Got to find me somebody
But there's nobody
To love me
And it's driving me crazy
There's nobody to love me

I am an emotional creature - I am an abnormal creature

carta

É noite.
Andava descalça de noite quando nos cruzamos, não sabia bem onde estava, se estava. Sentia-me longe e incrivelmente só, com as palavras do Torga na boca como se fossem minhas, e sabiam-me a verdade.
Sinto que perdi em mim a capacidade de falar. Muda. E há palavras que queria gritar, que estão suspensas. A noite chegou, e chamam-lhe "fim do dia".
 
Sim, chegou.
 
Há um cansaço dos olhos e do cérebro, um enorme desejo de negro e silêncio.
Sinto-me inquieta. Não me apetece ler, não me apetece ver ninguém, não me apetece ir a lado nenhum. Só a música me repousa, escolho-a cuidadosamente e deito-me num quarto escuro. Espero pacientemente que as imagens se dissolvam no ecran tremido das minhas pálpebras, demora algum tempo (respiro muito lentamente) mergulho na letargia e adormeço. Mas é um sono agitado, entre-cortado.
Preocupa-me não conseguir ler. O meu refugio de sempre. 
Ocorre-me a voz do Jim Morrison: «I'll always be a word man. Better than a bird man». E concordo com esse lagarto gordo que ainda vive nos sonhos suados de tantas adolescentes. Não há voos mais belos que os desenhados por palavras, nada mais fascinante. Mas agora sinto-me inundada de imagens. Agora, não consigo olhar um livro sem sentir aquele enjoo de quem salta de um barco para terra firme. As palavras bailam trocistas.
 
Não tenho sapatos.
Não falemos enquanto escrevo.
Pergunto-te:
- Vamos brincar na areia? 

Encontro no Sotão (Lea & Lee - surrealistic memories of a young girl)

Lea – Vamos passear hoje?
Lee – Está a chover.
Lea – Não tenho exercitado a minha imaginação. Tens usado a tua? Tens de a usar!
Lee – Não, está bloqueada.
Lea – Também não sei como se faz para começar. Começa-se, sabes? E depois pronto! É pena, assim não te posso dar a mão e levar-te, não irias perceber nada. Precisas de imaginação.
Lee – Levar-me onde?
Lea – Para o topo de uma árvore, por exemplo. Para o meu quarto ou para o telhado! Experimenta ir a lugares que conheces de olhos fechados!
Lee – O que é que não ia perceber!?
Lea – O porquê de te levar a ti, comigo,para esses lugares.
Lee – Isso de ir a lugares conhecidos de olhos fechados, estimula a imaginação?
Lea – Estimula! Continuas triste?
Lee – Não estou triste…
Lea – Oh… Hoje estou incrivelmente infantil! Quero brincar! Quando recuperares a capacidade de imaginar, dás-me a mão?! É uma loucura dares-me a tua mão, ainda faço com que te percas!...
Lee – Perdido pensei que estava eu. E afinal é isso que me falta! Perder-me para me reencontrar…
Lea – Oh, então estas em boas mãos! Mãos com mãos. Podes ir comigo!?
Lee – Se me levares…
Lea – Claro que levo! Mesmo que não percebas nada! Hum… e vamos de pijama. Vamos hoje! Vou imaginar - fecha os olhos - uma rua comprida, tem bancos vermelhos de onde a onde, e candeeiros antigos! Há guarda-chuvas abertos. Não sabemos bem para onde vamos, nunca sabemos! Eu sou trapezista!
Lee – Mas estás de pijama!
Lea – Eu tiro!
Lee – Não!
Lea – Tens medo?
Lee – Não, tenho medo de mim. 
Lea – E tu? O que é que queres ser quando tirares o pijama?
Lee – Não sei. Obriga-me a ser qualquer coisa.
Lea – Posso obrigar-te? Podias ser domador… enfrentar as tuas feras! Deixar de as temer! E tinhas um casaco vermelho com botões dourados! Eu podia saltar sobre a arena!
Lee – As feras comiam-te.
Lea – Eu não caía…
Lee – Elas voam.
Lea – Mas tu não deixavas…
Lee – Deixava, deixava… (sorrindo) Não deixava, era só para te assustar! Depois dizia para não usares mais esses sapatos, elas não gostam…
Lea – Mas depois eu ficava descalça…
Lee – Tu voas também, fera!
Lea – Os meus olhos estão pesados, não vou ficar mais a olhar para ti…
Lee – Vou tirar o pijama.
Lea – Então, antes de adormecer, também tiro. 
Queria que hoje fossem os meus dedos a escrever por mim.

reflection (há quem fale por mim)



Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!

Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doída de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos,
Só para não estar sempre aqui sentado e quieto,
Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!
Não quero intervalos no mundo!
Quero a continuidade penetrada e material dos objectos!
Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas,
Não só dinamicamente, mas estaticamente também!

Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir para a... Ser levado até...
Abstracto auge no fim de mim e de tudo! (...)
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher.

(Álvaro de Campos)

linhas

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

(Álvaro de Campos)

Carta (tantas que escrevi para ti e não lês-te)

Parece mesmo que morreste. Já reparaste neste silêncio que nos separa? Já não te encontro do lado de lá do tronco da nossa árvore. Sento-me e espero por ti nessas tardes que para mim faziam sentido quando te esperava. Agora, espero-te e tu não vens. Nada faz sentido. Também abro a janela como fazia antigamente, aquele muito antigo em que eu gostava ti. Onde estás? Ainda te lembras de mim? 
Perdi-me de ti naquele sonho em que seguias num carro grande e te afastavas cada vez mais, eu a chamar, a chamar... a mostrar-te as minhas luvas de mimo, aquelas com que eu gostava de brincar contigo. As tuas favoritas, ainda te lembras? Eram vermelhas! 
Às vezes sonho contigo, ainda aí estas, mas longe, do lado de lá da velha ponte vermelha. Não é justo que tenhas ficado com os meus dedos, aqueles que eu usava para falar. Deixaste-me muda. Roubaste as histórias que eu te contava. Ficaste com tudo. Agora reparo que sempre foi assim, tu lá e eu aqui, a desenhar-te o mundo, mas tu nunca querias nada... e eu queria dar-te tudo, os meus lápis de cera, as minhas mãos e a minha boca. 
Dentro da esquecida mala de viagem encontrei alguns dedos e recomeço a aprender a falar. Não vais acreditar, mas o mundo afinal é redondo e podemos ir a todo o lado, basta querer! Eu quero ver o azul e o vermelho do mundo. Eu levo verde, na esperança vã que te relembres dos tempos em que ainda sabíamos voar e nos ríamos nos intervalos dos silêncios que degustávamos no telhado da minha vizinha imaginária. Às vezes ainda espreito pela tua janela. Está sempre fechada e é escuro lá dentro. Ainda assim, espero encontrar-te um dia para te poder entregar um abraço muito pequenino que fui deixando dentro de um bolso antigo. Esta carta serve só para te dizer que eu ainda estou viva.

caderno cor-de-rosa . constatação

Há um silêncio que não se consegue transpor, como uma corrente eléctrica que invade tudo e não deixa escapar nada, o mundo está parado e surdo de sentimentos.

Carta de Amor por João Villaret (escutada a dois)


Ouve-me!, se é que ainda


Me podes tolerar.

Neste papel rasgado

Das arestas da minh'alma,

Ai!, as absurdas intrigas

Que te quisera contar!

Ai os enredos,

Os medos,

E as lutas em que medito,

Quer dê, quer não dê por isso,

Sem descansar

Um momento...!

Quem sofre - pensa; e o tormento

Não é sofrer, é pensar.

O pensamento

Faz engolir o vómito de fel...

Ouve! se sou cruel

Neste papel queimado

Dos incêndios da minh'alma,

é de raiva de que embalde

Te procure dizer sem falsidade

Coisas que, ditas, já não são verdade...

E procuro eu dizê-las,

Ou procuro escondê-las?

E procuro eu dizer-tas,

Ou procuro a vaidade

De mas dizer, a mim, de modo que mas ouçam

Esses mesmos que desprezo,

E cujo louvor me é caro?

Não me acredites!

O que digo,

Antes ou depois, o peso;

E não!, não é a ti que me eu declaro!

Sei que me não entendes.

Sei que quanto melhor te revelar

O meu mundo profundo,

O fundo do meu mar,

Os limos do meu poço,

O antro que é só meu (sendo, apesar de tudo, nosso)

Menos me entenderás,

Tu..., - a minha metade!

Por isso me não és senão vaidade,

Meu amor!, meu pretexto

Deste miserável texto...

Vês como sou?

Mas sou pior do que isto.

Sabe que, se me acuso,

é só por vício antigo

De me lamber as mãos e agatanhar o peito,

De me exibir a Cristo!

Sabe que a meu respeito

Vou além de quanto digo.

Sabe que os males que ora uso,

Como quem usa

Cabeleira ou dentadura,

São a pintura

Que esconde os mais verdadeiros,

De outro teor...

