7
(...) Sinto a cabeça nadar à roda e as emoções não sei onde param. Não quero arrumar nada, não consigo, não há no espaço espaço que chegue para arrumar a idiotice, ela não cabe em lado nenhum. Porquê um "mim" tão barulhento? Fecho os olhos, mas quem poderá tapar os ouvidos? O som da rua não se cala; as veias não param; as vozes que chegam de todos os lados desta casa deserta de mim. Onde encontrar o fim para sempre? Ou só agora, porque não sei o que quero para sempre... talvez sol, mas isso podia fazer mal às plantas.
Deixem-me aprender a escrever outra vez, "Senhora professora, eu preciso aprender a escrever novamente para escrever coisas bonitas... as minhas mãos só escrevem merda."
Se eu fumasse morria de desejo por um cigarro agora. Como não fumo, a televisão serve.
6
Começo a duvidar da vontade de escrever. A vontade de ser palavra. A vontade de ser mais do que aquilo que posso na realidade. Já não acredito. Suspeito. Desconfio como desconfia o lojista do cliente. Serei de confiança? O que é esse ar de suspeita?
Desconfio como desconfia o cigano do polícia. Sou como os gatos. Quero querer qualquer coisa que ainda não sei o que é ou vai ser. Vou querendo este querer mentiroso que me faz sentir mais segura por sentir que quero querer. E agora? E agora o que fazer no espaço vazio que existe entre querer e o querer o que vou querer?! O que há? Branco. Branco como folha que quero escrever mas que nunca escrevo pois nasci com mãos preguiçosas e com uma cabeça cheia de janelas que me fazem perder na luz branca.
A luz - um hospital para ceguinhos, serve para abrir portas. Fechem as janelas que eu não quero ver o sol.
5
Eu quero escrever todas as folhas do mundo! O quê? Palavras, ora!. Se puder ser eu gostava de contar histórias. Será que há tempo para este sonho se eu tirar uma ficha?
4
Sim, sim, quero parar com essas coisas. Quero estar calada. O que é que estás a fazer?
Deixem-me estar calada a lembrar-me das amendoeiras. O cheiro do batatal de madrugada, o barulho das mulheres do campo a bater os baldes enquanto esperam por mais um amanhecer. Calem-se também os grilos que cantam.
A mãe quer chá? Eu queria amigos, mas paciência, as crianças não podem ter tudo. Não faz mal, eu faço o chá e invento as crianças nos livros e nas coisas.
Eu falava sozinha "O que é que estás a fazer?", nos livros, nas coisas. Eu falava sozinha e imaginava um mundo diferente em que me obrigavam a comer a sopa e a tomar banho. Pensando bem sou uma cigana. Sempre de cá para lá, um deambular solitário de quem só quer comer pão com manteiga.
Ao menos que eu tivesse tido um burro.
1
"Necessitava de falar com os outros para me ver melhor a mim."
Naquele tempo embebedava-me com leite. Corria descalça e deixava o meu corpo refrescar-se com o vento das tardes de Verão. Abria os braços e rodava. Naquele tempo o coração batia e eu deixava. Agora bate com uma fúria que desconheço e só quero que ele acalme. O mundo assim roda demasiado rápido.
moral da história
Ontem fui ao teatro. É um teatro pequeno com peças sempre muito diferentes.
A peça chama-se "aquário na gaiola". Uma história a fugir para o "contemporâneo juvenil".
Uma história de amor no século XXI (presumo), os temas de antes: as diferenças entre as classes sociais, o impacto que isso tem nos amor e no personagem.
A verdade é que a peça focou um ponto importante do mundo em que vivemos agora: o exterior de cada um de nós vale tudo, aquilo que somos, não vale quase nada. Todos diferentes todos iguais. Não quereremos nós ser iguais a toda a gente para assim sermos aceites nesta sociedade "voyeurista"?
Uma das falas da personagem Inês ficou-me como que gravada "é proibido ser-se feio". Não há uma lei escrita que o proíba, mas sim uma lei que se espalha como um vírus. O que é o conceito de beleza hoje em dia?
Às vezes sinto que sou de outro tempo, algures num lugar onde as pequenas coisas também são importantes...
fragmento de um diário antigo II
Eu não tive muitas avós.
