C'Est Toujours La Même Histoire, C'Etait Une Histoire D'Amour

E se de repente a vossa vida fosse tomada por pequenos e peludos e queridos bichinhos sugadores? A mim aconteceu-me, e juro que foi sem querer! "É que os últimos dias têm sido um pesadelo, eu conto... eu conto... Sexta a gata entra em trabalho de parto (pois, agora tenho uma gata), tonta como ela é, não percebeu que iam nascer bebés (nós também não tínhamos percebido quando a aceitamos cá em casa, mas não tardou a tornar-se óbvio que aquela barriga redonda não poderia ser só prisão de ventre), andava a passear pela casa em vez de estar quietinha no seu lugar, e quando demos por ela, andava com um bebé a arrastar pelo chão, tivemos de ser nós a cortar o cordão umbilical porque o raio da gata estava mais assustada que eu e o Filipe juntos! Depois ela lá percebeu que aquela coisa branca e "gritante" até era querida e lá se aninhou com ele. Problema dois, a gata não tinha leite, depois de um rodopio lá fomos comprar leite para o bichinho, o Filipe passou a ser a mãe. Problema três, as horas passaram, a barriga da gata a borbulhar com gatinhos a querer sair e nada de contracções. Correria para o veterinário. Ou se fazia uma cesariana logo para salvar os bebés, ou esperava-se para ver no que aquilo dava. Cesariana. Nascem os outros 4, a mãe Filipe amamenta a bicharada enquanto a gata, completamente KO, recuperava. Lá a fomos buscar sexta à noite, completamente drogada, aos berros, cheia de dores, percebemos logo que tínhamos de ser nós a continuar a amamentar os bichos (ia ser uma noite interessante a acordar de duas em duas horas), resolvemos pintar com tinta uma bolinha de cor na cabeça dos gatinhos, para sabermos quem comeu e quem não (uma ninhada de cinco gatos iguaizinhos). De madrugada, a gata, mais calma, lá aceitou os "lagatinhos" ao pé dela, podíamos dormir finalmente. As coisas pareciam correr bem, mas depois algo estranho aconteceu. Problema quatro, os gatinhos estavam a ficar carecas, sim, carecas, pareciam uns frades com um círculo sem pelo na cabeça, a ideia da tinta não foi assim tão brilhante! Visita ao veterinário para ver se a família estava bem, os pontos, os leitões, quem é menina e menino (três gatos e duas gatas). Problema cinco, trazem amigos para casa, quando demos por isso, havia duas pulgas japonesas a fazer turismo nos pequenos. Tirando isso, pareciam estar a crescer bem, gordinhos, a devorar as maminhas da gata como uns leões, até que ontem, ao examinarmos melhor percebemos que algo não estava bem, problema seis. Um dos gatinhos (desconfiamos que o que nasceu primeiro, que esteve mais horas sem a mãe) está visivelmente mais pequeno, fraquinho, a pelagem ainda pouco desenvolvida e com problemas de respiração (e um olho super inchado, parece um daqueles peixes pretos que têm os olhos a sair para os lados). Ao que parece está constipado, e isso só traz problemas, tem dificuldade em respirar pelo nariz, fá-lo pela boca e por isso come muito pouco, ou nada. Além do mais como não tem olfacto não consegue encontrar as maminhas... Enfim... o que em tempos parecia uma coisa fantástica, a chegada dos leitões, revelou-se num pesadelo de problemas e consultas ao veterinário." (from an e-mail sent to Esquimó). E isto tem sido a minha vida, bolas de pelo a pedir mil atenções, e mesmo quando não pedem - ora - eu não me importo de dar!

A Billie está blue... eu também.