E sabe que sou pior!:

Sabe (se é que o não sabes)

Que ao teu amor por mim foi que ganhei amor.

Que a ti..., sei lá se te amo.

Sei que me deixam sozinho

Ante o girar dos mundos e dos séculos;

Sei que um deserto é o meu caminho;

Sei que o silêncio

Me há-de sepultar em vida;

Sei que o pavor, a noite, o frio,

Serão jardim da minha ermida;

Sei que tenho dó de mim...

Fica tu sabendo assim,

Querida!,

Porque te chamo.

Mas amar-te?!

Não!, minha vida.

Não! Reduziram-me a isto:

Só a mim amo.

Ama-me tu, se podes,

Sem procurar compreender-me:

Poderias julgar que me encontravas,

E seria eu perder-te e tu perder-me...

Ao menos tu..., desiste!

A sobre-humana prova que te peço,

A mais heróica!,

A mais inglória e a mais triste,

é essa..., - é este o meu preço.

Mais que o despeito, o ódio, a incompreensão

Dos por quem passei sereno,

Estendendo a mão afável

Ao frio, pérfido, amável

Aperto da sua mão,

Me punge,

Me pesa no coração,

O fruste amor dos que me interpretaram.

Ai!, bem quiseram amar-me!

Bem o tentaram.

Mas nunca me perdoaram

O não serem dominados

Nem poderem dominar-me...

E assim o nosso amor foi uma luta

De cobardes abraçados.

Entre eu e tu,

Tão profundo é o contrato

Que não pode haver disputa.

Não é pacto

Dum pobre aperto de mão:

Entre nós, - ou sim ou não.

Despi-me..., vê se me queres!

Despi-me com impudor,

Que é irmão do desespero.

Vê se me queres,

Sabendo que te não quero,

Nem te mereço,

Nem mereço ser amado

Pela pior

Das mulheres...

Poderás amar-me assim,

(Como explicar-me?!)

Por Qualquer Cousa que eu for,

Mas não por mim!, não a mim...!



Beijo-te os pés, meu amor."

José Régio

Family time!


time traveler (procurando-me nas palavras e nos rabiscos de outrora) . novos retratos . há palavras no bico . perspectiva


Porque tudo é tão triste? Ah... se ele soubesse. (carta tresloucada de sexta)

Eu quero uma mini saia. Sim, é verdade, parece que os meus 15 anos finalmente chegaram e quero uma mini saia! O meu cabelo está maior do que quando nos conhecemos, talvez agora possas trepar a torre! Eu faço crepes e podemos ver filmes a noite toda! Ou se preferires, fugimos como dantes. Ah, parecem pequeninas formigas estas emoções que se perderam. Estão a voltar, sentem-se da mesma forma que um pé dormente quando dormimos mal... Ah, as viagens, os candeeiros das cidades à noite... Vou devorar tudo como se de um chocolate se tratasse! Vou pegar em ti e abanar-te, abanar-te e beijar-te e abraçar-te! Quero correr no lusco-fusco de braços abertos e rodar a olhar o céu. Despimo-nos e eu finjo que sou tu e tu és eu! Ah, se as palavras tivessem fechaduras especiais e tu tivesses todas as chaves, poderias descobrir mil tesouros escondidos em tantos e tantos papéis esquecidos e rasgados, palavras e palavras... Ah, que loucura, quero dançar só porque me apetece... e não estou farta, e uso as reticencias como qualquer miúda apaixonada com 13 anos! Fazes parte das minhas reticencias. És o terceiro ponto. Escolhi esse porque é o que está mais longe, assim posso espiar-te sem saberes. Sabias que as árvores às vezes têm maçãs?

excerto de "a feira" (excerto de mim mesma algures em 2009)

"Se soubesse escrever inventaria uma história sobre a minha vida onde incluía leões, Reis e bailarinas dotadas. Barcos com velas cheias de vento na barriga e montanhas encorpadas vestidas de árvores e bichos. Sou uma cigana pobre e só, comigo apenas trago o saco com trapos que me deu meu pai no dia em que morreu, o coitado, já nem sabia quem era, quem foi. Também lhe contei histórias da sua vida, hoje, depois daqueles serões, ele parece-me um grande homem. Para mim a alegria da vida é acordar cedo e ir para a feira chamar as meninas e sussurrar-lhes sobre o amor, vê-las sorrir, bonitas e alegres. Sou uma farsa, porque na realidade também eu não passo de uma história contada por mim, e sou aquilo que eu quiser. Quem me dera poder ir dançar para os senhores da nobreza em troca de moedas de ouro, mas hoje em dia só há televisões a cores, das ciganas já ninguém fala. Saudades do tempo em que no Verão tirava os sapatos e corria descalça o tempo inteiro ignorando os avisos sábios da minha mãe que me advertia sobre as pedras mais malvadas. Nenhuma delas, nem as mais afiadas me fizeram calçar de novo as minhas sandálias. Dentro da minha cabeça a vida tem uma cor mais intensa, as pessoas são mais belas e as estradas são para andar nelas sem se pensar em voltar para trás. Pudesse eu dançar noite dentro e seria feliz numa cabana de estrelas."


