Post Mortum Letter

Mãe, Pai Decidi acabar com a minha vida, no momento em que percebi que os dias de sol já nada podiam fazer por mim. O vosso filho Sebastião

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"Onde queres ir hoje? Levo-te a qualquer lugar, escolhe!"
"Hoje? Logo hoje que não queria ir a lugar nenhum."

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- O que é? O que é? O que foi?
- Nada.

E foi assim que eu nunca fiquei a saber.

I need your love like the sunshine...

Era uma frase solta na parede de cimento que tapava a fachada da antiga tasca do Albino. Ela descia aquela rua desde que se lembra de ter reparado que o sol era uma bola lá no alto e não uma lâmpada igual à da cozinha da avó Alice. Estava mais murcha, como uma alface nas tardes de Verão alentejano. O mundo havia-lhe roubado o punhado de sonhos que tinha, e sonhar novamente era coisa que tinha deixado de fazer, "já és uma mulherzinha, deixa-te dessas coisas". Ela não acreditava nisso, mas com o tempo pareceu-lhe que suportaria melhor o fardo de estar viva, se realmente se convencesse a si mesma que já não podia sonhar mais. Trabalhava na retrosaria da D. Maria, pobre da senhora, viuvá e sem filhos com 6 dioptrias em cada olho, já não podia contar os botões ou ver bem os metros de fita que vendia. Contratou a rapariga mas contrariada, não gostava de ter despesas. A rapariga, no entanto, gostava de trabalhar lá. Gostava dos armários brancos e altos, cheios de caixinhas mágicas com coisas lindíssimas de tempos que nem lembra ao diabo. Só não gostava quando a D. Maria resolvia lá passar as tardes, tinha de andar escadote acima escadote abaixo a mudar caixas, a limpar armários sem pó que a D. Maria insistia não estarem bem limpos, apesar de já quase nem conseguir ver a cor do cabelo da rapariga. Gostava do quotidiano da loja, davam-lhe uma certa paz no coração. Tinha freguesas fixas que se iam abrindo aos poucos com ela, contando-lhe histórias da sua diminuta intimidade, da sua longínqua juventude, longínquos amores. Ela gostava de as ouvir, sentia que todas aquelas histórias agora também faziam parte dela, e se as contasse a alguém, um dia, como de as tivesse vivido de facto, não ia sentir que estava a mentir - dentro de si, a vida daquelas pessoas que a visitavam durante as tardes de Outono, era a sua própria vida. Gostava especialmente das tardes de sábado. Fechava a retrosaria por volta da hora de almoço, vestia o seu casaco vermelho, colocava o chapéu, e descia a rua de pescoço esticado, gostava de ver tudo como se fosse aquela a primeira vez que passeava por Lisboa. Depois fazia a sua visita habitual ao Adamastor. Adamastor era um rapaz Italiano com compridíssimas barbas, enormes sobrancelhas e um cabelo impressionantemente emaranhado que costumava tocar guitarra junto à estátua do Adamastor, e ela, todos os sábados, depois do seu trabalho, o visitava. Levava consigo duas cervejas que comprava pelo caminho e umas sandes que inventava de manhã. "O que vai ser hoje?", perguntava-lhe ao vê-la descer os degraus, "Please set me free...". E nos intervalos dos golos de cerveja trauteavam a letra, entre lágrimas e gargalhadas. Tempos depois, já a D. Maria tinha sido enterrada no Cemitério dos Prazeres no jazigo que fora dos seus pais e avós, a rapariga desapareceu. Dentro de um pequeno envelope que encontraram, lia-se a letra de uma música escrita num guardanapo de tasca... ninguém se lembra que música era aquela, mas falava de sonhos e mundos onde se podia viajar sempre de comboio. Ao Adamastor, nunca mais ninguém o viu. Cá para mim, ela perdeu o medo e finalmente passou o Cabo da Boa Esperança.

