Tarde de expedição na Livraria Galileu

Depois de alguns momentos encantada no meio de milhares de livros, acabei por encontrar um amoroso livro de poesia chamado Namorados. Tem poemas de amor, um amor bitter, triste, um pouco ao estilo Romeu e Julieta. O amor impossível. A poesia do amor não carnal. Data de 1921. Encantada com a minha descoberta! Mal posso esperar para voltar à Galileu para mais uma tarde de tesouros!

Tua Mónica

Mónica fumava, cigarro atrás de cigarro nos intervalos dos almoços da gentalha feliz. Fumava para não pensar mais naqueles rios que lhe banhavam os pés. Fumava os seus desamores de menina, os sonhos que perdera, as inimizades que criara por ser amarga como as uvas selvagens que nem para o vinho as querem por serem azedas. Enquanto fumava os seus cigarros, dava espaço a que as memórias invadissem o presente, deixava que o mosto se misturasse com o cheiro a garotos e torradas, e não pensava mais nas mesas por limpar e nos clientes por atender. Deixava-se ficar solta e gingona como no tempo em que corria ladeira acima para limpar os baldes da colheita.
Crescera a saltar de linha em linha, desviando-se dos comboios que fugiam daquela terra eremita em direcção ao Porto. Adormecia embalada pelo seu cantar moribundo, o seu apito angustiante quando ali chegavam, e acordava com o badalo, de uma quase alegria, quando dali partiam. Cresceu impregnada com aquele cheiro de comboio. Estava-lhe na roupa, no cabelo e na pele.
Na pequena casa onde vivia, com a sua mãe que era padeira, podia ver dois rios distintos - o Douro e o Tua no seu abraço de amor. Mónica cresceu dividida entre aquelas duas paixões -  o rio e os comboios que lhe prometiam uma viagem para um lugar melhor.
Cresceu como peixe dentro de água, como diziam as velhas da aldeia, tinha aqueles rios onde era livre, lavava neles os seus males e neles chorava muitas vezes em silêncio, abafando na sua correnteza de cabra montanhesa as lágrimas de menina sem pai. Foi ali que cresceu, naquelas casas, nascidas como juncos à beira rio, entre a terra e a água, e ela era assim também, água e terra. Cresceu habituada às lides do Douro, aos horários pouco pontuais dos seus comboios, mas para ela aquela paz pequenina chegava-lhe para aquecer o coração, tal como o pequeno forno da padaria chegava para fazer o pão para toda a gente. Para ela era assim, as coisas sentiam-se bem, era porque estavam bem. Quando cresceu apanhou o comboio, como muitos haviam feito antes dela. Arranjou um trabalho num café numa daquelas cidades estrangeiras onde não há rios nem comboios. E hoje, ainda que não o admita, fuma cigarros para espantar com o fumo as memórias velhas, para espantar com aquele fumo os comboios  que lhe venham falar de um rio que se abraçava a outro num abraço eterno de amor.

A Princesa e a Ervilha
(Idem aspas aspas)

Versão Brasileira
Adaptado do conto de Hans Christian Andersen
Tirei daqui: http://www.educacional.com.br/projetos/ef1a4/contosdefadas/princesaervilha.html