Tudo o que me foi legado como herança foram as histórias perdidas que me iam contando, memórias esbranquiçadas pelo sol de pessoas que ainda se recordavam dessas avós de outros tempos.
Aquela que mais curiosidade me deixou foi a avó Conceição. Acho que o primeiro nome era Maria. O meu pai, homem de poucas palavras e afectos, nada, ou muito pouco, me falou dela, mas todas as migalhas que consegui reunir me fazem crer que era uma mulher forte, inteligente e perspicaz. Cresceu e viveu numa época em que as mulheres pouca importância tinham no mundo (achavam os homens dessa época, tal como o meu avô Fernando, homem do campo que se casou com a Conceição ninguém sabe bem como).
Não sei de onde era essa minha avó, acho que em tempos perguntei ao meu pai, mas foi uma resposta vaga, um lugar nenhum. Pressuponho que seja transmontana como toda a minha família. O sobrenome, não o sei também, os seus 7 filhos herdaram somente o Magalhães; dela, mulher magra e frágil, talvez as feições e a magreza.
Nasceu no século XIX, cresceu na época áurea da evolução. Viajou em jovem, viveu no Porto, trabalhando em casa de alguns senhores importantes, penso, e viveu em Inglaterra, de onde veio a saber tocar violino e a falar Inglês, coisa que ela muito se orgulhava. Durante toda a vida disse que não se casaria com um homem simples, e um piparote do destino deixou-a casada com um homem do campo, a viver numa pequena aldeia em Trás-os-Montes, grávida do seu primeiro filho e a gerir uma pequena Venda (mercearia). Dizem que foi a idade que assustou seus pais e a quiseram despachar o mais rápido possível não fosse ela acabar solteira - desgraça.
Dizem que era má, brincava malevolamente com a inocência dos que na altura pouco percebiam do mundo, sábios apenas nas épocas das colheitas e na qualidade das batatas.
Envelheceu franzina, amarga e distante. Só, num mundo que não reconhecia. Era costureira, nos seus últimos anos dava aulas. Com ela também a minha mãe aprendeu essas artes das agulhas. Quando ela morreu, teria eu uns 5 anos, lembro-me de mexer na sua máquina de costura e encontrar botões pretos.
Não sei se a teria amado, mulher bruxa, vestida de preto e ríspida. Mas fez crescer em mim a curiosidade que a querer explorar, desvendar quem seria essa mulher.
un jour colour d'orange, tu comprend mon cherie?
quero viver na época da Beatlemania =(
Vou fazer birra...
Porque tudo é tão triste? Ah... se ele soubesse. (carta tresloucada de sexta)
Eu quero uma mini saia. Sim, é verdade, parece que os meus 15 anos finalmente chegaram e quero uma mini saia! O meu cabelo está maior do que quando nos conhecemos, talvez agora possas trepar a torre! Eu faço crepes e podemos ver filmes a noite toda! Ou se preferires, fugimos como dantes. Ah, parecem pequeninas formigas estas emoções que se perderam. Estão a voltar, sentem-se da mesma forma que um pé dormente quando dormimos mal... Ah, as viagens de comboio, os candeeiros das cidades à noite... Vou devorar tudo como se de um chocolate se tratasse! Vou pegar em ti e abanar-te, abanar-te e beijar-te e abraçar-te! Quero correr no lusco-fusco de braços abertos e rodar a olhar o céu. Despimo-nos e eu finjo que sou tu e tu és eu, até uso o teu chapéu!
Ah, se as palavras tivessem fechaduras especiais e tu tivesses todas as chaves, poderias descobrir mil tesouros escondidos em tantos e tantos papéis esquecidos e rasgados, palavras e palavras... Ah, que loucura, quero dançar só porque me apetece... e não estou farta, e uso as reticencias como qualquer miúda apaixonada com 13 anos!
Fazes parte das minhas reticencias. És o terceiro ponto.
Escolhi esse porque é o que está mais longe, assim posso espiar-te sem saberes.
Sabias que as árvores às vezes têm maçãs?
Bilhete por baixo do guardanapo, xiu, é segredo!
Não me podes julgar. Eu não deixo.
Se tenho o poder para fazer alguma coisa? Não, mas não acho justo.
Pink Lipstick - you were my little girl dream
Eu sempre tive um fraquinho por ti. Tu sabias. E eu queria lá saber.
A única coisa que importava, era que isso me fazia sorrir!