Aula de dança escrita

"Um dia desses vou roubar-te. Vou aparecer como no antigamente com os meus grandes sorrisos e os meus copos coloridos cheios de bebidas tropicais e vou levar-te comigo por esse mundo fora. Um dia, quando menos esperares, estás nos meus braços, e o que te vai deixar mais surpreendido é que vais gostar."

confusões

Tenho frio, disse ela abraçando o seu fino corpo com aqueles braços compridos, tão compridos que pareciam de mais para ela.

Never mind...

Nunca mais se haveriam de beijar como naquela noite. Há coisas que acontecem numa fracção de segundo para depois serem esquecidas ou guardadas numa das muitas caixas da memória, uma imagem sem nome. Era isso que ela era. Aquela memória sem nome que aos 83 anos ele recordou ao acordar sobressaltado às 4 da manhã. Tornara-se um hábito aquele sonho, aquele sonho projectado de dentro de si, sonho que fazia parte de um pedaço de vida que lhe queria dizer alguma coisa, mas ele não se lembrava. De à dois anos para cá, esquecia-se até do nome das cores, qual das portas era a da casa de banho, o que era a vontade de fazer "chichi", o que era uma pêra. Mas aquele sonho acordava-o todas as noites, aquele beijo suspenso, aquela fotografia mental de uma mulher que ele não conseguia recordar por muita ginástica que fizesse. Voltou a colocar um pontinho no pedaço de folha azul onde ia registando a frequência daqueles misteriosos sonhos. Um dia, em que o sono lhe fugiu para sempre, esboçou a lápis aquele momento que tantas vezes lhe aparecia no sonho. Dois dias depois morria, vitima de uma queda enquanto tentava encontrar as escadas para o jardim, estava no 10 andar e pela primeira vez não soube o que eram as distancias. Alice, enfermeira estagiária guardava dentro de um grande saco azul de plástico os últimos pertences do senhor Eurico quando encontrou o papel azul. Naquele momento o mundo parou de girar, algures no coração daquela rapariga cinzenta alguma coisa estranha acontecia. Por momentos, julgou rever-se a si mesma e ao seu amante, médico casado e com filhos, naquele pequeno papel azul, ela e o seu amante naquela noite em que ambos se despiram sem pudores e se fornicaram a noite inteira enquanto os velhos do asilo gemiam de dores do reumático. Desfez o papel em bocados e guardou-o na bata. Ainda bem que o velho morreu, suspirou.

Tarde de mais...

Só depois, enquanto limpava a pequena faca de cortar legumes, se deu conta das muitas coisas que gostava nela, eram os seus cabelos a voar ao vento o que lhe iria fazer mais falta. Quando o juiz lhe perguntou o porquê daquele acto atroz ele respondeu seguro, remexendo nas mãos a pequena boina, única recordação sobrevivente ao incêndio, que ele jamais poderia ser o homem que ela gostaria que ele fosse, e para não a matar à pancada um dia desses em que bebesse pinga a mais, ou dar-lhe algum desgosto, matando-se com a corda dos bois, resolveu degolá-la, no 13 aniversário de casamento.Eu gostava muito da minha Alzira, senhor doutor juiz, dizia, mas eu não queria mais aquela vida.

o tiro certeiro

Meu filho, gritou a mãe ao vê-lo chegar com a camisa rasgada, sangrando. Não se aflija minha mãe, disse-lhe o filho já nos seus braços, é só um coração.