Era uma vez um príncipe que queria se casar com uma princesa, mas uma princesa de verdade, de sangue real meeeeesmo. Viajou pelo mundo inteiro, à procura da princesa dos seus sonhos, mas todas as que encontrava tinham algum defeito. Não é que faltassem princesas, não: havia de sobra, mas a dificuldade era saber se realmente eram de sangue real. E o príncipe retornou ao seu castelo, muito triste e desiludido, pois queria muito casar com uma princesa de verdade.
Uma noite desabou uma tempestade medonha. Chovia desalmadamente, com trovoadas, raios, relâmpagos. Um espetáculo tremendo!
De repente bateram à porta do castelo, e o rei em pessoa foi atender, pois os criados estavam ocupados enxugando as salas cujas janelas foram abertas pela tempestade.
Era uma moça, que dizia ser uma princesa. Mas estava encharcada de tal maneira, os cabelos escorrendo, as roupas grudadas ao corpo, os sapatos quase desmanchando... que era difícil acreditar que fosse realmente uma princesa real. A moça tanto afirmou que era uma princesa que a rainha pensou numa forma de provar se o que ela dizia era verdade. Ordenou que sua criada de confiança empilhasse vinte colchões no quarto de hóspedes e colocou sob eles uma ervilha. Aquela seria a cama da “princesa”. A moça estranhou a altura da cama, mas conseguiu, com a ajuda
de uma escada, se deitar. No dia seguinte, a rainha perguntou como ela havia dormido.
— Oh! Não consegui dormir — respondeu a moça,
— Havia algo duro na minha cama, e me deixou até manchas roxas no corpo!
O rei, a rainha e o príncipe se olharam com surpresa. A moça era realmente uma princesa! Só mesmo uma princesa verdadeira teria pele tão sensível para sentir um grão de ervilha sob vinte
colchões!!! O príncipe casou com a princesa, feliz da vida, e a ervilha foi enviada para um museu, e ainda deve estar por lá... Acredite se quiser, mas esta história realmente aconteceu!

A menina dos fósforos
(pesquisa / inspiração)

Versão brasileira
 Conto adaptado de Hans Christian Andersen
Fui buscar aqui: www.members.fortunecity.com/gafanhota/fosforos
  
Era véspera de Ano Novo. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía rapidamente, uma criança, uma menina, descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos e tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera esmola - nem um só vintém.
Assim, morta de fome e frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e o desânimo - a estátua viva da miséria.
Os flocos de neve caíam pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro.
Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém; era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, lá fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas que lhe tinham vedado as enormes frestas.
Tinha as maozinhas tão geladas... estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos, sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parece para acendê-lo... Ritch!... Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!
Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela, quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita, aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a menininha ia estendendo os pés enregelados para aquecê-los e... crac! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via agora a parede escura e fria.
Riscou outro. Onde batia a sua luz, a parede tornava-se transparente como a gaze, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa, e sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo soalho direto à menina que estava com tanta fome, e...
Mas - que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria, na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente, viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Oh! Era muito maior, e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos brilhavam milhares de velinhas; e estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços, diante de tantos esplendores, e então, então... apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas de natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.
- Morreu alguém - disse a criança.
Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que estava morta, lhe dizia sempre que quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.
Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó que lhe apareceu, a sua boa vovó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.
- Vovó! - gritou a pobre menina - Leva-me contigo... Já sei que quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como se sumiram a estufa quente, e o rico pato assado, e a linda árvore de Natal!
E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão alta, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe... longe da terra, para um lugar lá em cima onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam agora com Deus.
A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de beatitude. Morta. Morta de frio, na última noite do Ano Velho.
A luz do Ano Novo iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mão cheia de fósforos queimados.
- Sem dúvida ela quis aquecer-se - diziam.
Mas... ninguém soube das lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem em que halo tinha entrado com a avó nas glórias do Ano Novo.

Bubbly girl, bubble away to your bubbly world...


R.eminiscências

Percebesse eu de momentos auto-destrutivos, e este seria um daqueles de auto-análise em que se descreveria até à exaustão os porquês, as causas, os motivos da destruição. Depois viriam as interpretações, reminiscências vindas da infância: o excesso de mães, a deficiência de pai, o ser filha única numa família de 7 e ainda por cima, numa casa com poucos quartos. Uma família com poucos avós para demasiados netos, poucas garrafas de amor para tanta gente com sede. Fosse este um desses momentos de auto-análise e descreveria os aniversários com os meninos sem casa, meninos sem casa-de-banho que eu insistia em convidar sem autorização por querer desesperadamente ter uma infância normal onde podia ter uma festa de aniversário com crianças, e não com adultos, que de certa forma estavam fartos de crianças, "Já és uma mulherzinha". Talvez no tamanho das calças, talvez na altura, não tinha culpa por estar a crescer rápido.
Mas hoje não há auto-análises para fazer, hoje penso nos Açores.
Os Açores fazem-me lembrar a Marlene e o seu pai lenhador. A Marlene andou comigo na escola, éramos amigas, ela era do Sporting e gostava dos bailes em Agosto, o pai dela como gostava dele tinto (o vinho, claro) levava as filhas com ele a todos os bailes, era uma farra. De certa forma eu invejava a brejeirice da Marlene, ela tinha duas coisas que eu nunca tivera, um pai e liberdade. Os Açores fizeram-me lembrar a Marlene e o seu pai lenhador. A Marlene ajudava o pai aos fins-de-semana, no Norte todos ajudam os pais no que podem, e quando chegava à escola às Segundas as suas mãos cheiravam a lixívia pois tentara eliminar todos os resíduos de resina, para estar bonita. A Marlene cresceu, eu cresci. Ela dançou em todos os bailaricos e eu desapareci da sua vida. Hoje vive nos Açores, é professora primária, vive rodeada do mar e aposto que já não precisa de lavar as mãos para estar bonita antes de ir para a escola. A Marlene andou comigo na escola e hoje, hoje eu lembrei-me dela.

