soundtrack for the day - yoga mantra (depois ensino-te)

Ayôdhya vasi Rám Rám Rám
Dasharatánandana Rám (2x)
Páthita pávana jánakí jívana
Sítá môhana Rám (2x)

notas soltas

Talvez penses que sou uma idiota. Sim, tens razão. Tenho medo.

recado escrito com giz na parede

da próxima vez que te vir vou abraçar-te até ficares corado

Peter Pan

Quero fumar uns cigarros noite dentro e esvaziar garrafas de vinho verde ao som de Vampire Weekend. Dançar. Dançar até os pés me doerem e eu ter que tirar os sapatos. Fazer figuras tristes e não me importar com elas. Não me importar com nada e abraçar os amigos que não vejo há 6 meses. Serão eles ainda meus amigos? Cantar e abrir as janelas. Transformar todas as janelas em janelas mágicas. Rir, rir às gargalhadas até não conseguir respirar. Essas coisas que qualquer Peter Pan faria numa noite destas... A esses amigos que deixei na terra do nunca um beijo de boa noite.

O mundo é teu!

"Obrigado. Mas hoje estou demasiado deprimida para fazer o que quer que seja com ele."

fragmentos

A Mariana não tem amigos. Já não se lembra como se fazem amigos, essas coisas esquecem-se com o tempo. Os objectos vão ganhando nomes e importância e aquele spot publicitário do Ikea (o do candeeiro vermelho) faz sentido para a Mariana. Agora os dias resumem-se a longos passeios no jardim, resumem-se a um grande vácuo. De vez enquando ela tem umas memórias dessas manchas do passado, pessoas com quem ria e vivia e que se evaporaram com o passar dos anos... os anos passam e ninguém dá por eles. Um dia a Mariana vai acordar e, sem se ter apercebido vai ter 90 anos. Vai sorrir para o seu gato persa e sentar-se na varanda olhando o rio a morrer no mar.

Loop

O tempo está a tentar dizer-me qualquer coisa. O espelho mostra também essa mensagem do tempo. Um rosto com menos alegria. Para onde foi? O que aconteceu?

O que é que queres? Acho que já não nos voltamos a ver... esta confusão.

Consegues ouvir isto? Estou longe agora e tu precisas de ouvir isto. Acho que é quarta à noite... que confusão. O sol já se pôs, e dia e noite eu sonho, sonho com rodas que giram sem parar, é impossível eu sei, mas eu queria que o nascer do sol fosse já para poder fugir pela auto-estrada em direcção ao infinito... que confusão, que confusão.

para ti, sem censura

vamos foder?

contado, ninguém acredita

Os meus casacos de Inverno estão zangados comigo. Eu não me tinha apercebido de nada pois tinha-os guardados no armário com a porta entreaberta. Hoje, porém, apercebi-me de tudo. Era uma zaragata pegada quando a porta se abriu: a Sra. Gabardina Amarela enroscou-se de tal forma em torno do Mangas de Três Quartos Roxo que este, coitadinho, estava todo enrugado que parecia que tinha envelhecido uns bons anos, sacudi-lhe o lombo mas ele até me pareceu pálido. O seu primo, o Sr. Três Quartos de Lã tentava sufocar o Casaco Preto, como se não quisesse que eu o visse. Coloquei-os em cabides diferentes que eu não gosto destas confusões. O Casaco de Pele fugiu para a sala e atirou-se para cima do sofá numa lamuria que só visto, até os gatos se admiraram (ele costuma ser tão pomposo). O Casaco Cinzento, ancião, encostou-se ao fundo do armário e virou-me as costas, recusou-se a falar comigo, mesmo quando lhe pedi que interviesse e me ajudasse a resolver aquele festim de tecidos revoltados. Quando tudo se endireitou, cada um no seu cabide, lá percebi o que se passava: estavam todos com ciúmes do meu Casaco Novo. O meu Casaco Novo está a viver connosco à 2 meses, e como tal, para o ambientar à nova família, usei-o diariamente, e todos os outros casacos ficaram muito revoltados pois achavam que já ninguém os iria usar este Inverno. Tive de prometer que repartiria com todos estes dias de frio. Uma coisa é certa, não volto a sair de casa com a porta do armário entreaberta - pior que os dias frios são os casacos a fazer birras.