exercício 1 de dia 25-2-08

Acordou mais cedo, naquela específica manhã de Inverno. Não sabia bem porque escolhera aquela manhã, era preciso, pensava. Vestiu-se com a calma do costume, não tinha pressa. Escolheu um chapéu ao acaso e saiu sem fechar a porta. O dia estava fresco, fresco mas quente, os raios de sol despoletavam um pequeno confronto com aquela manhã de Inverno. Caminhou sem prestar especial atenção aos buracos acidentais da calçada, sem reparar nas montras encardidas, sem ver as velhinhas que alimentam os gatos das redondezas com deliciosos gaspachos que cozinham só para eles. Subiu a rua sem nunca abrandar o passo. Gostaria até de ter o vigor de antes nas pernas moles. Olhou o relógio. Estava quase na hora, receava que não chegasse a tempo. Já conseguia ver a estação. Ainda tinha 5 min para descansar daquela euforia matinal quando chegou. Olhou à volta. Sim, era um bom dia aquele. Por cima dos edifícios pode ainda admirar o mar e alguns navios perdidos. O apito do comboio não tardou a fezer-se ouvir ao longe, estou a chegar, gritava. Estava na hora, e se as suas pernas não lhe falhassem, como já havia acontecido noutras alturas, ia conseguir. Naquele segundo, aquele que nunca ninguém consegue explicar bem, onde tudo parece acontecer lentamente, Maria Adelaide Ferreira, nascida em Linhares a 1942, atirava-se sorridente para a linha do comboio que fazia a ligação entre duas insignificantes cidades vizinhas. Naquele segundo, aquele que nunca ninguém explicou, Maria Adelaide realiza um sonho infantil - o de fazer com que as pessoas vivam um dia, um pouco diferente de tantos outros. A 25 de Janeiro, 458 pessoas faltaram ao trabalho por causa da linha estar cortada. Há quem diga que era louca. Há quem diga que sorria.

Texto 1 de 1000 que irão ser escritos em diferentes fases da minha vida

Sentou-se no bar. As mãos tapando o rosto. A agonia de mais um dia naquelas mãos. O barman olha-a. Limpa um copo com paciência, pergunta-lhe o que vai ser e ela atira-lhe "cheio". Whisky. Ela não gosta de whisky, fá-la sentir agoniada. Bebe. Precisa sentir algo forte. Resumindo, precisa sentir qualquer coisa para além das suas duas mãos frias. O copo fica vazio. Pede outro. Não sabe porque está a beber. Acha que é por estar triste. Ela não se sente triste, na realidade seria bem mais fácil se ao menos pudesse saber com exactidão que raio de tumulto é aquele que atravessa. Olha à volta. Um par de velhos olha intrepidamente um jogo de futebol, trocam comentários sem nunca desviarem o olhar. De vez enquando o barman para de esfregar os copos com o seu farrapo para ficar a admirar o ecran fluorescente. Abana com a cabeça quando discorda com alguma coisa. "Mais um?" pergunta-lhe o homem ao ver o copo novamente vazio. Só a conta. Quer sair dali, precisa caminhar durante um bocado, caminhar destila-lhe o furor de mais um dia vazio de nadas absurdos e sem sentido. Sai do café, a pergunta que lhe aparece na cabeça irrita-a "esquerda ou direita?", está-se a foder se é para a esquerda ou direita. Acaba por ir para a direita, a rua é a descer e vai em direcção ao mar. Ao rio, já não se lembra do que é aquilo, que cidade é, qual o nome. Lembra-se vagamente de ter ouvido falar de outros lugares no mundo. Hoje? Hoje é só um dia para não ser, e na realidade, ela não acredita mais nisso.

I want you, I want you so bad

Encostado a uma esquina sombria, chupava uma beata apagada que encontrara no bolso. Esperava por ela desde as sete. De vez enquando espreitava os ponteiros do relógio, e estes insistiam em dizer-lhe que ela se atrasava uma vez mais. Ia espreitando para a rua da esquerda para ver se sentia o seu cheiro intenso a fruta silvestre, mas não sentia nada, e os nervos iam corroendo aquela alma empedernida de romântico incurável. Sentou-se uma vez mais nos degraus da Rua Almirante Reis e acendeu de novo a beata morta. Pensava nela, nas coxas redondas, o seu decote redondo que mostrava sempre mais do que devia. Desejava-a. De uma das janelas abertas, uma música incendiava-o ainda mais, como se isso fosse humanamente possível pensou. "I want you, I want you so bad..."

histórias que nunca foram escritas ou inventadas - do livro que nunca vou escrever