In - Toxic - Action
R.Posição


Encostado a uma esquina sombria chupava uma beata apagada que encontrara no bolso. Esperava por ela desde as sete. De vez enquando espreitava os ponteiros do relógio, e estes insistiam em dizer-lhe que ela se atrasara uma vez mais. Ia espreitando para a rua da esquerda, para ver se sentia o seu cheiro intenso a fruta silvestre, mas não sentia nada, e os nervos iam corroendo aquela alma empedernidade romântico incurável. Sentou-se novamente nos degraus da Rua Almirante Reis, acendeu de novo a beata. Pensava nela, nas coxas redondas, o seu decote profundo que mostrava sempre mais do que devia. Desejava-a. De uma das janelas abertas uma música espalhava-se pela noite, incendiando-o ainda mais, como se isso fosse humanamente possível, pensou. 'I want you, I want you so bad'

Magic Carpet, tell me, are we going?


Wondering... Egypt or no Egypt?

The Devil

The - Devil - In - toxic - action

Doctor (a man): Tell me my child, what seems to be the problem?
Patient (a girl): As soon as I'm left alone, the Devil wanders into my soul and I pretend to myself that its impossible, that everything is a dream.
Doctor: I see. Elaborate...
Patient: I go out, to the old milestone insanely expecting Him to go there. Knowing that I wait for him there. I wait for him there, desperately... (She stands up, walks towards the window and looks trough it) Come! Come! Come here at once... (she mumbles) Every night with no moon. Because Doctor, all of my being is now in pining, what formerly had cheered me now seems insignificant, so insignificant... (Looks away with vacant eyes.)
Doctor: I see... (Pause. Writes on a paper) Take this prescription to the Pharmacy. You must take these pills, I think they will help you fell better. And take some vitamins too. You need some color on your cheeks, a young girl like you shouldn't worry so much with such nonsense.
Patient: I have feelings... (Almost to herself) Do you think I will be safe from him, Doctor? I mean, really safe?
Doctor: Who knows my dear... Now, go home. Tell your mother I send my regards. And please, try to get some rest. (Opens the door)
Patient: I cant, tonight there's no moon, I will be waiting for him. (smiling)




(Based on the poem: The Devil, PJ Harvey)

In - toxic - action

Havia um bloco de notas onde eu escrevia as coisas horríveis que não podia dizer. Hoje em dia já não existem blocos de notas como antigamente, fazem-se na mesma os blocos em massa, mas não se preocupam tanto com o interior, esqueceram-se da importância do papel, as páginas pautadas as lisas. Hoje preocupam-se com as capas, se são bonitas, de que marca são, se a cor está na moda e se está a condizer com a carteira - não querem saber se é para escrever  lá dentro.

Perdi o meu bloco de notas.

Estou cheia de lixo por dentro. Cheia de palavras, monólogos, frases, irritações, declarações, admoestações, gritos, tristezas e melancolias. Não consigo pensar direito. Não havia melhor sentimento que aquele de abrir o bloco de notas e sentir as veias expulsarem o veneno. "Pai, não gosto de ti. Pai não gostas de mim. Mãe, morreste. Não quero mais bolos de aniverários com números. Abraça-me mais vezes. Pára de me julgar."
É uma sensação tão bonita estar limpa.

memórias

Mesmo antes de adormecer sonhei com um livro. Era uma história fantástica que me manteve acordada naquele limiar do sonhar e do despertar durante longos momentos enquanto a escutava na voz de algum personagem foragido. Quis agarrar-me àquela história antes de ser catapultada para o sono profundo, mas quando dei por mim era tarde de mais. Acordei sem memória da história, apenas daquela voz que ma contava.

