tentativa

Passaram-se semanas que não escrevi uma linha. É verdade que é cada vez mais difícil escrever, escrever bem, com palavras que de facto digam aquilo que eu quero dizer, por vezes parece que digeri tudo, e restaram apenas algumas frases que pouco ou nenhum sentido fazem.
Um dia repetirei a mesma palavra até à exaustão na ilusão vã de que me percebem, na ilusão vã que é essa a palavra que sumariza as minhas dores mais profundas. Talvez seja isso que eu procuro, a palavra certa.

Casa nova



Mais, mais, mais...


Post

Quando recebemos uma má notícia relacionada com as pessoas que amamos, envolve-nos aquela prostração da mortalidade. Sentimos, nesse rescaldo de uma má notícia, a nossa própria fragilidade perante a morte, tocamos no nosso corpo com cuidado e percebemos o quão efémera e instável a vida é, como se se tratasse da primeira vez.
Não estaremos nunca preparados para a noticia da morte de alguém que julgávamos viveria para sempre.

Family time


da Azia

Quando palavras como "amor da minha vida" saem da tua boca, sinto um enorme ódio por ti. No lugar mais intimo da minha alma eu estrangulo a voz para não gritar o quanto queria ouvir essas palavras no escuro, e que elas fossem só minhas e não do mundo inteiro. Não sabes pois não, o quanto custa ler essas coisas que escreves? Não faz mal, eu não sou tua, tu não és meu. Há aquela esperança eterna que os quilómetros que nos separam sejam como um vírus e que acabem por matar este sentimento. Há esta esperança inocente que eu deixe de existir eventualmente, como naquele sonho.

sonhos . pessoas . relações

Eu quero fazer toda a gente feliz, mas é impossível.
Mergulhada nesta angustia de saber ter falhado algures nesse processo, e já não aguento os olhares, as fachadas que as palavras levantam e que escondem outras coisas por dentro, coisas terríveis e cruéis que estragam tudo.

Há momentos em que gostaria de encolher, e tal como os gatos fazem, esconder-me dentro de um saco de papel como se o mundo inteiro fosse uma savana perigosa com animais selvagens.

Queimar

Pão e vinho sobre a mesa, e mesmo quando mentias e dizias que não, as nódoas provavam que ali haviam estado ao pequeno almoço. Não é preciso esconder.
Ninguém ouve quando digo que tu és alcoólico, talvez porque saibam que se não morreres disso, morres de outra coisa qualquer. Estás nessa idade em que a morte é a maior certeza, por isso guardam a muda de roupa preta especial na gaveta, nessa iminência da tua queda.

The deepest black _ PJ Harvey (sibilante)

I need a man
To bring me love
To make me sing

I said I need a man
To make me feel
Like I'm a queen

I said to take me to the god heights
And kiss the devil on the mouth


I need a man
To make me moan
To make me bad

I need a man
To drive me slow
To drive me mad


I said to take me to the god heights
And kiss the devil on the mouth
To leave me oh no no no no


I need a man
His heart is stone
His mother's bad


I need a man
His heart is stone
The deepest black


His heart is stone
His mother's bad
His heart is sick

The deepest black
M-A-N-I-A-see
I need

23.27

A minha mãe chorava, vomitava e sorria - tudo ao mesmo tempo. Chorava sempre sentada nas escadas de pedra porque achava que ninguém a via.  Era a sua tentativa inocente de fazer acreditar que o mundo estava bem, quando na realidade tudo estava mal. A mãe que eu conheci era a casca que vestia outra mãe, uma mãe mais pequenina triste e sozinha no seu mundo de menina mal amada.
Não sei porque me lembro destas coisas, talvez porque nunca me conformei com aquela porta a fechar as escadas, é como se quisessem fechar o passado. Aquelas escadas têm tantas lágrimas, que serão escadas de rua, sujas e molhadas para o resto da vida.

When will I see you again? When will we share precious moments? Will I have to wait forever? Or will I have to suffer and cry the whole night through?


