Nota
Ia comprar uns sapatos, mas quando percebi que o nome do vendedor e o teu eram iguais mudei de ideias. Afinal ainda não ultrapassei o trauma de ter o teu nome gravado nos objetos à minha volta.
"Ai de mim, de que me servem os olhos se não vejo o que mais quero?" Sordel (1220-1269)
Adoro livros. O barulho das páginas, o cheiro do papel, a textura. Gosto de rabiscar frases, sublinhar. Gosto de reler os apontamentos anos depois e descobrir mensagens secretas. Gosto de comprar livros novos, em segunda, terceira mão. Gosto de livros oferecidos. Gosto de livros emprestados. Gosto de encontrar livros no lixo.
Há uns anos salvei alguns livros da reciclagem, entre eles A Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro que ontem fez sentido abrir e reler mais uma vez. Percebi, apenas hoje, à distancia deste tempo todo, que este livro abandonado vindo do lixo, realizara um dos meus grandes sonhos: encontrar um livro anotado por outra pessoa. Este livro vinha cheio de pequenas notas, poemas diversos escolhidos a dedo e estrategicamente catalogados - todos eles de amor. E que maravilhoso foi perceber isto, pois agora, tenho espaço para sonhar com outra coisa qualquer.
O medo da infância
Deparo-me com a seguinte conclusão depois de vários dias de mastigação mental: posso estar, neste preciso momento, naquele ponto central da minha vida em que a distância que me separa da minha infância e a distância que me separa da minha morte são a mesma. Sim, podem contra-argumentar que viverei certamente para alem dos 60 anos, mas estou a ter em conta as doenças familiares, os incidentes que não controlamos, e 60 parece-me aquele ponto final possível nesta curta caminhada. Tenho pensado muito na minha infância, especialmente nos seus becos escuros e esquinas sombrias. Há muito em mim que não cresceu por ter sido quebrado nessa idade, e ainda que eu tenha vagas memórias do momento em que as coisas terríveis aconteceram, existe um véu espesso que me impede de ver com claridade. Quero enterrar para sempre os monstros, fazer-lhe o devido funeral. Chega. É possível certamente abrir janelas e deixar entrar luz. Vivamos sem obsessões no passado.
Pray for the Other Person's Happiness
Haunted by the love
That's in
My heart
I'm just haunted
By the life we live
Apart
That's in
My heart
I'm just haunted
By the life we live
Apart
Sentimentos que se repetem perante a frustração de estar a matar as palavras aos pouquinhos.
"Mais uma tentativa de arqueologia emotiva para tentar desvendar as origens das sombras que se colam às paredes da alma. "Faz coisas bonitas, tu gostas."
Procurei nos muitos blocos de notas vestígios de paixões antigas, como carcaças das quais me pudesse alimentar, mas não há nada. Frugalidades sobre a terceira idade, sobre solidão, números de telefone cujos donos desconheço e listas de compras, resume-se a isso a minha ortografia cada vez mais desconstruída e caótica.
É como se não houvesse mais nada, fico-me a desfolhar livros ate à exaustão da carne, e para contemplação apenas esta cápsula que ainda se assemelha um pouco a corpo de mulher, algo que eu sonhei ser um dia, mas sem um propósito digno - nem sequer para puta."
Procurei nos muitos blocos de notas vestígios de paixões antigas, como carcaças das quais me pudesse alimentar, mas não há nada. Frugalidades sobre a terceira idade, sobre solidão, números de telefone cujos donos desconheço e listas de compras, resume-se a isso a minha ortografia cada vez mais desconstruída e caótica.
É como se não houvesse mais nada, fico-me a desfolhar livros ate à exaustão da carne, e para contemplação apenas esta cápsula que ainda se assemelha um pouco a corpo de mulher, algo que eu sonhei ser um dia, mas sem um propósito digno - nem sequer para puta."
Hoje, mais do que nunca, subscrevo as palavras escritas em Maio de 2014.
Se queres deveras morrer, não chames a morte
É a segunda pessoa que usa esta expressão á distância de uma chamada telefônica. O que acontece quando ouvir a terceira pronunciar as mesmas palavras?