quatro linhas semi-pensadas

Para que servem as palavras se não sabemos o que fazer com elas? Para quê falar, escrever? Não dizemos nada. O Silêncio é o grande senhor da verdade. É coerente, sincero, pensa sempre naquilo que sente. Não se precipita numa diarreia sem sentido, não cai em armadilhas ardilosas de terceiros. Eu gosto do meu silêncio. Conversamos muitas vezes sobre as coisas triviais (quem sabe sobre formigas que caem dentro de frascos de compota) e discutimos também as grandes questões da vida, o sentido das coisas. Pudesse eu guardar nalgum lugar esses devaneios nocturnos ou matinais e seria rica - um conhecimento de mim própria sem fim - mas essas conversas têm tendência de se evaporar com o barulho da vida e eu fico sem saber nada, não guardo esse conhecimento gerado na minha cabeça e, geralmente, caio no erro de abrir a boca e falar de mais.

um dois três, escreve lá outra vez

As pessoas que ela conhecia estavam sempre zangadas, por isso ela queria ir embora. Não era o facto do seu coração estar partido, eram apenas as pessoas e a sua crueldade. Partiu numa manhã invernosa. Apanhou dois comboios até chegar ao navio que a levaria para o outro lado do mundo. Quando se preparava para deixar atrás de si toda aquela gente, viu ao longe alguém a correr acenando com os dois braços. Também gostaria que se despedissem dela daquela forma, pensou, mas todas as pessoas zangadas da sua vida estavam demasiado ocupadas a serem zangadas e não se aperceberam das mudanças subtis na pobre rapariga. Agora já era tarde. A pesada ancora tinha sido recolhida e aquela gigante pedra de ferro afastava-se da doca para a levar à sua nova vida. Um vida com pessoas novas, cores novas e corações novos também, naquele momento em que viu a terra ser engolida pelo mar um peso voou em direcção ao infinito - era livre de todas as zangas do mundo.

patetices

A mãe guardava tantos sentimentos reprimidos que quando morreu não conseguiam fechar o caixão de tão grande que ela estava.

Lets fly!!!

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
you were only waiting for this moment to be free

anotação

Estou presa a esse momento que nunca aconteceu. É universal, acontece. Tudo aquilo que não conseguimos acabar vai-nos comendo por dentro porque ficamos a desejá-lo para sempre. Quero abrir a janela do meu quarto enquanto durmo. Quero aquela inocência infantil que se perdeu... perdeu-se e não sei onde a encontrar.

give me a reason to love you / I'll give you a reason to love me

Não me esqueci. Há dias que ainda me lembro de ti. Não queria, mas as memórias são como as marés, vão e vêm, e estes dias de chuva parecem trazer neles momentos esquecidos. Penso nos silêncios, sinto falta desse silêncio tão cheio que havia entre nós, pudesse eu agora estar num desses lugares do passado, uma música qualquer no rádio, a noite já quase no fim. Sinto que um sonho morreu. Não me perguntes qual, sinto apenas que nada mais poderá ser aquilo que foi. Costumava escrever umas cartas estranhas sobre uma pessoa que estava perdida no mundo, viajando sem saber para onde ou de onde, hoje sinto que esse personagem sou eu, quero ter a mala pronta e partir, algures ficou esse plano que eu tinha desenhado para o futuro, agora tenho lápis e folhas brancas e nada que desenhar, não há planos alternativos. Eu não sabia naquela noite, aquela em que eu queria muito que tu fosses a pessoa para o resto da minha vida, que estávamos condenados. Há um cinzento escuro a toldar-me a visão. Talvez seja só este tempo a pregar partidas mas existe esta tristeza, existe.

regresso aos guardanapos de papel

Há um certo incómodo no acordar.
Como se as manhãs não devessem existir e a aurora fosse o crime perfeito para o fingimento.
Guardam-se as tristezas e as desilusões na gaveta do pijama e vestem-se sentimentos que não se sentem.
Pintam-se no rosto os sorrisos suficientes para atravessar o dia na margem de se se reconhecido como um morto vivo.
As manhã são uma mentira,
uma promessa de sol que não aquece,
uma luz que não ilumina, uma alegria que não se sente.
Apenas o mar não mente, vestido de cinzento,
mostra sempre aquilo que sente.