Night Nighty...

Encontrou dois cabelos brancos enquanto penteava o cabelo antes de se ir deitar. 
Pôs-se a pensar no que aquilo significava. O seu coração acelerou. O tempo que lhe restava não era muito.
Fechou os olhos e desfalecendo sobre a pia suspirou "Oh God I miss you..."

Shakespeariana



Capulet: Lift me like an olive branch and show me slowly what I only know the limits of...
Montague: Touch me with your naked hand or touch me with your glove... Kiss me till the end of love
.

Histórias

De amor ou as outras que acham menos pirosas? Quais devo registar?
Pensando no futuro, viajando também em barcos que me levam para longe. Beijos e bailes.
Ah, tanto que as canetas querem escrever.

Reposição

(in)constante - tal como dizem

Há dias que levam com eles as emoções, dias ralo de banheira.
Dias de emoções que escorrem como a lama da chuva pela sarjeta - esses  motivos de merda, as certezas incertas nas quais queremos acreditar para ser mais suportável o acumular dos dias no calendário, as datas que mudam sempre em crescente.
Emoções que deixam atrás de si aquele cheiro a vazio, ausência.
Choveu o dia todo. Por dentro e por fora.
E descemos as ruas sem guarda-chuva, deixamos que essa água da chuva que não existe nos lave, nos tire essa sujidade que somos nós próprios. Há estes dias em que a corda ao pescoço aperta, respiramos menos - mas estamos vivos. E viver é isso mesmo - aprender. Respiramos menos e vivemos na mesma, o relógio marca a mesma hora, a noite e o dia sucedem-se, vais jantar novamente - nada muda.
Descansa! Vais dormir na mesma. Dormimos bem porque nada mudou.
Há estes dias em que a sanita não engole só merda, engole também lágrimas e o vómito da tristeza. As paredes de azulejo e o branco frio da luz parecem o aconchego quente dos braços da mãe que já não temos. E ainda que tapes a cara com as mãos, os azulejos conseguem ver-te na mesma.
Há estes dias de merda em que de facto as condições pioram, morrem pessoas à nossa volta. Morrem mesmo. Pais, avós, a infância que viveste... As pessoas morrem muito antes de sabermos que elas morreram, mas quando sabemos, dói igual. E choramos. E aprendemos a respirar como nos ensinaram - mal. Com a corda mais apertada, com mais rugas nos cantos dos olhos, com mais vontade de falar mal de tudo e de todos. Esse vestido fica-te mal, tu ficas mal a ti mesmo. O tempo vai-nos acrescentando mau humor e raiva.
Há estes dias, dias em que comer cerejas não chega. Dias em que os livros estão escritos em línguas que não percebemos, a música é barulho e a comida é lixo.
Há estes dias que gostaríamos de apagar com a borracha, como fazíamos antigamente nos nossos diários, os dias que não queríamos recordar. A mãe morreu - apaga. O namorado deixou-te - apaga. Traíste os teus príncipios - apaga. Vêem como era fácil?
Há estes dias em que, apesar do que toda a gente diz, apetece rebentar com tudo. Qual sol, qual praia, qual luz brilhante? Há apenas escuro, há medo. Há vontade de abraços e de verdade. Verdade! Chega de mentira, chega do faz de conta que somos de plástico... chega de sorrisos falsos, de perfeição... Quero o feio, o grotesco, o retorcido, quero as pessoas verdadeiras. Vontade de gritos.
Mas todos estão cegos... o Saramago tem razão está tudo cego. Está tudo cego mas é por dentro - como esperam sentir o que quer que seja? Como querem sentir o que quer que seja se já estamos mortos?... Estamos mortos, só não o sabemos ainda. Não sabemos nada porque o que importa é que chegou a hora de ir jantar. E não importa... viver é aprender. E vamos vivendo...

