que digam pouco). Essa é a tua casa de sonho. Tu és a tua casa. Isso é o mais importante de tudo.
Minha querida, eu sei que nem sempre falámos desta maneira, ainda por cima agora, que os nossos barcos vão navegando rumo a continentes diferentes, mas vamos a tempo de mudar tudo! Vamos a tempo de inverter essa distância. Espero que me escrevas em breve, tenho imensas saudades tuas.
Com amor...
RM"


Saiu de casa. O fim de tarde afinal não seria igual aos outros, como ficámos a saber. O envelope permaneceu em cima da mesa durante alguns meses sem ser aberto. Ela nunca soube o que estava escrito dentro dele, mas no seu coração a resposta tinha sido enviada.
(dentro do envelope estava uma carta do Centro de Saúde reencaminhada para a sua nova morada)

Mister Sandman - The Chordettes

Mister Sandman, bring me a dream...



"Mister Sandman, bring me a dream

Make him the cutest that I've ever seen
Give him two lips like roses in clover
Then tell him that his lonesome nights are over



Sandman, I'm so alone
Don't have nobody to call my own
Please turn on your magic beam
Mister Sandman, bring me a dream



Mister Sandman, bring me a dream
Make him the cutest that I've ever seen
Give him the word that I'm not a rover
Then tell him that his lonesome nights are over



Sandman, I'm so alone
Don't have nobody to call my own
Please turn on your magic beam
Mister Sandman, bring me a dream



Mister Sandman, bring us a dream
Give him a pair of eyes with a "come hither" gleam
Give him a lonely heart like Pagliacci
And lots of wavy hair like Liberacci



Mister Sandman, someone to hold
Would be so peachy before we're to old
So please turn on your magic beam
Mister Sandman, bring us
Please, please, please
Mister Sandman, bring us a dream 

(Chordettes, Mister Sandman)


Estas tardes frescas fazem-me lembrar a ribeira do Porto. A vista para Gaia, o rio, o Sandman do outro lado, o frio e as ruas que nos levavam sempre a qualquer café acolhedor e engraçado. Estas tardes frescas dão-me vontade de sair e ir dançar! Parvoíces de uma tarde de Outono.

as coisas que eu deveria fazer

Deveria rir. Mas rir não é uma coisa fácil ao que parece.

wild horses

Parece que a minha escrita tem aquela distorção que as rádios têm quando não as apanhamos bem. Não me consigo ouvir. Não consigo sequer escrever com uma letra legível. Não oiço nada nem ninguém. Orelhas e coração moucos. Pudesse eu devorar um dicionário e então haveria descrições concretas para este estado. Talvez seja da chuva, da roupa, das unhas que não param de crescer por mais que passe a vida a cortá-las e a pintá-las com as cores mais berrantes. Talvez seja o cabelo:
"Ouça, homem com mania que é cabeleireiro, eu perdoo-lhe a falta de jeito para a profissão que escolheu, que escolheu ou que lhe aconteceu - eu também tenho jeito para os telefones, pelo menos há dias... - perdoo-lhe este corte de cabelo desgrenhado que me dá o ar constante de ter acabado de acordar, perdoo-lhe o facto de não me ter cortado a franja como lhe pedi e de ter destruído a minha auto-estima em 20min. Perdoo-lhe o facto de me ter feito pagar no final... Perdoo-lhe o facto de ter ido para casa sabendo que eu fiquei com este corte de cabelo psicadélico-epiléptico-maluco-de-esquilo-raivoso."
Sabe porquê?
Não me importo nem um bocadinho.

Enquanto escrevia...

Cirurgia plástica -70%
Será um sinal? Será que se pode operar a parte de nós que dá erros ortográficos e ao mesmo tempo melhorar o angulo dos nossos seios?

Nota:

Se vieste aqui parar por causa da palavra seio/os... és um tarado/a.

Lista fútil do mês de Outubro

Praia. Tróia e as suas conchas de mil cores, vamos até lá fotografar os meus seios expostos e deixar cair queixos, abrir bocas, soltar línguas e desejos.

As coisas que deixaste para trás...