folha de Outono voando na estrada do Guincho quando um cão castanho passou

De onde vens tu ò forasteiro que trazes contigo a tristeza inteira de um país? Que histórias essas que guardas em conchas de mares jamais navegados? Mares de areia e gente que carregas, esse peso inteiro de uma vida a fugir. De onde vens tu ò forasteiro, porque choras essas lágrimas de uma saudade já morta? Não sabes que te mataram já nesses lugares longínquos onde jamais poderás regressar? Não saberás tu que o mundo gira sem parar e o tempo, como uma velha lenta, se empurra anos a cima para te roubar o que de mais especial tinhas? Pobre forasteiro solitário, as minhas penas caiem sobre ti, pois sei o que sentes. Se ao menos também as tuas penas pudessem cair sobre mim. De onde vens tu ò forasteiro? Porque não me levas também a mim?

what the F******

Estará a acabar o tempo para criar coisas? O que impede as mentes brilhantes de produzirem? Quem as impede de criarem obras primas que serão adoradas para toda a posteridade com admiração e surpresa? Como começar? Num dia de chuva? Numa casa com lâmpadas fundidas, um lusco fusco artificial de halogéneo, cigarros que queimam nas mãos calejadas? A televisão a murmurar para a avó sentada na sua cadeira, o pai que enche sem parar copos de vinho tinto de um garrafão que pinga e deixa nódoas na toalha de Natal? Uma lareira que devora sofregamente lenha de pinheiro, que cospe fumo negro que suja as paredes e penetra nas roupas de quem vive naquela casa? Será começar no Inverno, numa aldeia que ninguém conhece onde vivem pessoas que nunca viram o mar, que vêem telenovelas e conversam na rua dentro das suas camisolas de lã borbotosas com 20 anos? Será mergulhar no silêncio e deixar a tristeza alimentar-se de rostos que dantes sorriam e riam? Será não fazer nada e deixar a chuva chover até se fartar? Será parar e deixar tudo correr?

as manhãs de Novembro são tramadas - odeio Novembro

O primeiro mês é, de todos, o mais confuso. Não percebeste ainda o significado daquela ausência e olhando para trás achas que tudo não passou de um sonho estranho. No segundo mês, as coisas acalmam e a ausência torna-se mais marcada. Os objectos pessoais estão nos mesmos lugares sem ninguém ter mexido neles e questionas-te, muitas vezes, se haverá realmente um regresso ou se aquele sonho foi real. No terceiro mês não queres falar no assunto, estás zangado com toda a gente, achas que alguém é culpado, que te mentiram, que foste enganado. Querias ter mais tempo, querias ter dito outras coisas e roubaram-te todas essas oportunidades. Questionas o sentido da vida, queres estar só, odeias tudo. Os meses seguintes são passados a ignorar esse facto, queres que te tratem com normalidade, dizes que não aconteceu nada e que está tudo bem. Um ano depois já és capaz de dizer: a minha mãe morreu.

a despedida (ou a caneta enlouquecida sobre algodão prensado)

Os irmão não se viam há dois anos. Na realidade, ainda que antes disso se vissem com regularidade, estes dois não se falavam à 18 anos. Não que estivessem zangados um com o outro, nada dessas histórias de partilhas e terrenos que acaba com espingardas a sair dos armários e a respingar tiros contra corações fracos que se quebram como galhos. Os irmãos não se falavam porque não havia nada para dizer. A vida tem dessas coisas, uns nascem com coisas para contar e aqueles dois não tinham nada para conversar - diríamos que as coisas triviais aquando da sua vivência em conjunto, não valem como reais conversas ou assuntos de importância a tratar entre pessoas - "passa-me o sal", "vou sair" eram as frases mais longas que trocavam entre si. Estes dois não percebem de amizades, pelo menos um com o outro isso não existe, são irmãos e isso deverá chegar para colmatar todas as outras lacunas existentes entre ambos. Como estava a dizer, os irmãos não se viam há dois anos. Coisas da vida levaram-nos para longe um do outro e os telefones não cumpriram a sua função de aproximar. Encontraram-se num casamento de um primo em comum (ora, são irmãos), trocaram um breve olá e acabaram perdidos no meio das tias e dos tios. O dia passou e a festa terminou. (e assim foi, partiram e nem se despediram)

pensamento desfraldado na ponta da caneta

As pessoas são como as fogueiras. Sem cinza parece que o fogo não arde da mesma forma. Sem histórias, parece que as pessoas não brilham da mesma maneira.