"What is there to know?
All this is what it is
You and me alone
Sheer simplicity"
A única coisa que importava, era que isso me fazia sorrir!
"What is there to know?
All this is what it is
You and me alone
Sheer simplicity"
Conversa para adultos
Está na hora de crescer e tomar decisões que podem afectar os meus próximos 40 anos. Há que saber qual o caminho a seguir, quem quero ser. Se é fácil e simples para uma criança de 2 anos, para mim terá de o ser também.
Queria que fosse sempre um passeio na praia, descalça, os pés na areia, a despreocupação total, aquela pequena liberdade que nos dão a provar enquanto somos adolescentes, mas que depois nos roubam quando nos dizem que crescemos, que já não podemos passar as tardes com os amigos num café, há que nos fazermos à vida!
E o que é isso?
Seremos nós como o domador de leões? Estamos fechados na arena com a vida á nossa frente e temos de a domar?
Confesso que há dias em que não percebo nada.
Outono
"All of those little lights in the sky
They only stick your feet to the ground
You'd better keep your head down
All of this little dreams in your mind
They only make you wonder why
When you wake up you start to cry
When you come home you just want to die
There was a time you seemed to be fine
You were a rock when you were a child
Waiting for the turn of the tide
You thought the stars were sending you love
How come you never wondered why
When you came home, you started to cry
When you woke up, you wanted to die
All of this little lights in the sky
If you can make them fall you will rise
Just turn the mic of timeI thought
I could be able to find
Something to save all I left behind
But as I grew up I changed my mind
And only remained the stars in the sky
With your innocense fly by" (musical poem by Ane Brun)
Tenho saudades de passear contigo de pijama. Recordo aquele pequeno momento antes de adormecer, aquele em que as palavras são uma parvoíce músical à qual quase nem damos importância. Trepávamos aos telhados mais altos e tentávamos encontrar gatos pretos. Ficavamos sentados a ver as estrelas e depois perdiamo-nos nas linhas turtuosas das minhas histórias. Eu contava-te histórias, não porque tu as quisesses ouvir, somente porque eu tas queria contar, dava-me um prazer terrível imaginar lugares estranhos onde te levar, e tu vinhas sempre. E fazia-me feliz imaginar, era tão simples, natural como respirar. Vinhas comigo mesmo quando tinhas muito sono e arrastavas atrás de ti a manta da tua infância. Adormecias sempre antes de eu conseguir chegar à cama. O que não sabes é que às vezes eu não descia logo pela janela, às vezes ficava por lá a olhar-te, acho que era somente nesses momentos que eu conseguia ver as tuas palavras, eu nunca consegui perceber que o teu coração era mudo, e estava sempre à espera de provar a mim mesma que estava certa, que também ele podia falar. Agora a tua janela fica num lugar longinquo que eu já não me lembro. Quando passeio nesse momento antes de adormecer por esse mundo fora, vou olhando com atenção, mas nunca mais te encontrei, nem à tua janela. Agora são passeios diferentes, há outros lugares para ver, lá os vou imaginando, tentando não crescer para não os perder nunca. Gosto especialmente daqueles com árvores, lagos e pontes... Por vezes sinto que és um sonho. E a dormir digo "é" em voz alta. É, era um sonho que eu gostava muito. Agora sou aquela estrela do mar que não encontras quando o sono está disposta a não vir e te deitas na areia a dormir. Talvez um dia te possa acordar e dizer-te a sorrir "sou a estrela do mar"! E não saberás jamais se é melhor o desejo ou o espanto! Passaram mil anos desde o nosso encontro, no entanto na tua boca de menino, deixa-me dar-te um beijo. Um beijo de saudade.