O homem tremia de frio. A neve cobria-lhe os pés, estava ali à muitas horas, semi nu, com uns trapos rotos, de pé, encolhido como uma criança crescida. Das longas barbas pendiam pequenos cristais, o bafo da sua boca era o que ainda ia mantendo quente o seu nariz. As mãos apertavam-se a si mesmas na esperança remota de se conseguirem aquecer, os joelhos fraquejavem, todo ele parecia desfalecer. Como foi ali parar, perguntava no forno da sua mente, como chegara ali? Quem o trouxera? Fora ele a pedir? Um homem fardado aproxima-se, parece ser militar. Traz nas mãos uma caneca fumegante. «Do nosso Capitão», e entrega a chávena que cheira intensamente a café ao prisioneiro que ali passara a manhã inteira à espera do fuzilamento. Ah... lembrava-se, era prisioneiro, e deveria morrer nessa manhã, mas por motivos que ainda desconhecia, a sua morte havia sido adiada para a tarde desse mesmo dia. E ali ficara, de pé, junto ao muro, semi e no meio da neve, à espera. Agradece com um suave abano de cabeça e segura na chávena quente - uma fogueira. O militar afasta-se apertando o casaco. Ele fica a olhá-lo do seu pelouro de insignificância, não percebe destes amores. Leva a chávena aos lábios e pensa que não poderá haver no mundo inteiro nada melhor que o cheiro, o ou o sabor a café... Tão puro, tão forte, inebriante. O calor dói-lhe nos ossos. Fecha os olhos e deixa-se adormecer nas lembranças que aquela chávena branca lhe aquece no coração. Lembra-se de quando era novo. A mãe fervendo água para o chá, a janela do seu quarto quando foi viver para Paris aos 19. O cheiro da primeira mulher. O calor da mão do seu grande amor. O barulho do mar a ser cortado por cascos de navios selvagens, os voos picados das gaivotas famintas. O barulho das rochas ao serem trepadas. O seu primeiro poema. Uma vida, pensou o velho olhando o céu leitoso que se despedia dele atirando-lhe gotas de gelo. Uma vida que se apagaria para sempre naquela tarde, um rascunho que desapareceria para todo o sempre com ele. Não é estranho que a vida se apague assim? Que sejamos a nossa própria biografia e que jamais a possamos partilhar? Quem me ouviria, pensou naquele delírio de café. Histórias de um homem senil que envelheceu como milhares de outros, que nada construiu que o mundo tivesse dado conta. Bebe mais um golo e sorri para a árvore vazia que o observa do lado de lá do pátio. Talvez a vida seja aquilo, uma chávena de café minutos antes de se morrer para sempre. Um velho feliz sorri agora, segura entre as mãos uma chávena de café vazia. Quando os tiros se ouvem, no final desse dia, um navio atravessa o horizonte como numa despedida triste.

Dizem que estou para chegar...

- Eu quero contar histórias.
Ele observou-a durante alguns silenciosos segundos sem dizer uma palavra.
- Só preciso de tempo para saber que palavras usar...
E deixaram-se ficar noite adentro ouvindo músicas em línguas que não falavam, mas que no intimo, sabiam compreender.
"Dime porque tienes carita de pena, Que tiene mi niña siendo santa y buena, Cuéntale a tu padre lo que a ti te pasa, Dime lo que tienes reina de mi casa, Tu madre la pobre no se donde esta, Dime lo que tienes, dime lo que tienes, Dime lo que tienes, dime la verdad, Mi niña lola, mi niña lola, Ya no tiene la carita del color de la amapola, Mi niña lola, mi niña lola, Ya no tiene la carita del color de la amapola, Tu no me ocultes tu pena, Pena de tu corazón, Cuéntame tu amargura, Pa consolártela yo, Mi niña lola, mi niña lola, Se le ha puesto la carita del color de la amapola, Mi niña lola, mi niña lola, Se le ha puesto la carita del color de la amapola, Siempre que te miro mi niña bonita, Le rezo a la virgen que esta en la ermita, Cuéntale a tu padre lo que te ha pasao, Dime si algún hombre a ti te ha engañao, Niña de mi alma no me llores mas, Dime lo que tienes, dime lo que tienes, Dime lo que tienes, dime la verdad, Mi niña lola, mi niña lola, Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola, Mi niña lola, mi niña lola, Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola, Mi niña lola, mi niña lola, Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola, Mi niña lola, mi niña lola, Mientras que viva tu padre no estas en el mundo sola" Buika

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se eu comprar um garrafa de vodka bebe-la comigo?

