Os lugares que deixaram de existir




Quando regresso a casa do meu pai é uma viagem a um lugar que já não conheço. No meu imaginário, seria como regressar à minha infância, a mesma casa, os objetos arrumados nos mesmos lugares, os cheiros ainda frescos. Quando regresso a casa do meu pai tudo parece estar igual mas tudo está muito diferente, a começar por mim e pelos olhos pelos quais observo a casa onde cresci. O pessegueiro junto á porta da entrada foi cortado, pelos vistos os pêssegos não eram os suficientes que justificassem as folhas que enchiam o pátio no Outono - eu não disse nada, mas por dentro o meu coração encheu-se de uma imensa tristeza pela morte daquele pessegueiro. Hoje, quando o portão da casa se abre para nos receber, é um portão mais triste e silencioso, despido do passado, como se tivesse sido desprovido da sua história - é o grande erro da minha família, essa necessidade constante de apagar o passado na tentativa de criar um presente perfeito. Quando regresso a casa do meu pai, eu já não sei quem somos, nem ele nem eu.

Lápis de carvão




Estamos em 2014. Há muitas coisas estranhas associadas a este número tão grande, mas a mais estranha de todas é talvez o facto de à primeira vista soar a futuro, e à segunda ser irrefutavelmente o nosso presente, vivemos agora, em 2014. Assim sendo, é compreensível este constante estado de confusão em que toda a gente parece encontrar-se - pairamos neste limbo de saudosismo pela ficção do Blade Runner, como se esperássemos que o agora fosse algo maior, e ao mesmo tempo estamos gratos por tudo, menos a guerra a fome e as doenças. Este ano, no futuro presente, vou fazer os meus 30 anos, e não espero grandes coisas de 2014; no entanto estou espectante com as mudanças que os trinta possam trazer-me. Tornar-me-ei de facto numa balzaquiana? Renegarei o amor e dedicar-me-ei a paixões fortuitas e aos prazeres carnais? Deixarei para trás os receios infantis dos vintes e ficarei adulta de repente? O que trará de novo?
Espero que um caderno em branco na alma, sem mágoas e sem marcas de lápis anteriores que tenham marcado as folhas.

this is why we have ears. right?




Feliz Ano Novo


As mulheres da minha vida

- Queria ser forte como a avó, não ter medo de nada, sair à noite e enfrentar o escuro com uma faca na mão.
Foi com uma certa fragilidade que a minha irmã o disse. A minha avó Luisa é assim, dona de si e do mundo. E ao ouvir aquelas palavras voltei ao passado, voltei a estar sentada no banco junto à lareira, rodeada pelos meus irmãos, aquecida por um tronco em chamas a confessar-lhes que o que eu mais queria era ter abraçado a nossa mãe mais vezes. E no seu silêncio havia muitos abraços por dar também.

Percebo que aquela terra de pedra nos fez duros, porque assim tinha de ser, e alegro-me de hoje conseguir ver o quão maravilhosos são os corações das mãos calosas e frias que nos acariciam a testa.
Quando as conversas encarrilham para os caminhos do passado, todas as mulheres que me precederam eram fortes e sofridas, mal amadas mas corajosas. Orgulho-me delas, com defeitos e tudo. E gostava de saber mais da Mariana, da Maria e da Conceição cujas mãos, estou certa, também seguravam facas para enfrentar o escuro.
E há uma coisa, que eu estou certa nos liga a todas sem barreiras de tempo - a coragem. E sei que há muitas heranças nesta vida que gostaríamos de receber, mas olhando para as mulheres do meu passado e vejo o que me deixaram orgulho-me da coragem. Haverá herança mais bonita do que essa?

Mensagens secretas


Hoje

Não saber de ti, é o melhor remédio para esta doença de querer o que não posso ter.


"Natal. Já tudo dorme, e só eu, na casa, rumino ainda as rabanadas. Que significam elas, afinal? Timidamente, aflora-me aos lábios uma palavra, que só de ser balbuciada aviva a chama da lareira. Amor - repito alvoroçado. Mas não vou mais longe." (Miguel Torga, Diário IX) 

A arte de se ser perene



- Tem fotografias antigas?
E do fundo de uma gaveta ela tirou duas famílias e três envelopes com estranhos que agora convivem para a eternidade, lado a lado, nesta nova vida de ser relíquia numa loja de antiguidades.
Irão as palavras voltar a viver dentro da minha cabeça como antigamente? Irão os acentos fazer as pazes com as vogais? Estou cansada desta guerra. Quero dizer coisas.

...

