Se o amor existir (Ana.logias)

A Ana é uma mulher bonita. Puta, mas bonita. Tem o corpo perfeito, as curvas perfeitas, as mamas perfeitas, o cu perfeito. Ana tem 25 anos e é uma mulher bonita e puta. Desde os 16 anos, idade em que decidiu fugir de casa para que o pai começasse finalmente a foder a mãe em vez de a foder a ela, que se entrega a qualquer homem que a deseje. Ana acredita que isso a fará esquecer o corpo do pai em cima do seu, o cheiro do pai, a pele do pai nas suas coxas. Ana é a mulher perfeita. A perfeita estranha com quem te cruzas na estação de comboio todas as manhãs. Tu vais trabalhar na loja de computadores, tens orgulho, não tens? Orgulho de ter um trabalho, de poderes pagar os teus jogos de computador? Quando apanhas esse comboio para ires trabalhar, a Ana apanha esse comboio para regressar a casa e aos seus demónios. A Ana não gosta dos dias, são solitários e crus, fazem-na ter memórias. A Ana só quer matar as memórias todas, por isso é que dorme com tantos homens. Se ao menos jogasses menos jogos de computador e seguisses os conselhos do teu pai, talvez te cruzasses com ela por essas noites fora. Talvez, se vivesses, conhecesses a Ana e entrasses para a sua colecção de cheiros, a sua colecção de homens. Ana vive sozinha, já te tinha dito, desde os 16. Durante o dia fuma sem parar e chora como uma criança com medo. A Ana tem medo das noites, por isso trabalha sem parar, sem parar para pensar que a sua vida é uma miséria, sem parar para dormir, os sonhos são armas que a magoam. Ana é a puta perfeita. Tu não sabes, mas fantasias com aquele corpo esguio e curvilíneo. Ana é a mulher perfeita, aqueles cabelos longos, brilhantes, bonitos. Só não sabes que a Ana quer matar o seu corpo, a Ana não quer ter corpo, a Ana só quer ser menina sem pai.

You're the ghost in the back of my head.

Sou uma sensação sem pessoa correspondente. (Álvaro de Campos)

Green Book

Comprei um bilhete de comboio do qual não necessitava. Bastava-me andar a pé.
Mas andar a pé lembra-me de todas as pessoas que não estão comigo e isso entristece-me. Assim, ao sentar-me com estranhos e ao ouvi-los, julgo fazer-lhes companhia, uma companhia que não existe - somente dentro da minha cabeça - mas que não me faz entristecer.

Je pense a toi - mon Amour ma Chérie (mãe)

the perfect start

"Na manhã em que se levantou para iniciar este livro, ela sentiu que algo lhe estava a sair da garganta, estrangulando-a. Rasgou o cordão que o retinha, arrancando-o, e quando voltou para a cama, disse: Acabei de cuspir o coração" (Anais Nin)

Wondering...

In - toxic - action

Havia um bloco de notas onde eu escrevia as coisas horríveis que não podia dizer. Hoje em dia já não existem blocos de notas como antigamente, fazem-se na mesma os blocos em massa, mas não se preocupam tanto com o interior, esqueceram-se da importância do papel, as páginas pautadas as lisas. Hoje preocupam-se com as capas, se são bonitas, de que marca são, se a cor está na moda e se está a condizer com a carteira - não querem saber se é para escrever  lá dentro.

Perdi o meu bloco de notas.

Estou cheia de lixo por dentro. Cheia de palavras, monólogos, frases, irritações, declarações, admoestações, gritos, tristezas e melancolias. Não consigo pensar direito. Não havia melhor sentimento que aquele de abrir o bloco de notas e sentir as veias expulsarem o veneno. "Pai, não gosto de ti. Pai não gostas de mim. Mãe, morreste. Não quero mais bolos de aniverários com números. Abraça-me mais vezes. Pára de me julgar."
É uma sensação tão bonita estar limpa.

Yep, its complicated...