They only stick your feet to the ground
You'd better keep your head down
All of this little dreams in your mind
They only make you wonder why
When you wake up you start to cry
When you come home you just want to die
There was a time you seemed to be fine
You were a rock when you were a child
Waiting for the turn of the tide
You thought the stars were sending you love
How come you never wondered why
When you came home, you started to cry
When you woke up, you wanted to die
All of this little lights in the sky
If you can make them fall you will rise
Just turn the mic of timeI thought
I could be able to find
Something to save all I left behind
But as I grew up I changed my mind
And only remained the stars in the sky
With your innocense fly by" (musical poem by Ane Brun)
Tenho saudades de passear contigo de pijama. Recordo aquele pequeno momento antes de adormecer, aquele em que as palavras são uma parvoíce músical à qual quase nem damos importância. Trepávamos aos telhados mais altos e tentávamos encontrar gatos pretos. Ficavamos sentados a ver as estrelas e depois perdiamo-nos nas linhas turtuosas das minhas histórias. Eu contava-te histórias, não porque tu as quisesses ouvir, somente porque eu tas queria contar, dava-me um prazer terrível imaginar lugares estranhos onde te levar, e tu vinhas sempre. E fazia-me feliz imaginar, era tão simples, natural como respirar. Vinhas comigo mesmo quando tinhas muito sono e arrastavas atrás de ti a manta da tua infância. Adormecias sempre antes de eu conseguir chegar à cama. O que não sabes é que às vezes eu não descia logo pela janela, às vezes ficava por lá a olhar-te, acho que era somente nesses momentos que eu conseguia ver as tuas palavras, eu nunca consegui perceber que o teu coração era mudo, e estava sempre à espera de provar a mim mesma que estava certa, que também ele podia falar. Agora a tua janela fica num lugar longinquo que eu já não me lembro. Quando passeio nesse momento antes de adormecer por esse mundo fora, vou olhando com atenção, mas nunca mais te encontrei, nem à tua janela. Agora são passeios diferentes, há outros lugares para ver, lá os vou imaginando, tentando não crescer para não os perder nunca. Gosto especialmente daqueles com árvores, lagos e pontes... Por vezes sinto que és um sonho. E a dormir digo "é" em voz alta. É, era um sonho que eu gostava muito. Agora sou aquela estrela do mar que não encontras quando o sono está disposta a não vir e te deitas na areia a dormir. Talvez um dia te possa acordar e dizer-te a sorrir "sou a estrela do mar"! E não saberás jamais se é melhor o desejo ou o espanto! Passaram mil anos desde o nosso encontro, no entanto na tua boca de menino, deixa-me dar-te um beijo. Um beijo de saudade.
Papão - o meu Adamastor
Eu era uma menina pequenina. Minto. Eu era uma criança assustada.
Compreendo que não o soubesses, por isso me apetece contar-te agora que na altura não passavas de um monstro gigante, cujo o temor me torturava sempre que pensava em dar grandes passeios pelo bosque. Agora que o tempo passou e eu pude crescer o suficiente para ver o que há do lado de lá da mesa, olho para ti praí sentado e não posso deixar de ter pena. Crescemos todos e agora já não tens a quem meter medo. Estás esquecido nesse sofá para inválidos, olhas pela janela e aceitas as chávenas de chá que te dão sem sequer te importares se têm açucar.
Pobre bichinho.
Agora percebo que não és assim tão alto nem astuto, tens os olhos embrutecidos pelo tempo que passaste caminhando na neblina dos dias de Inverno. Eram os dias que gostavas mais, não tinhas que assustar ninguém e acreditavas que o mundo era só teu. E sabes, acredito mesmo que fosse.
a mudar a vida... ai ai, para que lado? aquele que o relógio apontar!
Conversas com o Sr. José
A vida não vai ficando mais fácil. Conheces certamente esta frase de outros momentos da tua vida em que pessoas com uma certa idade a suspiram, como se a desabafassem, naquele pequeno momento em que a verdade lhes escapa sem querer. A verdade é que não queríamos dizê-la, seria aquela frase secreta que guardamos com a vergonha de não termos percebido mais cedo como as coisas realmente são, sabes, pensam que com a idade vamos ganhando alguma sapiência, no entanto, é na surpresa dos anos que passam que a descobrimos um dia, quando nos damos conta que envelhecemos e continuamos a sofrer com aquelas coisas que sempre nos fizeram sofrer. Estou reformado. Poderias pensar que tenho todo o tempo do mundo para finalmente fazer as coisas que queria (no tempo em que queria coisas). Não as faço. Lembro-me do meu sonho - queria ser escritor. Guardava secretamente umas folhas rabiscadas, projectos de livros epopeicos dos quais apenas me lembro agora do esboço mental que fazia enquanto cumpria o meu horário na fábrica... foi o que ficou desses meus livros. E eu era bom, eu era... Eu sonhava que iria conseguir cumprir esses meus sonhos. Mas o tempo foi passando e foi-me roubando aquelas capacidades de jovem viril, a coerência, a memória, a vista... a vontade. Hoje sou um homem velho sem sonhos (e aqui quero uma frase sem vírgulas). Todos os que tinha morreram no momento em que percebi que a vida não vai ficando mais fácil. A coisa que aprendi com este punhado de anos foi que em tempos eu poderia ter tido uma grande vida, agora, com os meus óculos graduados e as minhas histórias, não passo que um velho que chateia os que não têm tempo para ouvir. (R.M.)