Quem foi que disse que as batatas não tinham sentimentos?

Começar com "meu querido diário" não é um bom augúrio para qualquer tipo de texto, é como aquelas notas que colocamos nos cantos das folhas, para mais tarde nos lembrarmos que aquela folha não relata uma tarde apaixonada na aula de química mas sim o trabalho para casa. O que eu quero dizer é que o "meu querido diário" me parece sempre um roupão de hotel que colocamos para nos sentirmos mais confortáveis antes de nos despirmos pela primeira vez diante do nosso amante. A verdade é que o roupão acaba por cair finalmente quando apagamos as luzes para nos escondermos, e... percebem a ideia. Uma forma de nos escondermos quando queremos estar mais nus. Este blog tem andado à deriva. Crise criativa, conflitos emocionais, falta de tempo, distancias intransponíveis entre o teclado e o monitor, dias de chuva a mais... desculpas, desculpas... como aquelas que damos quando tentamos desculpar o sono que tivemos nalgumas dessas manhas em que tanto queríamos ter ficado a dormir. Tenho 23 anos, a passos largos dos 24, números que me são completamente estranhos, ainda ontem tinha 22 e amanha tenho 26? Mas onde é que eu tenho estado para andar tão longe da minha vida para não notar nenhuma dessas mudanças absurdas no peso do BI? Não acham a idade uma coisa incrível? É o nosso carimbo de validade. "Aproveitem-no", gritam apavoradas as latas de salsichas por este país de fora. Devemos aos 23 parar e fazer um balanço minucioso à nossa vida?
  • duas rugas no olho esquerdo, uma profunda no direito;
  • um emprego;
  • pensando em continuar a instruir-me mas com grande preguiça para o fazer;

Nada me parece auspicioso.

O que eu queria mesmo eram Camomilas na Primavera.

dois mil e oito

O primeiro dia no ano é sempre promissor, renasce cá dentro aquela vontade infinita de fazer qualquer coisa, nem que seja só cair desamparado sobre a areia (penso ter encontrado uma bela cura para a maior parte dos medos). No segundo dia, começam as interrogações secretas, serei eu capaz de fazer todas aquelas coisas, quero realmente fazê-las? Serão demais para mim? Serão importantes? Porque quero eu fazê-las?
E o terceiro dia vem como uma pausa do ano que passou e deste, que agora se desenrola lentamente diante de nós como um grande novelo de dias e meses, sempre iguais aos anteriores no nome, mas com variações subtis na forma como se pronunciam.
A escolha das palavras nos primeiros dias também é diferente, quem somos? Perguntamos trémulos, com medo da verdade, depois talvez nos esqueçamos, ou então, quem sabe, nos lembremos alegremente de mais um corredor da nossa vida, e no bolso, todas as chaves para as portas que fomos fechando.
Farei eu parte de todos aqueles que têm mais barriga que olhos?
Eu, eu quero ter mais olhos que barriga.

Pois, "Natalíces"

Sei que o meu ultimo post foi um bocadinho para o materialista e fútil (puxa, tenho usado muitas vezes esta palavra, mais vezes até que sexy), bem, o que eu queria hoje era desejar a todos um feliz Natal, um Natal carregado de coisas boas, cheio de sonhos, de aspirações, de muito amor, abraços e sorrisos! Porque na lista das melhores coisas da vida se incluem pequenas simplicidades como o cheiro das torradas, tentemos fazer as coisas o mais simples possível, para que a vida possa ser como um agradável jardim onde vamos colhendo aquilo que mais queremos (paradisíaco, piroso - f*** it).
Um grande abraço, e um beijo gordo para todos!
MariaCaxuxa