Resolvi limpar o pó aos velhinhos CD's, daquele tempo muito antigo em que eu tinha janelas abertas para ouvir os gatos dos visinhos. Billie Holiday acompanha-me agora na voz, enquanto eu a acompanho a ela. O teclado não é o do piano, mas tenta criar pequenas letras que vou juntando para formar palavras mais ou menos coloridas - a música, "all of me". Aos que quiserem ouvir este dueto, sentem-se por aí, aquele monte de livros parece-me confortável. Por onde começar? Parece que estou sempre a querer começar qualquer coisa que ainda não sei o que vai ser, mas vai ser bom, certamente, assim que começar! Numa conversa comentava que não tinha escrito nada, que não sabia quando voltaria a escrever e que o mundo é redondo e por isso mesmo muito difícil de uma pessoa se equilibrar em cima dele - não tenho as qualidades das focas, e ainda por cima tento equilibrar mil bolas no nariz. É para isso que o nariz serve não é? O mais estranho de tudo é que o céu ficou muito azul, um azul escuro sem brilho, um pouco como os blues, se bem que os blues têm estrelas, e o azul é mais brilhante, mas pronto... talvez não devessemos catalogar os azuis. Ai ai, só sei dizer parvoíces.

a rua das gavetas verdazuis

«quero dizer-te o quanto te amo... vem comigo meu amor, quero contar-te o quanto gosto de ti... de ti.» Artur, 31 anos, sonhador e tímido de nascença, vivia naquela rua desde sempre. Conhecido por todos como o filho da falecida Albertina, auxiliar de enfermagem desde os 23 anos, estimada por todos pela sua bondade sem fim, mas também pelos azares que tivera na vida, partilhados e derramados no ombro de grande parte dos moradores da rua. Artur, só desde que a mãe lhe falecera à 8 anos, por ali foi ficando, poucas as ambições e muitos os receios. Trabalha na livraria da rua, o Sr. Almeida tem um carinho especial por aquele rapaz, não fosse ele filho do seu grande amor. Viúvo e sem filhos dizem as bocas que a fortuna ficará para o órfão - o Artur - que muito amor tem pelos livros, homem de bom coração, é bem certo que o faça. A rua manteve-se igual muitos anos, mas desde que as centenárias começaram a cair como tordos muitas casas houve que ficaram para vender ou alugar, mal imaginava o Artur as reviravoltas que a morte das santinhas lhe haveriam de provocar na pacata vida de solteirão. Ela era jovem, tinha empregos incertos, desavenças com a família, e por voltas da vida ali foi parar também, nem queria acreditar na sorte que teve ao encontrar aquela casinha tão catita para alugar a um preço tão bom, a vida não está fácil, e para a Alice se manter muita era a ginástica financeira e a criatividade. Mudou-se para a antiga casa da D. Aninhas, mesmo em frente às janelas da casa herdada pelo Artur. Não tardou muito que o Artur descobrisse um novo passatempo, com as luzes apagadas e muito cuidado, passava grande parte do serão a espiar Alice. Aquela mulher causava-lhe grande curiosidade, passava as noites a ler livros, a dançar ou a pintar gavetas. Sim, perceberam bem, gavetas. Alice gostava de albergar em casa todo o tipo de mobiliário abandonado, por vezes, quando o mau estado do dito era tal, ela surripiava-lhe uma ou duas gavetas que trazia debaixo do braço para casa. Depois decorava-as com flores e cores e pendurava-as na parede. Artur habituou-se a espiá-la da janela todas as noites. Ela não sonhava na existência daquele personagem franzino, amante da leitura e de cigarros compridos. Ele, que dantes costumava ler livros de autores soviéticos, beber vinho tinto com os amigos que o visitavam com frequência, ouvir música de bandas nunca conhecidas, tertúlias inflamadas pela emoção de usar a palavra e que agora adiava esses encontros usando desculpas descabidas só para ficar a vê-la. Naquela primeira noite da loucura, Artur fechava o saco do lixo para o colocar na rua quando a ideia mais descabida lhe ocorreu. Olhou para os armários da sala e tirou uma gaveta, esvaziou-a e desceu as escadas. Ficou a espreitar pela janela. Viu-a parar junto ao seu saco do lixo e a levar a gaveta para casa. As semanas iam passando, da janela o Artur viu Alice construir a estante mais louca que poderia existir, uma parede cheia de gavetas despernadas e coloridas cheias de objectos renegados que ela ia acolhendo com paciência e amor. As semanas iam passando e a casa do Artur tornou-se num lugar caricato, todos os armários sem gavetas, todos os objectos colocados dentro de caixas de madeira da mercearia da D. Joaquina. Depois de muito adiar lá resolveu fazer as suas antigas reuniões, os amigos a entrar, as mesma perguntas sempre que abria a porta "que te aconteceu homem? roubaram-te as gavetas". Muitas piadas e desculpas feitas sobre o tema lá foi o Artur abrir a porta uma vez mais. Ali, diante da sua porta, a dois metros, Alice sorria-lhe "trouxe uma amiga desta vez, e mora mesmo aqui na rua!" disse um dos amigos de sempre. Corado, a sentir-se desfribilar lá os deixou entrar. Seis meses depois, Alice mudou-se para casa do Artur com as suas gavetas, que se mantiveram estante de parede. Alice trouxera para a vida do Artur a cor e alegria que lhe faltara durante anos. Ainda assim, Artur deixava-se ficar na soleira da porta a espreitar Alice sempre que esta se sentava a pintalgar o mundo de verde e azul.