Fasmasmas | Gosts | Spectres | Fantasmi

É tudo negro

Mais uma tentativa de arqueologia emotiva para tentar desvendar as origens das sombras que se colam às paredes da alma. "Faz coisas bonitas, tu gostas."
Procurei nos muitos blocos de notas vestígios de paixões antigas, como carcaças das quais me pudesse alimentar, mas não há nada. Frugalidades sobre a terceira idade, sobre solidão, números de telefone cujos donos desconheço e listas de compras, resume-se a isso a minha ortografia cada vez mais desconstruída e caótica.
É como se não houvesse mais nada, fico-me a desfolhar livros ate à exaustão da carne, e para contemplação apenas esta cápsula que ainda se assemelha um pouco a corpo de mulher, algo que eu sonhei ser um dia, mas sem um propósito digno - nem sequer para puta.

A última página chega ao fim

Quando termino um livro fico num estado de desconforto que demora a desaparecer. É uma estranha ansiedade misturada com nostalgia, como se alguém que conheço tivesse desaparecido de repente, sem me dar tempo para despedidas, sem dar tempo para perguntas.


"recomeço a bordar ou a dormir | tanto faz | sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade" (Al Berto)


Verdade verdadinha vermillon

Dia 5 de Janeiro, já andavas tu no leito alheio, escrevi corajosamente aquilo que não voltei a escrever todos os meses que se seguiram: faltas-me. E é verdade. Esta secura que me invadiu é por tua causa, devo assumir sem receios. Fechaste todas as nascentes que me incendiavam e inflamavam a escrever. E escrevia, mesmo que o fizesse de maneira pobre e infantil, mesmo que o fizesse por te odiar e amar dessa forma retorcida que só nós sabemos.

Sobrou este silêncio como cinza de um incêndio. Na realidade, ditas bem as coisas, não sobrou nada... ficaste com tudo.
Arrasto-me de livro em livro a tentar encontrar nas palavras dos outros aquilo que quero dizer e sentir mas que não consigo.
Há a urgência de me reinventar, mas procuro-te em todos os poros da pele mesmo depois de ela cair. És como uma doença crónica que eu não quero tratar.

Eu quero. (mas não quero perder-te)

...

Onde é que tu estás? perguntam os meus dedos ao escrever estas palavras. Eu respondo "Já não existo.". Hesitando, fico longos minutos com as mãos pousadas à espera de uma reação. Tudo é branco.

Y tu sinceridad me mata!


as andanças de envelhecer

"peço-te, dá-me Tempo para que as palavras se transformem e tomem sentido, se organizem de modo a serem fala simples e imediata e dá-me tempo para reconhecer o meu corpo esquecido algures na treva duma memória que eu tento esvaziar. dá-me Tempo para perceber de novo a falsidade dos espelhos, e de novo construir a minha sombra, o meu reflexo, a minha solidão. dá-me Tempo, Tempo infinito para que a voz cresça e se transforme em canto. Tempo, quero Tempo, para redescobrir a dor." (Al Berto, Diários)

Pois, pois, pois...



i·den·ti·da·de 
(latim identitas-atis)
substantivo feminino
1. Qualidade de idêntico.
2. Paridade absoluta.
3. Circunstância de um indivíduo ser aquele que diz ser ou aquele que outrem presume que ele seja.
4. Circunstância de um cadáver ser o de determinada pessoa.
5. [Álgebra Equação cujos dois membros são identicamente os mesmos.


"identidade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/identidade [consultado em 25-03-2014].

Macacos me mordam e depois me aconcheguem no quentinho da barriga - se eu tivesse 8 anos e escrevesse poemas seria algo preocupante como isto:

Dias não.
Dias feios.
Dias horríveis em que apetece desaparecer.
Dias que doem como a morte, se a morte doer.
Dias compridos que apetece cortar.
Dias doentes que apetece comer.
Dias sofridos e languidos
Dias azuis mar que eu queria apagar.

Leonard C. - Sempre na muche.

I asked my father,
I said, "Father change my name."
The one I'm using now it's covered up
with fear and filth and cowardice and shame. 

Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.

He said, "I locked you in this body,
I meant it as a kind of trial.
You can use it for a weapon,
or to make some woman smile." 

Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.

"Then let me start again," I cried,
"please let me start again,
I want a face that's fair this time,
I want a spirit that is calm." 

Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.

"I never never turned aside," he said,
"I never walked away.
It was you who built the temple,
it was you who covered up my face." 

Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.

And may the spirit of this song,
may it rise up pure and free.
May it be a shield for you,
a shield against the enemy. 

Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,

Quemicynotype!? Pode ser! Eu estou rendida.


Não imaginava que a comida poderia conter em sabores tanta poesia. Belcanto

Fotografia by João Montenegro.