Meia de leita (com vinho)

Queria beber. Beber até não poder aguentar mais e cair inerte sobre a relva húmida, depois correr sem parar até que o sol começasse a nascer do lado de lá do lago. Extasiada com o espectáculo, podia jurar que se ali morresse para sempre, não se importaria.

there's nothing

"There are two ways to reach me: by way of kisses or by way of the imagination. But there is a hierarchy: the kisses alone don't work."

  — Anaïs Nin (Henry and June)

A minha vida é como um gato com fome. (Rute)

Observação (black book)

A única coisa que eu queria era conduzir eléctricos. Seguir a mesma linha todos os dias, e nem precisava de ser daquelas muito compridas. Falaria sobre trivialidades com as velhinhas, podia ser sobre o tempo, e como está um belo dia de sol hoje! Usava a mesma farda todos os dias (ora, não a mesma, só igual!) e percorreria a minha linha ao volante do eléctrico, como um pirata ao leme da sua rua. Talvez dessa forma sentisse que a vida segue um rumo qualquer, e eu, capitão do meu barco, a guiar certeiramente a vida neste mar tortuoso que são os sentimentos.

Black book III

Amanhã é a minha vez. (Nina Simone)

Black book II

Tenho uma memória pequenina. Talvez o espaço dentro da minha cabeça seja tão grande que ela se perde sem se conseguir encontrar, jamais. Será uma maneira de conseguir assegurar a minha sanidade mental?
Quantas menos coisas me lembrar melhor vou conseguir viver.
Durante quanto tempo?
Quero essas memórias. Quero-as para as mergulhar no tinteiro da fantasia e as moldar como se fossem um pedaço de barro com o qual posso brincar indefinidamente. Visto este corpo todos os dias, é bonito. Mas não sei a que idade corresponde a minha cabeça, será uma idade antiga, tão antiga que todas as memórias do mundo são minhas, e assim sendo, aquelas que julgava serem únicas, estão misturadas com as memórias de toda a gente? Talvez por isso não as encontre quando as procuro. Vagueio como um pastor sem rebanho. Pastor louco que não podendo ser pastor por não possuir rebanho, quer na mesma sê-lo.

Black book

Na minha sopa de pensamentos voam pássaros coloridos que me falam de dias alegres. Os pontos de exclamação povoam o meu imaginário. A cada dia que passa, sinto que a loucura me apanhou mais um bocadinho.

I'll met you somewhere

Há uma falta de jeito genética para a demonstração de afectos, mas vou tentanto curar esta minha leprosidade de não saber sentir as coisas certas e de escolher os momentos errados. Pensei em ti, e fui novamente a Julieta à janela, sorridente e feliz, corada, não com aquela cor deslavado que augura maus presságios - e parece-me ser um bom sinal, estamos juntos ainda, algures num imaginário que existe nesta minha cabeça estranha de menina que inventa histórias, mas sempre assim fui, eu própria sou um "Era uma vez". Não ouviste, mas disse-te obrigada por tudo, e se algum dia perceberes estes amores silênciosos espero que leves contigo os mil aviões de papel que voam por esse céu fora à tua procura. Vamos ser para sempre um desencontro, uma estrada que nunca se acabou de escrever, mas és sem dúvida a história que eu mais gosto de lembrar. Era uma vez uma cor que nunca existiu, um ponto entre mim e ti...

Há lugares que se confundem e outros que se fundem

Tenho hábitos esquisitos. Sou obsessiva. Se há coisa de que tenho medo é de todas as coisas que posso fazer inexplicavelmente. Esses apetites estranhos que surgem na escuridão. Não sei nada de nada. É isso ser inocente? É ser ignorante? É ser livre de... ser livre do peso de saber das coisas? Diz alguma coisa, diz qualquer coisa. O silêncio deixa-me perdida. Em breve temos de acordar novamente e é mais um dia. E eu quero mostrar-te tudo, coisas, alguma coisa.