A vida não vai ficando mais fácil. Conheces certamente esta frase de outros momentos da tua vida em que pessoas com uma certa idade a suspiram, como se a desabafassem, naquele pequeno momento em que a verdade lhes escapa sem querer. A verdade é que não queríamos dizê-la, seria aquela frase secreta que guardamos com a vergonha de não termos percebido mais cedo como as coisas realmente são, sabes, pensam que com a idade vamos ganhando alguma sapiência, no entanto, é na surpresa dos anos que passam que a descobrimos um dia, quando nos damos conta que envelhecemos e continuamos a sofrer com aquelas coisas que sempre nos fizeram sofrer. Estou reformado. Poderias pensar que tenho todo o tempo do mundo para finalmente fazer as coisas que queria (no tempo em que queria coisas). Não as faço. Lembro-me do meu sonho - queria ser escritor. Guardava secretamente umas folhas rabiscadas, projectos de livros epopeicos dos quais apenas me lembro agora do esboço mental que fazia enquanto cumpria o meu horário na fábrica... foi o que ficou desses meus livros. E eu era bom, eu era... Eu sonhava que iria conseguir cumprir esses meus sonhos. Mas o tempo foi passando e foi-me roubando aquelas capacidades de jovem viril, a coerência, a memória, a vista... a vontade. Hoje sou um homem velho sem sonhos (e aqui quero uma frase sem vírgulas). Todos os que tinha morreram no momento em que percebi que a vida não vai ficando mais fácil. A coisa que aprendi com este punhado de anos foi que em tempos eu poderia ter tido uma grande vida, agora, com os meus óculos graduados e as minhas histórias, não passo que um velho que chateia os que não têm tempo para ouvir. (R.M.)
fragmento de um diário antigo
Estou contente com esta pequenina viagem que vou fazer. Parece que é uma viagem muito grande dentro de mim, até tenho borboletas a voar cá dentro. As minhas ruas e o cheiro no ar a mar do Norte, talvez as mesmas caras de antes nas mesmas esquinas, o chão, a luz, as pessoas. Lembro-me dos dias de Inverno, as luzes acesas, os guarda-chuvas pousados nos braços o brilho das poças de água... ainda que não seja Inverno estou contente por voltar ao Porto.
la la la, a vida não é para ser levada a sério pois não?
Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no faith, ain't got no beard
Ain't got no mind
Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no name, ain't got no love
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God
What have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got?
Nobody can take away
I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex
I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood
I've got life, I've got my freedom
I've got the life
I got a headache, and toothache,
And bad times too like you,
I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobies
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex
I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood
I've got life, I've got my freedom
I've got life, I'm gonna keep it
I've got life, I'm gonna keep it
(a Nina)
loucura de uma tarde de Verão
Eu quero fazer chapéus.
Quero remar contra a maré e encontrar-me contigo na Foz do Douro pela primeira vez em 1000 anos. Não vamos pensar em sexo desta vez, vamos só dar as mãos e ver o nascer do sol que está mesmo atrás de ti. Nunca o vês.
Quero correr na linha do eléctrico, beijar aquela luz de cidade entristecida.
A minha cidade. Porto.
Preciso dessas futilidades para aguentar... ah os dias, os dias longos e frios, brancos como o fluorescente das lâmpadas do mercado. Dá-me, dá-me lagartixas a correr, eu preciso, preciso das ruas inclinadas, do movimento do autocarro, da chuva a escorrer nos vidros, daqueles cafés com cadeiras de madeira. Que se fodam as de plástico.
Coisas pequeninas...
Pequenas... as cordas de um violoncelo... aulas de música... não cresço, criança, adolescente, rebelde. Quero o meu pai de volta para poder ser do contra. Contra o quê?