"Filhoses" ou sei lá

Dantes o Natal marcava aquela altura do ano em que, possívelmente iriamos receber as coisas que mais desejavamos. Normalmente coisas materiais, quer fossem bonecas, máquinas fotográficas ou jogos. Faziamos uma lista e acreditavamos que, pelo menos, 30% daquelas coisas iam ser nossas nessa altura do ano. Talvez por isso o Natal fosse um marco tão importante no calendário, maior até que o aniversário. O Natal era meio caminho andado para conseguirmos todas as coisas que queriamos.
O Natal foi perdendo o encanto. Tentei dar voltas ao tema para ver se percebia o motivo por trás desse desencanto tão estranho (e que todos os adultos parecem partilhar). Agora percebo. Agora as lista não interessam e a maior parte do tempo sabemos o que nos vão dar. As prendas são menos e nem sempre o que gostariamos... Passamos a ser requisitados para pôr a mesa e fritar as rabanadas... E o Natal vai desaparecendo lentamente de dentro da nossa fantasia. O que resta? Uma altura do ano frustrante em que temos de dar muitas voltas dentro de nós para decidirmos o que vamos oferecer às pessoas de quem gostamos.
Quero ser novamente uma menina pequenina a sonhar com os olares de pérolas da mãe.
Pai Natal, este ano, queria muito... queria muito saber como sair daqui.

(deve ser gritado com todas as letras que as palavras contêm) "Olhó medinho fresquiiiiiinho! Olhó medinho fresquinho p'rá menina e p'ró menino!"

Era uma vez (comecemos com "era uma vez", para além de me desresponsabilizar, ouvir Beatles dá-me para os "era uma vez"), era uma vez duas pessoas. Podiam ser três ou quatro, na realidade as que quisermos, porque - sim, desta vez falamos de ti e de mim.
Aqui o "falamos" está directamente relacionado com o facto de eu, e todos os outros eus que tenho dentro de mim (sejam eles super modelos ou monstros de terceira categoria que se vendem por qualquer coisa) estarmos juntos a escrever esta semi-história de encantar. Só não é de encantar porque nós não queremos. Voltemos à história. Essas duas pessoas gostavam de brincar e de se divertir. Corriam livres por florestas, pulavam em campos verdes de perder de vista. Apanhavam conchas de areias finas e pintavam no céu belas nuvens estreladas. Um dia foram a uma feira. Era uma feira fantástica, onde de tudo um pouco se vendia e comprava. Andaram por lá a passear até que chegaram a uma tenda muito bonita com uma mulher igualmente bonita e sedutora a vender algo belíssimo. Eram uns frascos coloridos com estranhas bolas amarelas no interior. Perguntaram o que aquilo era, e ela disse-lhes que era medo. Medo? Nunca tinham ouvido falar, mas muito curiosos resolveram experimentar. Compraram dois frascos e eram bastante fáceis de usar, sempre que quisessem fazer alguma coisa só teriam de cheirar. Essas duas pessoas nunca mais gostaram de brincar e de se divertir, tinham medo de se magoar, de sentirem o que não sentiam, de querer o que não queriam. Já não corriam livres por florestas verdes, tinham medo do escuro da floresta, dos animais, das árvores grandes. Já não pulavam em campos verdes de perder de vista, tinham medo de não se divertir. Também não apanhavam conchas de areias finas porque temiam os barulhos e o azul do mar, e não voltaram a pintar no céu belas nuvens estreladas porque estavam demasiado tristes para o fazer. Essas duas pessoas nunca mais foram duas, pois com medo uma da outra já não se queriam ver. Foi cada uma para seu lado. E viveram os quatro, cada um com seu medo, sozinhos e tristes e com medo do medo. Um dia, houve outra feira fantástica, e eles os quatro queriam muito ir, quem sabe comprar um bocadinho de alegria, mas tinham tanto medo que não puderam. Moral da história... Isto cansa. E vem mesmo a calhar, lá vão duas numa! Ólho medo fresquinho! Bye Bye love ! Bye bye happiness, hallo loneliness, I think I'm gonna cry. Bye Bye lovebye bye sweet caress, hallo emtiness, I feel like I could die. There goes my baby with someone new. She sure looks happy, I sure am blue. She was my baby till he stopped in... Goodbye to romance that night have been. Bye Bye Love ...I'm through with romance. I'm through with love. I'm through with counting the stars above. And here's the reason that I'm go free. My lovin' baby is through with me. Bye Bye love... There goes my baby ...Bye Bye Love ...Bye Bye Love goodbye Bye Bye Love goodbye Bye Bye Love goodbye.