Carta esquecida dentro de um livro de Anton Tchecov:

O fim das coisas é triste. É a sensação de termos vivido em vão, é a necessidade de esquecer, apagar o que foi aprendido pelas emocões, é a vontade de seguir em frente - vivo.
Queremos fingir que nada existiu e que errámos, as nossas escolhas foram más, escolhemos mal, a culpa é nossa... culpa - mea culpa.
No entanto essa foi a escolha acertada a dada altura da nossa vida, foi o amor e a felicidade durante algum tempo, portanto, errar é relativo e sobrevalorizado.
Há pessoas, lugares e momentos que não deveriam ser apagados ou esquecidos. As pessoas não são erros. O fim das coisas é triste. O fim do amor. O fim de qualquer coisa. O fim de uma vida.
O fim é por si só o esquecimento por excelência. Uma morte sem haver morte. É um sopro. Um conto de alguém que já não somos.
O fim é uma coisa triste, como a caneta que acaba. A caneta que usámos para criar pontes com o mundo.
Eu queria recordar todos os antes dos meus fins. Quando o verde era fresco e o azul brilhante, os sorrisos cheios de vida, quando os bons momentos eram realmente bons.
Quem sabe escrever sobre as coisas realmente importantes?
Não receio a solidão, ela acontece quando nos abandonamos a nós mesmos, quando desistimos do que somos, quando já não acreditamos no valor dos pequenos gestos, quando não vemos as coisas mais pequenas - tu vês-me, eu vejo-te.
Acredito que quando for grande irei escrever sobre essas coisas importantes. Alguém tem que falar sobre elas ou irão ficar esquecidas para sempre como as músicas populares. Alguém tem de registar todas as coisas antes de elas chegarem ao fim.
Esperavas-me às cinco todos os dias... desculpa ter-te deixado. Queria ter uma recordação daqueles momentos juntas. Os chás. As tardes de sol. Nem uma fotografia. Nada. Uma morte sem haver morte é o que nos separa.
Isso e as coisas que deixaste para trás.

Quem disse que os textos sobre as pessoas que conhecemos deviam ser bonitos?

A pensar.
Com fome... vou jantar.

the girl from back then

O sono fugiu-me. Foi-se pela janela. Eu queria apenas que ele me embalasse até adormecer, depois podia ir por aí, noite adentro sem deixar rasto, eu não faria perguntas, juro, não perguntava onde tinha ido, amanhã de manhã quando acordasse com as marcas da almofada na bochecha.
Aqui fiquei eu sozinha, o cigarro a queimar lento entre os dedos e a caneta a escrever na mão. E eu deixo, não há nada que possa fazer, ela tem coisas para dizer, tem ciúmes do sono eu acho. Tem saudades de ler livros, saudades dessa rapariga que eu fui outrora, essa tal que andava de baloiço e tinha amigos interessantes que tocavam guitarra em bares obscuros e se embebedavam. Essa rapariga ria-se com facilidade, não tinha medo da vida e o tempo era ainda um homem gentil para ela. Hoje em dia essa rapariga engole as lágrimas em vez de vinho branco, escreve sobre os medos e fala pouco sobre as fantasias do amor e da cama, tem medo da caneta, daquilo que ela pode dizer, daquilo que ela pode despir.
Esta rapariga tem medo da nudez, não vá acabar a noite com os seios de fora.
Esta rapariga é um medo.
Há uma praia na minha memória da qual tenho saudades, essa rapariga visitava-a para ir encontrar-se com amigos secretos. Nessa praia havia mensagens antigas, corpos antigos, desejos quebrados e sonhos velhos, nela tudo era possível, todas as conversas conversáveis, todos os sexos viáveis. Não havia homem ou mulher, éramos uma só areia, uma só água que se misturava e criava castelos, sei que essa praia existe algures, cheia desses pescadores que nos embalam na sua corda e nos levam nos seus baldes de encanto para nos cozinharem depois nas suas mãos de amor - ela existe. O caminho até ela foi esquecido na teia de caminhos que a vida vai tecendo. A vida como as histórias, é orgânica está sempre a mudar, a cair, a criar... Nessa praia há rapazes de outros tempos a correr descalços, rapazes que vêem o pôr do sol e apanham conchas pela primeira vez, há raparigas que namoram sereias e sereias que nascem das estrelas. Nessa praia há uma rapariga que ainda está viva e que tem sonhos vivos, sonhos à espera.

E se...

E se pura e simplesmente assinasse com o meu nome verdadeiro?