(um dia com mais sol)

Last Goodbyes? Is this one?

rapariga com mala viajando sem destino . rapariga da carta sem resposta . guarda roupa sem mulher . dia de sol na praia com vento . janela aberta sem a passagem de nenhum Fernando Pessoa à hora combinada

Twisted


"My mind is twisted, i'm complicated 
and maybe a little bit crazy... but one 
thing is true in the middle of all this: 
I cannot unlove you"
Juliet Capulet

Há quem diga que já houve

Houve já destes dias? Dias em que comer cerejas não chega, dias em que os livros estão escritos em línguas que não percebemos, a música é barulho e a comida é lixo?
Há dias assim. Há estes dias que gostaríamos de apagar com a borracha da escola, como fazíamos antigamente nos nossos diários secretos. A tua mãe morreu - apaga - a mãe morreu. O teu namorado traiu-te sem querer - apaga - traíste-me. Gostas do teu amigo - apaga - gosto de ti. Traíste os teus princípios - apaga - não quero. Vêem como tudo seria tão mais fácil? 
Há estes dias em que, apesar do que toda a gente diz, apetece rebentar com tudo. Qual sol, qual praia, qual luz brilhante? Há apenas escuro, há medo. Há vontade de abraços e de verdade. Verdade! Chega do faz de conta e sorrisos falsos, da perfeição do super-mercado. Quero o feio, o grotesco, o retorcido, quero as pessoas verdadeiras que andam na rua mal vestidas e a cheirar mal. Vontade de gritar com toda a gente. 
Mas todos estamos cegos, cegos nos olhos, na boca e nos ouvidos, ninguém sente nada. O Saramago tem razão, estamos todos cegos. Estamos todos cego por dentro - como esperamos sentir o que quer que seja? Como queremos sentir o que quer que seja se já estamos mortos por dentro? Estamos mortos, só não o sabemos ainda. Não sabemos nada porque o que importa é que chegou a hora de ir jantar. Viver é para aprender a comer com garfo e faca. E vamos vivendo.

I want you, i want you so bad

(author: unknown)


quimera (é) 
(grego Khímaira, -as, Quimera, ser mitológico, de khímaira, -as, cabra jovem)

s. f.
1. Mit. Ser mitológico geralmente representado com um corpo híbrido entre leão, cabra e serpente ou dragão.
2. Coisa resultante da imaginação. = fabulação, fantasia, ilusão ≠ realidade
3. Esperança irrealizável. = utopia
4. Ictiol. Peixe condropterígio.

uma mão no rosto de um cão com sarna . visita . retrato de uma mulher . palavras soltas num dia qualquer . vento


Onde o esconderam? Porque calaram o mar? E o barulho das árvores? Ninguém diz nada!? O silêncio é universal e sinto-me como aquele cão moribundo recordando a sua juventude junto da figueira. Porque me fogem as palavras, porque se escondem, malditas!, por entre as linhas de uma caneta que não sabe desenhar? Encontra-me. Encontro-me. Dedos que querem gritar, dedos que gemem de dor, de silêncio de ódio. Dedos que querem escrever, dedos que querem devorar palavras. Significados? Só este nó no estômago, esta pedra. Onde deixas-te o sol, onde?
Quem diria, que pode haver poetas sem poesia.

2 ponto 8 (2 ponto 6)