mensagem não codificada com conteúdo dúbio

Oh brother I can't, I can't get through
I've been trying hard to reach you, cause I don't know what to do
Oh brother I can't believe it's true
I'm so scared about the future and I wanna talk to you
Oh I wanna talk to you
You can take a picture of something you see
In the future where will I be?
You can climb a ladder up to the sun
Or write a song nobody has sung
Or do something that's never been done
Are you lost or incomplete?
Do you feel like a puzzle, you can't find your missing piece?
Tell me how do you feel?
Well I feel like they're talking in a language I don't speak
And they're talking it to me
So you don't know were you're going, and you wanna talk
And you feel like you're going where you've been before
You tell anyone who'll listen but you feel ignored
Nothing's really making any sense at all
Let's talk.

Birra de Sono - para si, servido com batatinhas e arroz branco a acompanhar

Não, não estou com sono. E não, também não estou a fazer birra. Ou talvez esteja, na realidade não sei mais o que é sono e birra, crescer faz com que certas coisas deixem de existir... à quanto tempo não me acusam de ter uma birra de sono? Tenho saudades.
Para si, senhor das coisas fantásticas, das coisas fantásticas que devem ser em quantidade e não em qualidade (tau tau para si que pensa assim).
Ora, não é que o tema que sugeriu seja mau, é até bastante interessante, é daqueles que nos deixa divagar (a realidade é que não há uma resposta directa e concisa para a pergunta que me fez - pergunta ou pedido, podem ser ambos, um dentro do outro).
(Não, não foi nenhum pedido de casamento, e não, o texto que supostamente eu deveria escrever - uma página, não era, tamanho 8? - ora, não a página, o tamanho do texto... uffa, adiante)
A realidade é que não escrevi nem uma linha sobre esse tema... porquê? Porquê satisfazer assim um capricho estranho e sem qualidade?
"Sem qualidade?", diz o senhor levantando o sobrolho muito irritado com esta conversa toda, pois, é mesmo sem qualidade.
E agora chegue-se para lá que chegou a minha vez de falar das coisas que eu quero falar.
Que pode muito bem ser sobre nada.
Nada, é bom, é sinal que estamos a pensar em muitas coisas, tantas que essas coisas turvam a nossa mente de tal maneira que mais parece que estamos numa luta de lama (eu e uma chinesa? Que seja.), e então ficamos a um canto sem nada para dizer de interessante.
Isso é crime?
Diga-me, senhor da verdade absoluta?
Tome lá para si, um rebuçado de menta para lhe adoçar e boca.
E agora?
Agora deite-se e durma, eu estou com birra de sono.

Nostalgia ou queda na realidade?!...

Sweet eighteen... às vezes, às vezes parece que estou tão... "grande" (velha?!)...

há dias assim... e assado

É engraçado despertar.
Reparar em todos aqueles pequenos detalhes que nos escaparam durante toda uma vida, como se finalmente tivéssemos acordado, percebido e observado pela primeira vez a cor das folhas de Outono. Há dias em que gostaria não sentir. Passar o dia sonambulando e não sentir culpa nisso. Gostava de ler um livro. Não que não o possa fazer, claro que sim, há tanto livro por aí, perdido... mas queria ler um livro daqueles que nos absorvem totalmente para dentro de si, e ficar assim, quente e dobrada na barriga de um qualquer livro que me fizesse sonhar muito nestes dias de frio. Um livro que tivesse grandes fogueiras e salões de chá.
Mas livros assim só existem dentro da minha cabeça, e são muito difíceis de tirar para fora (demasiado quadrados para serem livros).
Talvez devesse escrever sobre os livros quadrados que são colocados fora da prateleira por não ficarem bonitos...