Contra mim, contra a parede e o vaso parte-se com as rumãs a rebolar... e rimos da loucura dos dias mortos de Verão que de nada ou pouco servem. Eu percebo... a luz influencia-me a escrever. Os dedos moles, demoram a pensar, dobram-se em cima das letras... tesão, preciso.
Quero gritar, sussurrar dentro de mim, dentro da sala escura, vamos fechar as janelas.
Paris... Silêncio. Paris acordou.
Paris, a pradaria do imaginário literário. Ah o romance que fede decomposto...
O amor... pequeno capuchinho vermelho, eu como-te. Devoro a tua capa, e em pelo, tu pedes-me que te abrace... tens frio.
"conta-me uma história, estou tão aborrecida, vá lá" (e depois ninguém contou nada)
Alberto.
Este nome não me sai da cabeça desde o dia em que, percorrendo o meu usual caminho diário, não parava de o repetir vezes e vezes sem conta. Alberto. Alberto com o "l" bem enrolado na língua. Alberto com o "r" matreiro a querer correr como um carro barulhento. Alberto. Esguio, alto, magro e suave como uma folha verde e macia que se dobra com as carícias matreiras do vento, que as percorre sem pedir autorização.
Quem será o Alberto? Terei eu um Alberto dentro de mim? Talvez ele seja músico... espera, espera... ele toca guitarra. Os dedos longos e finos como ramos de romã beliscam com suavidade as cordas arrepiadas e virgens, e os sons viajam no ar em aviões muito pequeninos e leves. São barquinhos de papel na imensidão marítima do tempo e espaço. Queria ter dedos assim, dedos conhecedores de notas musicais "Como está senhor Dó Menor? Dona Ré, à quanto tempo, mais verdinha hoje!".
Para mim o Ré é verde, se eu fosse "cinestésica" era verde mesmo.
Um dia ele convida-me para tomar café e eu nem vou acreditar quando ele tocar para mim na sua guitarra de algodão. O meu chapéu será azul com muitas nuvens penduradas, e no café desenho uma ovelha dourada. A música da Pantera Cor-de-Rosa será a nossa banda sonora ao entardecer...
Ai, ai... Alberrrrto!
divagação numa tarde de sol
dentro de mim há um deserto. estende-se até ao infinito. é azul, da cor do céu. é nele que mergulham as emoções como peixes cansados de voar. eu dispo-me nesse deserto e no instante em que a minha pele fica nua eu e ele somos um. não sei onde começo ou termino naquele deserto, se me deito, perco-me de mim e sou o infinito que existe nas coisas belas.
também eu sou como um peixe sedento, quero saciar esta sede nessa areia. mais, mais que esta não chega... morro... eu morro-me se não beber desse mar azul.
o desafio (viagem ao passado)
O DeSaFiO não me foi proposto por ninguém em concreto, por muita pena minha, mas achei-o interessante e resolvi arriscar.
Há 10 anos...
1 – O meu primeiro namorado.
2 – Escrevi um livro chamado "A Fuga" (é verdade, 145 páginas de pura ficção!)
3 – A minha mãe autorizou-me a pintar uma parede do quarto de preto.
Há 5 anos...
1 – Entrei para a universidade determinada a mudar a minha vida!
2 – Descobri o alcool e os seu "bons" efeitos (durante e depois).
3 – Comecei a ter aulas de pintura.
Há 2 anos...
1 – Descobri o amor.
2 – Virei o mundo ao contrário.
3 – Desci da minha torre.
Há 1 ano...
1 – Mudei de cidade.
2 – Lips on your Lips.
3 – Rir rir e ser criança com gente que se ama!
Ontem...
1 – Ontem… tive aula de canto.
2 – Queria ser três pessoas diferentes ao mesmo tempo!
3 – Brinquei com gatos!
Hoje...
1 – Hoje fiz bonecas de trapos pretas!
2 – Quis escrever...
3 – Vou ver Kings!!!
Amanhã...
1 – Vou fazer bonecas de trapos pretas…
2 – Vou mudar o mundo.
3 – Vou brincar com gatos
Cinco coisas sem as quais não consigo viver:
1 - Ar
2 - Água
3 - Sonhar
4 – Amor
5 – Música
Cinco coisas que compraria com 1000 euros:
1 – Fugia para a India, ou outro lugar qualquer cujo o preço do bilhete fosse 1000 euros, deixava-me perder onde ninguém me conhecesse nem esperasse nada de mim.