500 e uma divagações

Voar até o mundo acabar e não haver pessoas.
Voar até não haver mais asas para bater e então parar.
Pensava nisto antes de adormecer uma dessas noites. Pensava nisto e também em mudar de nome, mudar de casca, mudar tudo e ser outra pessoa, ter outra vida, uma vida perfeita. Mas foi também num desses passeios sem rumo que percebi que as vidas perfeitas não existem, assim sendo resta-nos recontá-las no papel, viver nas linhas a perfeição que não existe na vida. Uma espécie de copy paste da realidade nas entrelinhas da fantasia imaginada. Para vivermos todas essas vidas que gostaríamos teríamos de as registar no papel, fazer novelas e contos de fadas. Escrever é a libertação máxima, ainda que os haja, os censuradores, esses que nos querem entrar na cabeça e nas mãos e nas canetas e controlar o que escrevemos e pensamos. E ficamos com medo que destruam as nossas vidas, o nosso mundo de encantar. Ficamos com medo que até assim as nossas vidas perfeitas não sejam perfeitas.
Eu quero essas vidas todas que há dentro de mim! Quero a florista, a escultora e a cantora que existem dentro da minha cabeça. Quero a peixeira, a divorciada, a vendedora de carne! Sem as censurar, sem influenciar as suas escolhas e os sonhos que cada uma delas tem.

As mulheres e os Palhaços Viris

As mulheres depois de casadas ou em relações sérias deixam de querer ter sexo.
É verdade. Ninguém quer falar nisto mas sim, deixam de ter sexo. Não querem sexo.
A Pílula é sem duvida uma desculpa simpática. A pílula é a desculpa perfeita: "não é culpa tua, é minha".
A verdade é que as mulheres são bichos estranhos.
A verdade é que... as mulheres se desleixam.
Vestem-se mal, não cuidam da pele, não tratam as unhas nem arranjam o cabelo. A verdade é que as mulheres fazem isso tudo por um único motivo: ficarem o menos atraentes para os namorados / maridos.
Sim, é verdade. As mulheres não querem fazer sexo com os namorados / maridos. As mulheres não querem ter sexo com homens que limpam o nariz à hora do jantar e atiram os macacos para o chão,  homem que se desleixam e ficam barrigudos, homens que subitamente sabem de todas as coisas do mundo e são mais inteligentes que o resto da humanidade, homens que se auto intitulam deuses de toda a sabedoria e razão, homens carrancudos com comandos de televisão na mão, homens que desfolham revistas com miúdas de 15 anos e fazem comentários ordinários.
Os homens têm que perceber que para uma mulher as coisas funcionam de forma diferente. E sim, as mulheres querem a vida perfeita e o homem perfeito e aí... haverá sexo.

ares da montanha III (sem acentos)

O tempo e meu. Eu sou o tempo que quiser. Decido o que fazer com ele, quando me apetece. Posso usa-lo para cheirar flores, para fazer ou nao fazer o que quer que seja, eu controlo os ponteiros, somente eu.
Sou os segundos.
Frenetica, intensa, apaixonada e voluvel, louca instavel. Mudo de ideias de repente sem avisar ninguem, rebento em gargalhadas cortantes depois de lagrimas gordas terem rolado. Sou livre para me deixar passar pela vida das pessoas e nao me prender, namoriscar cada numero do relogio, roubar beijos, criar sonhos num segundo, uma vida inteira no momento.
Sou os minutos.
Elegante. Contida, controladora. Faco listas e bebo os cafes nos tempos certos. Coerencia verbal, coerencia fisica. Sou acertiva, cruel, cortante, recta, segura. Sei o que fazer no minuto certo.
Sou as horas.
Aproveito o sol, o dia. Fecho os olhos e durmo na relva. Ouco os passaros. Observo os ramos que se movem com o batucar do vento. Cheiro o aroma do mar que viajou ate a minha janela. Choro emocionada com a danca dos raios de luz furtivos que escapam entre as cortinas. Devoro livros e bebo poesia.Sou as horas e absorvo tudo com eloquencia, sabedoria e calma.

ares da montanha II (sem acentos)

A mulher, sozinha, chorava
Tinha medo da montanha e do escuro
Vestia-se de folhas e gemia de frio
Chorava de noite e ria durante o dia.
A mulher vivia sozinha e nao sabia falar,
A mulher era um monstro em cima do altar.
A mulher nao sabia nada do mundo
Mas fazia-o rodar em cima do seu dedo polegar
Comia bagas e bebia do rio sem conseguir apaziguar
A sede que queria matar.
A mulher era grande, com um sorriso rasgado
Que nao conseguia guardar.
A mulher gostava de homens, ainda assim
Nao sabia amar. A mulher
era uma virgem gigante sem lugar para descansar.