Querido Diário

Só para que saibas, são seis e quarente e quatro da tarde. Não tomei banho, não lavei os dentes, não me penteei. Bebi café e fui passear em Sintra. Falei mal de Deus e vi o pôr do sol. Para que saibas, sinto-me mais alegre. Querido diário, não quero escrever-te sobre coisas filosóficas, não quero dialogar sobre os propósitos da vida, não quero sequer citar grandes escritores, prefiro ser honesta e dizer-te que todas as minhas ideias fedem a merda, sou estúpida e andei a enganar-te este tempo todo. Para que saibas, penso suicidar-me, não quero mais viver esta vida do faz de conta, é muito cansativo... querido diário... querido.

Querido Diário

Só para que saibas, hoje é dia 21 de Novembro, está a chover e são quatro e cinquenta e seis da tarde. Fumei um cigarro e comi bolachas de chocolate. Não me penteei, mas hoje lavei os dentes. Para que saibas, hoje chorei. Um dia mudo-me para um apartamento T1 e vou trabalhar para a Fnac. Querido Diário, não te preocupes comigo, hoje é só um dia esquisito.

FUMAR MATA

Há muitas pessoas com vontade de morrer.

lembranças de um primo

Naquele tempo havia respeito. Os filhos eram obedientes. Os pais não precisavam de dar carinho aos filhos, isso só os estragava. Foi por isso que em Misquel um rapaz bom, que respeitava o pai e obedecia, se enforcou na loja onde as vacas leiteiras dormiam. O rapaz, aluno exemplar, trabalhador, que ajudava pai e mãe nas lides agrícolas,que cuidava com amor os animais da casa, tirou naquele dia negativa no teste da escola. Com medo, com respeito, preferiu morrer a ter que contar ao pai.

exercício

O pai matou a mãe. Os filhos não gostam de falar nisso e assim sendo emigraram para França. O pai, sozinho na casa que mandou caiar de azul, faz esparguete com salsichas. A mãe, dizem, bebeu leite com veneno. A vizinha, quando a encontrou a espumar-se, deu-lhe azeite a beber para ver se ainda lhe valia. Mas a mãe morreu e os filhos partiram para sempre. Hoje é somente o pai e aquela panela com esparguete a ferver.

exercício

Carlota era uma rapariga enfezada e sem piada. Os cabelos pretos, pingões, que lhe pousavam nos braços como um manto de velha,escondiam-na como um cortinado esconde os trastes de família. Os olhos, herdados do lado do pai, eram grandes e cinzentos. Descaídos, no entanto, conferindo à pobre rapariga uma ar tristeza que lhe tingiu a alma com o tempo. A boca era pálida como a de um morto, lábios finos, inertes, lábios que não sabiam certamente sorrir. Carlota era uma rapariga triste filha de pais professores. Não tinha muitos amigos, mas isso não lhe fazia falta pois ela nem sabia o que era isso de ter amigos. No Verão, quando os primos da cidade visitavam os avós, Carlota convivia com eles a contra gosto, não sabia brincar com outras crianças e acabava sempre por criar inimizades com a prima Ana, prima que odiava em segredo por ser a favorita da avó. Os Invernos passava-os no seu quarto a brincar com as bonecas que a avó lhe trazia de Espanha, eram todas de um plástico barato e tinham mãos grandes com dedos abertos que arranhavam, a única coisa que faziam era abrir os olhos e fechar. Ainda assim ela mantinha-as bem arrumadas por tamanho e cor de cabelo, não lhe agradava a desarrumação, tudo tinha de ser ordenado. Diziam os pais, quando os primos lá passavam, que Carlota seria no futuro uma excelente bibliotecária, quem sabe trabalhasse num importante arquivo algures a catalogar processos. Carlota suspirava, sabia lá o que os pais queriam dizer com aquilo, ela somente desejava viver na aldeia para sempre, a confusão de gente deixavam-na triste e só. Os pais de Carlota eram gente estranha. Tratados com diligencias especiais pelo povo da aldeia por serem os Sr. Professores, mas ainda assim, apesar dos títulos de senhores de bem, eram de mente curta. Evitavam o convívio e o isolamento daquela aldeia transmontana dava-lhes uma certa paz de espírito - a paz de não terem de se esforçar muito e de poderem viver uma vida calma, onde a actividade mais excitante que praticavam era a ida à pastelaria, aos domingos, comprar uns bolinhos para o lanche e beber um café na mesa de sempre. Carlota era uma criança diferente. Vivia naquela solidão de ser a única com bonecas de plástico.

Eu faria um filme a preto e branco...

e depois, se eu pudesse, comprava um projector para ficar a noite inteira a ver as folhas abanar com o vento.