A confiança e o nosso maior ponto fraco.Achamos que estamos curados das saudades. Achamos que a ausência já não nos afecta e que de facto o tempo passou uma esponja por cima de tudo. Achamos que finalmente compreendemos o sentido universal das coisas, e seguimos vivendo a nossa vida nessa cadencia que nos sabe tão bem - dias, semanas, meses, anos. Depois há aquele momento, aquele momento vulgar do dia a dia, que nos desarma de todas estas almofadas emocionais, nos atira contra a parede, nos cospe na cara e nos faz perceber que tudo não passava de uma armadura exterior para esconder algo muito profundo. Percebemos que afinal continuamos a não perceber nada, continuamos a sentir saudades, as esponjas não limpam nada quando se trata de dores emocionais. O meu momento foi tão simples como escutar a voz daquela mulher, ouvir a sua historia por entre o tilintar das chávenas de café.
Senti um onda a abater-se sobre todas as minhas certezas e apaga-las de uma só vez. Pensei que ia desmaiar, deixei de conseguir engolir, respirar - o que e que se estava a passar? Para, controla-te.  
A senhora, franzina e curvada, relatava com bravura os últimos meses de tratamentos no IPO. A sua voz, apagada pela dor, pelo medo, tinha o som cristalino da esperança. E naquele momento, naquela mesa, eu conseguia ver a minha mãe há 12 anos atrás, a falar sobre a sua luta, a falar de como também ela acreditava que depois de passar por aquele inferno tudo ia ficar bem. Percebi, depois destes anos todos de conjecturas, de teorias, de tentar dar um sentido a tudo, percebi que não era com o Cancro que eu estava zangada... não. Sim com esperança.
Não, nunca estamos preparados para ficar sozinhos.

O medo da luz

Agora percebia essas contradições que o Camões falava, esse querer e não querer. O lado mais escuro queria manter-se na sombra das portadas fechadas, quieto, a observar a dança dos raios de sol de mais um amanhecer lindíssimo. Mas havia o outro lado, aquele que queria abrir a porta e deixar tudo para trás, caminhar sem rumo e sem medos. E durante muito, muito tempo, manteve-se assim, com a mão exposta á luz que entrava por entre as portadas, a acumular a força de se libertar de tantas amarras inexistentes, como teias de areia acumuladas pelo medo.

Hoje à noite

Naquele copo de vinho branco que bebi, estava a esperança de um veneno adormecido. Tentei matar a sede de todos os beijos que julguei termos seguros nessa eternidade que o amor promete. Para nós não há futuro, foi uma alucinação minha, sou dada a imaginar coisas que não existem.

Falta pouco


Pray for the Other Person's Happiness

When we are together
So long my love
When we are apart
So long my love
Now that you don't need me
I'm there my love
Now that you can't bare
I can't bare my love
Can't bare my love
(...)
I'm locked
Haunted by the love
That's in 
My heart
I'm just haunted 
By the life we live
Apart
We do more than try
When we're truly strong
When we say goodbye
With reason
A circle to remember
That time ends on
And something goes apart now
This is it's dawn
This is the dawn
(...)
Why's the room's stayed
When everything given goes
Away
Guided by this world
Into the wish
To stay
lalalala...

(Devendra Banhart)

18 dias - Texto pessoal




Hesitei durante alguns segundos antes de premir as teclas, queria ter a certeza de que queria escrever sobre este assunto - até certo ponto: banal.
Cortei o meu cabelo, não um corte de pontas, cortei o cabelo todo. Passaram-se 18 dias, e escrevo sobre o assunto porque estes foram exatamente os dias necessários para eu reaprender a reconhecer-me ao espelho, nos reflexos, na minha própria sombra. Necessitei de 18 dias para ser eu dentro desta nova "máscara", sem máculas, sem histórias - limpa.
Cortei muitas coisas com os meus cabelos, às quais me agarrava por achar que faziam parte de mim como pessoa - mentira, eu já não era todo aquele passado distante. Por vezes é preciso um ritual para seguir em frente, este foi o meu.

Relíquia


O meu cabelo, visto assim à distância, como um corpo estranho... Ainda a adaptar-mne a esta nova vida de não ter cabelo onde me pendurar.

Jogo

Queria desaparecer durante três meses. Juro que ficava fechadinha em casa sem dizer nada a ninguém a ler "Os irmãos Karamazov" e "A Montanha Mágica", e não fazia mais nada, lia e comia que nem uma porca, e depois tomava longos banhos de imersão na minúscula mini banheira que temos cá em casa. Estou cansada de pessoas... barulho e reciclagem.