Inexistência

Acordei. Acordei com um medo terrível de falhar. Um medo gritante e estridente, aquele medo de não alcançar nenhuma das metas que sonhei para mim. Preciso conseguir respirar com mais calma, não perder a esperança de que afinal o sol ainda vai brilhar por alguns dias. Pensar que serei capaz - não, pensar que eu sou capaz! Pensar que afinal o sonho é um exercício normal dentro de nós, não devemos suprimi-lo. Porque me impediram de ser grande, porque me disseram que não deviamos ser ousados? Que faço agora? Como desamarrar esses nós cegos que foram sendo feitos por tantas mãos? Aquela peça de teatro despertou em mim o medo da medíocridade, o medo da não existência por ignorancia? Estarei eu a ignorar o facto de que não existo? Existo? Onde? Quando? Em que momento preciso eu existi de facto? Mostrem-mo! E os olhos vão ficando pequeninos de vergonha... vergonha por não me esforçar. Vergonha por tantas vezes ter fechado as mãos aos sentimentos mais simples. Zangada comigo. Zangada, não sei por quanto tempo.

so good... soooo goooood!

Será pedir muito? Rir mais vezes? Sorrir durante mais segundos? Olhar mais fundo nos olhos das pessoas com quem me cruzo? Inventar histórias absurdas sobre todas as coisas em que tropeço? Salvar mais e mais objectos pessoais que encontro na rua? Tentar encontrar-me numa cidade gigantesca, da qual só conheço duas ruas? Tomar café numa mesa com uma só cadeira? Roubar um pouco mais de tempo para poder sonhar sem ter que pensar no futuro? Andar de baloiço até tocar na lua com a ponta o meu dedo? Comer tarde de maça e beber um chá com os amigos do Pólo Norte? Voltar a levantar o copo e dizer "a nos"? Ter menos sono? Ter vontade de pintar as unhas dos pés? Poder fazer tudo mas não fazer nada porque não me apetece? Fazer livros para os outros escreverem? Será pedir muito viver um bocadinho mais?

para quê?

Era bom voltar a percorrer ruas antigas, caminhar rumo ao horizonte sem nunca olhar para trás, para todos aqueles lugares que se vão desmoronando com a distância a que o tempo os vai colocando do coração. A vida não é feita de metros ou quilómetros, não são essas medidas que separam as pessoas. Poderíamos atar uma pequena fita vermelha ao nosso dedo mindinho (como aquelas que se atam quando não queremos esquecer algo importante), eu ato uma ponto do fio ao meu dedo e tu a outra ponta no teu dedo. e íamos por aí, sabendo onde nos encontrarmos. Estaríamos à distancia de um toque de fio, e tu? Do outro lado.

lágrimas de crocodilo


Listen to the girl
As she takes on half the world
Moving up and so alive
In her honey dripping beehive
Beehive
It's good, so good, it's so good
So good
Walking back to you
Is the hardest thing that
I can do
That I can do for you
For you
I'll be your plastic toy
I'll be your plastic toy
For you
Eating up the scum
Is the hardest thing for
Me to do
Just like honey
("Just Like Honey")
por vezes gostava de ter um Bob Harris a sussurar-me ao ouvido as palavras mágicas capazes de mudar vidas, capazes de eriçar pelos à muito adormecidos pelo sonambulismo "cuotidianico".
palavras que roubam sorrisos molhados por aquelas lágrimas pequeninas a que apelidam de crocodilo! quem sabe... I guess... I guess I'm not hopeless. yeah...
talvez beba chá e espere que o sono me apanhe.