- Lets play a game!
- Ok...
- Let's pretend I'm a rock star.

the atlantic was born today and i'll tell you how:
the clouds above opened up and let it out.

I was standing on the surface of a perforated sphere
when the water filled every hole.
and thousands upon thousands made an ocean,
making islands where no island should go.
oh no.

those people were overjoyed; they took to their boats.
I thought it less like a lake and more like a moat.
the rhythm of my footsteps crossing flood lands to your door have been silenced forever more.
the distance is quite simply much too far for me to row
it seems farther than ever before
oh no.

I need you so much closer
so come on


(Death Cab For Cutie, Transatlanticism)

Poetry *

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

                                   Florbela Espanca

Question mark ?

- Ouve o que te digo, o amor não existe.
- Porque dizes essas coisas? Eu acredito no amor! Amar desenfreadamente, profundamente, poeticamente...
- O amor é como uma gripe, rapariga! Depois isso passa... Ouve o que eu te digo.
- O que é que vai beber?
Apesar do barulho que a rodeava a jovem rapariga debatia-se com a mais antiga das perguntas, será que o amor existe de facto ou não passará de mais uma rasteira dos sentidos que nos engana para nos levar até à cama?

admirador secreto - fragmentos de um pensamento nocturno

Não havia mais nada para vestir. O frio era d'outro mundo, parecia que as portas todas haviam ficado abertas. Acendeu a lareira com os restos de lenha que ficaram esquecidos da noite anterior, aqueceu água para o chá de tília e ficou a ler as entrelinhas daquele poema esquecido no rasgo da porta de carvalho, era o segundo aquela semana. Quem se daria ao trabalho de lhe escrever poemas? Porquê?

Voltar a escrever...

Esta mulher precisa de uma vida ou mata-se. Ela tem pensado muito nisso nos últimos dias, especialmente agora que a Câmara Municipal mandou envenenar os pombos e eles deixaram de vir pousar-lhe à janela. Os dias parecem-lhe mais longos, o sol ainda que luminoso não tem luz suficiente para chegar lá dentro, ao buraco que é a sua alma. Bem que queria que lha iluminassem, bem que tem rezado aos santinhos, mas nem eles parecem valer-lhe com tantos males que há no mundo, e agora com as cheias lá nas terras longínquas, pobrezinhos dos brazileiros, quem se importa com ela.
Já não lhe interessam os bordados, quem vai herdar as coisas que ela faz? Os livros, já não os pode ler, para pena sua, os olhos lacrimejantes impedem-na de viajar dentro da sua imaginação, resta a televisão que nada de alegre lhe traz, e para desgraças já lhe chega a sua condição de solteira solitária num bairro esquecido Lisboeta.
Acordou cedo, como sempre faz. A máquina do café labora já na sua única chávena matinal, como de costume, a torradeira, cansada de trabalhar sem parar há 18 anos, torra mais uma fatia de pão centeio. Enquanto isto, ela espreita através da janela da cozinha a sua rua ainda adormecida, solitária, despida de pessoas, e pensa no que fazer do seu próprio futuro. Não tem muito tempo, sabe disso, aos 78 anos sonha ainda em concretizar uma mão cheia de sonhos dos quais nunca ousou confessar nem ao padre. Tem esta missão no entanto - viver apaixonadamente para conseguir esses últimos momentos de prazer - ou morrer, porque para ela é o tudo ou o nada, e a vida sem fogo não lhe sabe a nada.
A torrada salta. O pequeno almoço está pronto, pensará nisso depois, agora irá ver os raios de sol acariciando a Ponte sobre o Tejo com beijos de bom dia como todos os dias faz para acordar Lisboa.

Just for a while

mínimo 
(latim minimus, -a, um)

adj.
1. Muito pequeno. = diminuto, ínfimo
2. Que é o mais pequeno. = menor
s. m.
3. A menor quantidade.
4. O mais baixo preço.
5. Autom. Cada um dos faróis, à frente e atrás, destinados a assinalar a presença e a largura do veículo automóvel.
adj. m. s. m.
6. Diz-se de ou o dedo mínimo. = auricular, mindinho

adj. s. m.