Houve quem soubesse, eu já soube
O primeiro dia no ano é sempre promissor. Renasce aquela vontade infinita de fazer qualquer coisa, nem que seja só cair desamparado sobre a areia. No segundo dia, começam as interrogações secretas, serei eu capaz de fazer todas aquelas coisas a que me propus, quero-as realmente? Serão demais para mim? Serão importantes? Porque quero eu fazê-las?
E o terceiro dia vem como uma pausa do ano que passou e deste, que agora se desenrola lentamente diante de nós como um grande novelo de dias e meses, sempre iguais aos anteriores no nome, mas com variações subtis na forma como se pronunciam.
Farei eu parte de todos aqueles que têm mais barriga que olhos?
Eu, eu quero ter mais olhos que barriga.
A arte de falar mal e depressa
Passaram três anos desde a minha primeira toma de Topamax - comprimido que suprime os meus ataques epiléticos, mas que consequentemente reprime também a minha capacidade de comunicar fluentemente. Não me dei conta logo ao início do quão profundamente afetou a minha vida, mas hoje dou por mim a arranjar sinónimo para o sinónimo, para o sinónimo... e quedo-me muitas vezes em silêncio, como se sofresse de uma especie de mudez química. Tenho em mim guardadas as palavras que quero deveras dizer, mas não as posso usar pois estão guardadas naquele lugar do cérebro ao qual não posso aceder. Com as palavras forma-se os cadernos com rabiscos... foi-se a escrita. Não restam palavras importantes, apenas as de circunstância, que também me deixam sem nada para dizer muitas vezes. Vivo assombrada por aquele sonho da invisibilidade, sem as palavras é assim que me sinto.
tentativa
Passaram-se semanas que não escrevi uma linha. É verdade que é cada vez mais difícil escrever, escrever bem, com palavras que de facto digam aquilo que eu quero dizer, por vezes parece que digeri tudo, e restaram apenas algumas frases que pouco ou nenhum sentido fazem.
Um dia repetirei a mesma palavra até à exaustão na ilusão vã de que me percebem, na ilusão vã que é essa a palavra que sumariza as minhas dores mais profundas. Talvez seja isso que eu procuro, a palavra certa.
Um dia repetirei a mesma palavra até à exaustão na ilusão vã de que me percebem, na ilusão vã que é essa a palavra que sumariza as minhas dores mais profundas. Talvez seja isso que eu procuro, a palavra certa.
Post
Quando recebemos uma má notícia relacionada com as pessoas que amamos, envolve-nos aquela prostração da mortalidade. Sentimos, nesse rescaldo de uma má notícia, a nossa própria fragilidade perante a morte, tocamos no nosso corpo com cuidado e percebemos o quão efémera e instável a vida é, como se se tratasse da primeira vez.
Não estaremos nunca preparados para a noticia da morte de alguém que julgávamos viveria para sempre.
Não estaremos nunca preparados para a noticia da morte de alguém que julgávamos viveria para sempre.
da Azia
Quando palavras como "amor da minha vida" saem da tua boca, sinto um enorme ódio por ti. No lugar mais intimo da minha alma eu estrangulo a voz para não gritar o quanto queria ouvir essas palavras no escuro, e que elas fossem só minhas e não do mundo inteiro. Não sabes pois não, o quanto custa ler essas coisas que escreves? Não faz mal, eu não sou tua, tu não és meu. Há aquela esperança eterna que os quilómetros que nos separam sejam como um vírus e que acabem por matar este sentimento. Há esta esperança inocente que eu deixe de existir eventualmente, como naquele sonho.
sonhos . pessoas . relações
Eu quero fazer toda a gente feliz, mas é impossível.
Mergulhada nesta angustia de saber ter falhado algures nesse processo, e já não aguento os olhares, as fachadas que as palavras levantam e que escondem outras coisas por dentro, coisas terríveis e cruéis que estragam tudo.
Há momentos em que gostaria de encolher, e tal como os gatos fazem, esconder-me dentro de um saco de papel como se o mundo inteiro fosse uma savana perigosa com animais selvagens.
Mergulhada nesta angustia de saber ter falhado algures nesse processo, e já não aguento os olhares, as fachadas que as palavras levantam e que escondem outras coisas por dentro, coisas terríveis e cruéis que estragam tudo.
Há momentos em que gostaria de encolher, e tal como os gatos fazem, esconder-me dentro de um saco de papel como se o mundo inteiro fosse uma savana perigosa com animais selvagens.
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