2 – Tintas, pincéis, telas gigantes, tecidos coloridos, fitas e colas, botões (preciso mesmo…).
3 – Uma cadeira estilo anos 20 para a minha secretária… A minha dá-me cabo das costas…
4 – Começava uma empresa virtual qualquer… =/
5 – Aulas de francês e de canto (para me abrir portas naqueles sonhos mais reconditos - cantar em francês, sussurrar "Edit Piafices")
Cinco maus hábitos que tenho:
1 – Nunca conseguir acordar a horas…
2 – Nunca chegar a horas a lado nenhum…
3 – Ter receios a mais.
4 – Arriscar pouco.
5 – Tenho pouca garra. (Garra rapariga!!!)
Três coisas que me metem medo:
1 – Sentir-me só…
2 – Sofrer…
3 – Às vezes lugares escuros… (como eu)
Três coisas que tenho vestidas:
1 – Jeans.
2 – Uma camisa branca.
3 – Umas cuecas amarelas com flores!
Três coisas que quero mesmo muito neste instante:
1 – Um campo relvado onde me deitar…
2 – Um abraço forte.
3 – A companhia de um bom amigo…
Três lugares que gostava de visitar:
1 - Butão
2 – India (para me perder e encontrar)
3 – Islândia (também quero sentar-me junto a um lago a ver o sol da meia noite enquanto aguardo a chegada do meu amor)
Vou desafiar: Quem se sentir desafiado! Tu!?
Há 10 anos...
1 – O meu primeiro namorado.
2 – Escrevi um livro chamado "A Fuga" (é verdade, 145 páginas de pura ficção!)
3 – A minha mãe autorizou-me a pintar uma parede do quarto de preto.
Há 5 anos...
1 – Entrei para a universidade determinada a mudar a minha vida!
2 – Descobri o alcool e os seu "bons" efeitos (durante e depois).
3 – Comecei a ter aulas de pintura.
Há 2 anos...
1 – Descobri o amor.
2 – Virei o mundo ao contrário.
3 – Desci da minha torre.
Há 1 ano...
1 – Mudei de cidade.
2 – Lips on your Lips.
3 – Rir rir e ser criança com gente que se ama!
Ontem...
1 – Ontem… tive aula de canto.
2 – Queria ser três pessoas diferentes ao mesmo tempo!
3 – Brinquei com gatos!
Hoje...
1 – Hoje fiz bonecas de trapos pretas!
2 – Quis escrever...
3 – Vou ver Kings!!!
Amanhã...
1 – Vou fazer bonecas de trapos pretas…
2 – Vou mudar o mundo.
3 – Vou brincar com gatos
Cinco coisas sem as quais não consigo viver:
1 - Ar
2 - Água
3 - Sonhar
4 – Amor
5 – Música
Cinco coisas que compraria com 1000 euros:
1 – Fugia para a India, ou outro lugar qualquer cujo o preço do bilhete fosse 1000 euros, deixava-me perder onde ninguém me conhecesse nem esperasse nada de mim.
2 – Tintas, pincéis, telas gigantes, tecidos coloridos, fitas e colas, botões (preciso mesmo…).
3 – Uma cadeira estilo anos 20 para a minha secretária… A minha dá-me cabo das costas…
4 – Começava uma empresa virtual qualquer… =/
5 – Aulas de francês e de canto (para me abrir portas naqueles sonhos mais reconditos - cantar em francês, sussurrar "Edit Piafices")
Cinco maus hábitos que tenho:
1 – Nunca conseguir acordar a horas…
2 – Nunca chegar a horas a lado nenhum…
3 – Ter receios a mais.
4 – Arriscar pouco.
5 – Tenho pouca garra. (Garra rapariga!!!)
Três coisas que me metem medo:
1 – Sentir-me só…
2 – Sofrer…
3 – Às vezes lugares escuros… (como eu)
Três coisas que tenho vestidas:
1 – Jeans.
2 – Uma camisa branca.
3 – Umas cuecas amarelas com flores!
Três coisas que quero mesmo muito neste instante:
1 – Um campo relvado onde me deitar…
2 – Um abraço forte.