7. Frade da Ordem de S. Francisco de Paula.

January *

Sinto-me como uma velhinha de 80 anos que guarda de baixo da cama uma caixa de sapatos com cartas secretas que esconde desde que se casou aos 20. É como escrever cartas sem destinatário que guardo, não sei para quê. Acho que é a esperança vã de encontrar alguém que leia a língua que eu falo. Bem... aqui estou para escrever qualquer coisa sobre - sobre nada, quem sabe. Escrevia sobre Lisboa para alguém que não conheço quando lhe digo que ao menos em Lisboa me encontro na cidade de onde grandes marinheiros partiram para lugares longínquos e desconhecidos, e sendo assim, esperava ser contagiada por esse espírito aventureiro e ser levada também para longe num navio pirata. Ser destemida, não haver o medo do desconhecido, levar comigo um papagaio que come bananas para todo o lado e ter uma perna de pau da qual me orgulho bastante, obrigado por perguntarem. Os primeiros dias do ano são sempre soturnos, parece que algo muda, temos sonhos e planos e lá ao fundo, nos meses que se avizinham, muitas tempestades e ilhas que não conhecemos, tribos canibais a querer comer a minha outra perna, e as saudades do nosso porto, lá longe numa Pátria da qual só nos lembramos do nome, e na memória umas imagens deslavadas de um rio. Às vezes parece mais que estou num navio sem rumo, perdido no meio do oceano, sem saber para onde ir. Bah... disparates.

Cinzento Escuro Revisited

Não posso salvar o mundo. Seria óptimo acordar um dia e dizer, hoje, vou salvar o mundo, não me telefonem. A verdade é que não há nada para salvar, nada para acontecer, nada para surpreender. A vida é uma sopa de dias que vamos mexendo na esperança que nos saia um dia de sol, quem sabe um dia romântico, na melhor das hipóteses um dia em que nos sai o Euromilhões e... E podemos fingir que somos felizes com estilo! Eu gostava dos dias sopa de letras porque podia escrever as palavras que queria com a comida. Agora tenho mais dificuldade em gostar dos dias, das pequenas coisas da vida. Tudo se vai tornando gradualmente mais complicado, mais cinzento...

January *



Dezembro termina assim.
2010 termina assim.
Obrigada a todos.
Benvindos a 2011.

Christmas Mood




Desejo a todos os que por aqui viajam,
caso, por falta de tempo, não
 tenha oportunidade de aqui 
passar antes do dia 24 
de Dezembro
um Feliz, 

Feliz Natal!
Obrigada*

Narciso

E agora? Não há quem te oiça? E que queres que eu faça? Que fique aqui sentado a digerir a porcaria toda que tens para deitar cá para fora? Onde estão os teus companheiros? A banda já começou! Onde estão eles? Não sabes?... Não me leves para o teu buraco, não me empurres só porque estás deprimido! Não me venhas falar de liberdade, vamos falar de coisas melhores. Há dias melhores a caminho, acredita.

Visita

Estou assustada. Agora que sei que estás a caminho a alegria mistura-se com o medo. É uma felicidade envenenada esta. As memórias daquela carta ainda estão frescas no meu coração, e eu estou a guardar os meus sentimentos bem no fundo das minhas caixas secretas para que ninguém possa tocar neles. A alegria de te reencontrar na estação confunden-se com sentimentos de solidão, abandono, incompreensão... Não sei o que faça, pois tudo o que aconteça Quinta-feira será uma violação à paz das nossas vidas. Da minha, da tua, das pessoas à nossa volta que vão mexer no lodo que já assentou.
Tem de de se parar de fingir que o Passado ainda existe. Ele já morreu. Está morto à nove anos, pouco deve restar dele. É uma parvoíce tudo isto, somos uns orgulhosos presunçosos com a mania que temos toda a razão do mundo quando na realidade não passamos de uns ignorantes. Não há nada a fazer.
Seremos ao menos capazes de atenuar os estragos?  Eu e tu? Talvez ainda vamos a tempo...
Quem sabe?
Eu estarei lá, à tua espera.