Because i just LOVE it

What do i think about it? (second option)

What do i think about it?

Dance of Life (Matisse) - i want to do it myself!

o que eu sei, o que eu não sei - as coisas que digo e aquelas que não

Para que servem as palavras se não sabemos o que fazer com elas? Para quê falar, escrever? Não dizemos nada. O Silêncio é o grande senhor da verdade. É coerente, sincero, pensa sempre naquilo que sente. Não se precipita numa diarreia sem sentido, não cai em armadilhas ardilosas de terceiros. Eu gosto do meu silêncio, conversamos muitas vezes sobre coisas triviais (quem sabe sobre formigas que caem dentro de frascos de compota) e discutimos também as grandes questões da vida, o sentido das coisas. Pudesse eu guardar nalgum lugar esses devaneios nocturnos ou matinais e seria rica - um conhecimento de mim própria sem fim - mas essas conversas têm tendência de se evaporar com o barulho da vida e eu fico sem saber nada e, geralmente, caio no erro de abrir a boca e falar de mais.

Quem a irá amar agora? (Inspired by a woman in Restelo)

E naquele indefinido dia de Inverno, naquela hora em que a tarde se funde com a noite, uma rapariga alada percorria mais uma rua em busca de clientes. De ar catita e vazio, daquelas que os homens mais gostam. Pensava nos brinquedos da infância para entreter a mente e retardar as perguntas vorazes vindas de dentro de si mesma, daquela que vive dentro do seu corpo e a vê vender-se assim, a qualquer um, sem amor nem prazer. Pensava como gostava de brincar quando era ainda uma menina, como tinha uma imaginação fértil, como sonhava. O mundo era tão mais inocente, e aquele lusco-fusco nunca lhe metera confusão. Restavam-lhe agora as parcas memórias para se afogar nelas enquanto se aquecia no corpo de estranhos. Um carro pára e a janela abre-se devagar. Ela não tem pressa. Pudesse a vida inteira resumir-se àquele momento, antes de tudo acontecer. As luzes da rua acendem - está na hora de começar a trabalhar.

In a hair(y) situation!

Beloved Fernando (Pessoa)

"De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo, 
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?"

Revisited - Entrelinhas (algures estou eu, caneta de aparo sem tinta)

Sentou-se no bar. As mãos tapando o rosto. A agonia de mais um dia naquelas mãos. O barman olha-a. Limpa um copo com paciência, pergunta-lhe o que vai ser e ela atira-lhe "cheio". Whisky. Ela não gosta de whisky, fá-la sentir agoniada. Bebe. Precisa sentir algo forte. Resumindo, precisa sentir qualquer coisa para além das suas duas mãos frias. O copo fica vazio. Pede outro. Não sabe porque está a beber. Acha que é por estar triste. Ela não se sente triste, na realidade seria bem mais fácil se ao menos pudesse saber com exactidão que raio de tumulto é aquele que atravessa. Olha à volta. Um par de velhos olha intrepidamente um jogo de futebol, trocam comentários sem nunca desviarem o olhar. De vez enquando o barman para de esfregar os copos com o seu farrapo para ficar a admirar o ecran florescente. Abana com a cabeça quando discorda com alguma coisa. "Mais um?" pergunta-lhe o homem ao ver o copo novamente vazio. Só a conta. Quer sair dali, precisa caminhar durante um bocado, caminhar destila-lhe o furor de mais um dia vazio de nadas absurdos e sem sentido. Sai do café, a pergunta que lhe aparece na cabeça irrita-a "esquerda ou direita?", está-se a foder se é para a esquerda ou direita. Acaba por ir para a direita, a rua é a descer e vai em direcção ao mar. Ao rio, já não se lembra do que é aquilo, que cidade é, qual o nome. Lembra-se vagamente de ter ouvido falar de outros lugares no mundo. Hoje? Hoje é só um dia para não ser, e na realidade, ela não acredita mais nisso.