Análise

Em 2008 escrevia sobre mulheres que dormiam com homens a troco de dinheiro. Homens que morriam trespassados com balas. Virgens que desejavam putas. E hoje? Escrevo sobre escarros e bancos de cafés besuntados de sebo, os quais não encontro mas os quais anseio... preciso escrever.

Retrato em colódio sobre fotograma em cianótipo.

Finalmente consigo conviver com caos...


Estar perto


Quão importante é o zoom?
Quando vi este retrato (que não foi tirado por mim), achei que estava maravilhoso. Disse-o em voz alta: que fotografia linda que me tiraste.
"Hum... sim, se calhar. Se não se fizer zoom."
Demorei-me numa pausa pois não sabia bem o que queria dizer com zoom.
Como assim? Porque se veem os pelos da minha cara e assim?, perguntei. Tinha de ser.
"Exacto. Ninguém quer ver isso numa fotografia, não é suposto. Ninguém está assim tão perto de ninguém ao ponto de ver esses defeitos."

Pois. O certo é que quando te beijo de olhos abertos eu vejo tudo, e na realidade não me importo, eu gosto. Se calhar por isso é que me beijas sempre de olhos fechados.

O receio que as coisas desapareçam, e a certeza que eu não sei o que fazer com elas. Coisas estranhas que eu adoro.


Intro



Havia palavras que não gostava. Palavras como parir. Prenha. Porca. Tinha uma sensação de desconforto físico, como se ao ouvi-las elas me cortassem a pele. Eram palavras muito corriqueiras na boca das pessoas na aldeia, pessoas habituadas a tudo, com a pele mais dura e calosa. Imunes à cor do sangue e aos gritos de dor dos bichos em agonia.
Havia palavras que não gostava, que hoje se mostram de outras formas. Terão sido os meus ouvidos a mudar ou as bocas que as pronunciavam que agora as dizem de outra forma? Já não as sinto como lâminas, apenas como brisa que sai das bocas de quem as diz. Fui eu, eu sei. Já sei o que elas significam e não é o que eu achava que significavam. E fico-me a admirar esse espetáculo que é o tempo e o que ele nos faz, por dentro e por fora.

Naturezas mortas tão naturalmente nas nossas vidas.


Paralelismo

Como está a mulher do primo Elísio?
Cá está, mal. Coitada. Não lhe conseguiram tirar a bala. Vai viver o resto da vida assim...

Vai viver o resto da vida com uma lembrança física da atrocidade do amor.
Não o disse em voz alta. Por esta altura a minha irmã contava-me das muitas conspirações existentes no concelho sobre quem matara quem, quem odiava quem. O certo, é que ninguém percebeu nada com a morte do primo Elísio - o amor também pode ser monstruoso e assassino. O certo, é que a única sobrevivente à mortandade do amor, andava na rua com uma bala dentro do corpo, e toda a gente sabia.

E eu pensei em ti e em mim.
Nas nossas balas, nas que existem e não se veem.
Balas que ardem como brasas e nos consomem lentamente. Matamo-nos em segredo, meu amor.

E é isto que sai, quando chupo o veneno das veias.
Mas é melhor assim, longe do veneno, longe das balas.

Dançar uma musica por dia, nem sabe o bem que lhe fazia.