Hoje é dia de birra. É dia de atirar com as coisas ao chão, dia para escrever textos em francês, é dia de riscar folhas de jornal e de comer lixo, dia para dar erros ortográficos e dizer: 
"não quero, não quero, não quero" 
"corrige os erros Maria" 
"não, não e não" 
É dia de faltar à escola. Fugir de casa. Comprar gomas e ir comê-las na praia. É dia de rasgar jornais e esconder os comandos da televisão. Hoje é dia para rasgar todas as minhas roupas e a seguir chorar - afinal eu sou uma rapariguinha que perde 5min por dia a mirar-se ao espelho. Sinto-me perdida numa feira popular gigante. Uma menina birrenta com lágrimas de crocodilo a lamber um pau quase vazio de algodão doce. Ao olhar para o céu, as nuvens garantem-me mais uma vez que hoje é mesmo dia de birra. Tudo tem um significado, mas eu não percebo qual é o deste dia cinzento. Queria muito ter sol, mas este que aqui têm é a fingir. Queria muito não ter de aprender a tabuada e de poder passar os dias a fazer desenhos com giz num quadro negro. Desenhava todas as minhas birras lá e depois apagava-as. Desenhava todas as nuvens cinzentas e a seguir apagava-as. Dás-me um apagador mágico? Se preferires pega-me ao colo. Está mesmo na hora de ir dormir. O meu coração está tão cheio com estas tralhas que sempre que bate todas as bicicletas do mundo começam a fazer um barulho esquisito.

a mentira é uma verdade que se conta às escondidas

Eu sempre tive aquela mala, desde sempre. Desde sempre é muito tempo, mas sei que ela existiu desde o meu inicio. Com o tempo que foi passando ela foi ficando gradualmente mais apertada, nos últimos anos era tão pequena que somente minúsculos envelopes cabiam dentro dela. Sinto falta dessa mala como das varandas no Verão, do baloiço de almofadas azuis, das gaivotas na praia. Mas daquilo que mais falta sinto é de mim mesma, pequenina e dobrada dentro dela.

Plus près du ciel

Maman, écoute, sincèrementm dis-moi, Maman, ne me trompes pas! Je ne peux plus vivre sans toi! Dis-moi vraiment si au ciel où es, Maman, il y a une place tout-près de toi?

Era uma vez em tempo antigo um castelo e uma noite de pecados sem fim

"Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. Se eu fosse cego amava toda a gente."
- Almada

brinco de pérola em areia

<>
(Almada Negreiros) 
 

afogar as minhas crenças

Cabra Paranóica, esse deveria ser o meu nome, assenta bem com as cores do meu casaco, combina bem com o tom de pele e tem a ver com o corte do meu cabelo. Vinho tinto, sardinhas e uma mesa aos quadradinhos, a Cabra Paranóica no centro de peito esticado a servir mentiras ao jantar - com espinhas para engasgar toda a gente. Unhas descascadas, sujas, unhas de ganso, bico de pato lambendo a loiça com fome de carinho, tudo por uma boa gota de humanidade - vá lá, deixem-me sentir qualquer coisa, uma molécula de ser humano.
Cabra Paranóica ao jantar, Cabra Paranóica ao almoço e a barriga a roncar de fome, de  sede de loucura - grito - a prisão da vida, da ignorância. A escuridão invade o mundo e os lobos preparam-se para a caça, peles de carneiro são lançadas no fogo para ofuscarem os olhares dos inocentes, ninguém vê, está tudo cego e todos rosnam e gemem e gritam como animais com cio, Cabra Paranóica não fala, é muda de nascença, os olhos reviram-se nas órbitas, não sabe o que fazer, a mesa aos quadradinhos parece uma mesa de xadrez e é a sua vez de jogar.

Found it! The nothing.

Acreditar é difícil. É difícil acreditar que as coisas são o que são. Queremos sempre que sejam outra coisa qualquer - melhor. Damos tudo para não ver a realidade tal como ela é - feia. Somos como as formigas - um ponto qualquer que se mexe lá em baixo - para quê?

fim de tarde . fim do vento . fim da lata

"I'm sick of my own romanticism!" 
— Anaïs Nin 

Erro Ortográfico

Há uma vontade imensa. Uma vontade invasora que derruba tudo à sua passagem, uma vontade devoradora, esfomeada. Uma vontade de comer palavras e rasgar paisagens. Incendiar corpos com prazer e desejo, partir sentimentos. Há uma vontade de felino carnívoro, vontade de animal selvagem até ao núcleo - indomável. Há uma vontade de partir mar adentro, romper ondas e separar oceanos, beber o mar e nunca mais ver terra. Há uma vontade de morrer e renascer. Vontade de respirar, andar, falar outras línguas. Há uma vontade de apagar os nomes de gentes esquecidas, amores vencidos, sonhos que se alinham moribundos na valeta prontos para o fuzilamento. 
Há uma vontade de gritar até o corpo doer e não haver mais nada a dizer, apagar a voz, até renascer o sorriso. 
Há uma vontade de sentir. Sentir verdadeiramente os momentos, os lugares. Sorrir sorrindo mas de verdade. 
Há uma vontade de abrir o mundo para sempre e finalmente viver pela primeira vez.