ares da montanha (sem acentos)

Havia um homem que viajava de mota.
Viajava sem parar dias a fio, nem a chuva o demovia.
Fugia do passado, da vida do dia-a-dia. Julgava, dizem,
que a viagem lhe traria a saudade, mas quanto mais viajava
menos sentia sobre as coisas que deixara ficar, na esperanca
de as vir a recuperar. O homem perdeu-se na sua procura.
As barbas cresceram, o tempo passou e ele jamais se encontrou.

sem acentos, sem poiso, aves que voam sem parar

Ha de facto um grito que se quer soltar. Nao vamos nega-lo.
Ele esta vivo e quer sair, quer ecoar contra as rochas da montanha, quer despenhar-se desses precipicios sem fim, rebolar abismo adentro e morrer no horizonte.
Ha sonhos que querem nascer, como as folhas dos fetos. Pisamo-los e eles resistem, esmagamo-los e eles sobrevivem. Nao sabemos o que fazer com eles, sonhos e gritos misturam-se, confundem-se, diluem-se na chuva mas nunca desaparecem. Ha sentimentos que querem morrer mas nao deixamos, queremo-los so para nos, ainda que velhos e moribundos - os amores de Verao, as paixoes de infancia.
Ninguem se importa, deixemo-nos ir, qual avalanche, desfazendo tudo a nossa passagem, destruindo tudo e todos ate nao restar nada, apenas gritos no vazio.

Pandora

Não são apenas palavras, estas fazem sentido.
Aqui vou eu, para mais um mergulho na caixa das emoções.

Vou de férias

até já.
até breve.
até sempre.

cabeça de sobrancelha

cabeça de anormal
cabeça de roupa feia
cabeça de pessoa estúpida

enfim...
escárnio e mal dizer é fácil da gente fazer

A Ru na India - 5 dias

dias

Estou com vontade de sair daqui, vaguear... quero somente vaguear rua fora.
Vou ao café, vou ao café matar esta cabeça de enguia.

Biografia - fragmentos

Cresci numa casa cheia de silêncio. Herdei, de pai e mãe, os olhos que querem ver tudo e a boca pequena que não gosta de falar, boca que não sabe falar. Cresci numa casa cheia de histórias. A mãe trabalhava com as suas mãos sem parar e, sempre a trabalhar, tecia os dias, inventando tarefas para enganar a louca solidão dos anos de reclusão. Mãos que nunca paravam para abraçar. Houve um Inverno, quando as minhas pernas já sabiam andar, que me adormeci no seu quente abraço, respirando aquele cheiro de mãe, respirando o amor.
Eu cresci e a casa foi crescendo também, mais quartos, cozinhas, salas, mais silêncio, mais solidão, mais mãos ocupadas para não darem lugar ao carinho.

ninguém volta ao que já deixou

- A menina não fala?
- Fala, mas só quando quer.

to awake is to kill a dream

Hoje pensei em ti. Nem sempre o faço, a roda da vida distrai-nos com muitas imagens, os sons roubam-nos os pensamentos e, as filas no supermercado não sendo maiores com o passar do tempo. Hoje pensei em ti e lembrei-me da simplicidade do Verão quando vivíamos juntas. As janelas escancaradas para a rua, a rua escancarada para nós, mostrando-nos os passos dos vizinhos que olhavam de soslaio o candeeiro do quarto. Lembrei-me das conversas, das gargalhadas e de adormecermos juntas, éramos como verdadeiras irmãs - de sangue. Havia aquela ligação que vai para lá do compreensível, havia os segredos, a partilha de sonhos e de medos. Hoje pensei em ti e esse pensamento vinha revestido de uma saudade que desconhecia. Era como se tudo tivesse acontecido há tanto tempo que a memória se desbota já, como as camisolas favoritas quando lavadas muitas vezes. Saudades tuas, Sarita.

O sol deste Verão sabe a saudade...

Há dias em que o tempo parece ter desaparecido. Há dias em que parece não termos vivido o suficiente para o tempo ter voado desta maneira.

Há uma menina que vai viajar... that girl is like a wild horse, man! A wild horse...

21 dias
21 sonhos, 21 mundos
É verdade, a India está no meu coração e, o meu coração está na India.

Delhi - Amritsar - Dharamshala - Mandi - Rewalsar - Manali - Naggar - Shimla - Jaipur - Agra - Gaya - Varanasi - Delhi