3 – A companhia de um bom amigo…
Três lugares que gostava de visitar:
1 - Butão
2 – India (para me perder e encontrar)
3 – Islândia (também quero sentar-me junto a um lago a ver o sol da meia noite enquanto aguardo a chegada do meu amor)
Vou desafiar: Quem se sentir desafiado! Tu!?
confusões
Tenho saudade das palavras. Do desenho que compõe uma carta. As linhas do pensamento. Os lugares dentro de cada letra. Onde me escondi eu com o meu caderno de desenhos? O tempo, pequenino e malandro vai-me embalando e eu deixo-me levar por ele sem ... não sei.
Oxalá
Oxalá eu pudesse voar até ao outro lado do mundo, beber chá no deserto. Oxalá, nunca me esqueça que as asas servem para voar, mesmo quando não são usadas durante muito tempo.
Oxalá eu te encontre por essas ruas e te surpreenda cantando.
Oxalá o futuro aconteça.
Oxalá que a vida me corra bem, que possa sorrir e andar de baloiço nas noites de Verão, correr na calçada com os sapatos enfiados na carteira e gargalhar nos intervalos da conversa!
Oxalá me apaixone.
Adeus, não afastes os teus olhos dos meus... II
Foi a vez do "terrível" e do "careca" fazerem a viagem rumo às suas novas famílias... restam a Amália e o Napoleão.
Penso que esses já se sentem em família à muito tempo!
"Quando dormes
E te esqueces
O que ves
Tu quem és
Quando eu voltar
O que vais dizer?
Vou sentar no meu lugar
Adeus
Nao afastes os teus olhos dos meus
Isolar para sempre este tempo
É tudo o que tenho para dar
Quando acordas
Porque quem chamas tu?
Vou esperar
Eu vou ficar
Nos teus braços
Eu vou conseguir fixar
O teu ar
A tua surpresa
Adeus
Não afastes os teus olhos dos meus
Eu vou agarrar este tempo
E nunca mais largar
Adeus
Não afastes os teus braços dos meus
Vou ficar para sempre neste tempo
Eu vou, vou conseguir para-lo
Vou conseguir para-lo
Vou conseguir
Adeus
Não afastes os teus olhos dos meus
Vou ficar para sempre neste tempo
Eu vou conseguir para-lo
Eu vou conseguir guarda-lo
Eu vou conseguir ficar"
Boa viagem,
Adeus!
A carta (viagem no tempo)
Parece mesmo que morreste. Já reparaste neste silêncio que nos separa? Já não te encontro do lado de lá do tronco da nossa árvore. Sento-me e espero por ti nessas tardes que para mim faziam sentido quando te esperava. Agora, espero-te e tu não vens. Nada faz sentido. Também abro a janela como fazia no antigamente, aquele muito antigo em que eu gostava muito de ti. Onde estás? Ainda te lembras de mim? Perdi-me de ti naquele sonho estranho em que seguias num carro grande e te afastavas cada vez mais, eu a chamar, a chamar... a mostrar-te as minhas luvas de mimo, aquelas com que eu gostava de brincar contigo, as tuas favoritas, ainda te lembras? Eram vermelhas!
...às vezes sonho contigo, ainda aí estas, mas longe, do lado de lá da velha ponte vermelha.
Não é justo que tenhas ficado com os meus dedos, aqueles que eu usava para falar. Deixaste-me muda. Roubaste as histórias que eu te contava. Ficaste com tudo.
Agora reparo que sempre foi assim, tu lá e eu aqui, a desenhar-te o mundo, tu nunca querias nada... e eu dava-te tudo, os meus lápis de cera, as minhas mãos e a minha boca.
Dentro da esquecida mala de viagem encontrei alguns dedos e recomeço a aprender a falar. Não vais acreditar, mas o mundo afinal é redondo e podemos ir a todo o lado escorregando como num escorrega gigante. Eu quero ir a todo o lado, ver o azul e o vermelho do mundo. Eu vou levando verde, na esperança vã que te relembres dos tempos em que ainda sabias voar e nos ríamos nos intervalos dos silêncios que degustávamos no telhado da minha inexistente vizinha.
Às vezes ainda espreito pela tua janela. Está sempre fechada e é escuro lá dentro. Ainda assim, espero encontrar-te um dia para te poder entregar um abraço muito pequenino que fui deixando dentro de um bolso antigo.
Esta carta serve só para te dizer que eu ainda estou viva.
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