Em termos autobiográficos: o que devo eu escrever sobre isto?

experiências que nos marcam para sempre. O primeiro beijo, o primeiro amor, aquela viagem das férias do Verão, o primeiro internamento hospitalar. Percebi que ate hoje eu me julgava eterna, quando pensava em mim imaginava que viveria eternamente, um eternamente com um fim algures, mas tão longe era esse fim que quase não o podia ver lá ao fundo, naquela curva final que a minha vida um dia iria fazer. Mas nada é para sempre (todos julgamos saber isso), vivemos num equilíbrio tão frágil e delicado que é assustador pensar nisso. Por isso não pensamos. A maior lição que eu aprendi com tudo isto é que não se devem deixar muitas coisas para amanhã. Eu sofria desse mal, adiar sempre tudo, há tanto tempo para as coisas... não, não nos iludamos, há que viver hoje todas as pequenas coisas que nos fazem felizes. Quero passear mais vezes à beira mar. Correr na areia. Andar de bicicleta! Estar com os amigos que adoro (mesmo sem saber explicar). Dizer-lhes o quanto gosto deles. Salvar animais em apuros e rir. ai ai, ao menos que o sol brilhe!

«O que é que aprendeste hoje?» «não deixar nada para amanhã... amanhã é longe de mais»

If I was a flower growing wild and free

All I'd want is you to be my sweet honey bee.

And if I was a tree growing tall and greeen

All I'd want is you to shade me and be my leaves

All I want is you, will you be my bride

Take me by the hand and stand by my side

All I want is you, will you stay with me?

Hold me in your arms and sway me like the sea.

If you were a river in the mountains tall,

The rumble of your water would be my call.

If you were the winter, I know I'd be the snow

Just as long as you were with me, let the cold winds blow

All I want is you, will you be my bride

Take me by the hand and stand by my side

All I want is you, will you stay with me?

Hold me in your arms and sway me like the sea.

If you were a wink, I'd be a nod

If you were a seed, well I'd be a pod.

If you were the floor, I'd wanna be the rug

And if you were a kiss, I know I'd be a hug

All I want is you, will you be my bride

Take me by the hand and stand by my side

All I want is you, will you stay with me?

Hold me in your arms and sway me like the sea.

If you were the wood, I'd be the fire.

If you were the love, I'd be the desire.

If you were a castle, I'd be your moat,

And if you were an ocean, I'd learn to float.

All I want is you, will you be my bride

Take me by the hand and stand by my side

All I want is you, will you stay with me?

Hold me in your arms and sway me like the sea.

Miss Modern Girl

Qual é o teu maior sonho? O que faz de ti uma rapariga diferente?

(levantando-se, puxando a pequena mini saia para baixo)

Sou feliz!

exercício 1 de dia 9-4-08

Foi como se um arrepio a tivesse acordado de um estado de sonolência induzida. O que tinha feito? O que iria fazer? O que esperavam que fizesse? Era um dia enevoado, o sol cinzento atravessava com dificuldade as persianas mal fechadas. Deitada na cama pensava em tudo. Se realmente fosse possível pensar em tudo, naquele momento era o que ela estaria a fazer. Tinha-se passado muito tempo desde a última vez que ouvira a sua própria voz. As horas não passavam de números amorfos que pingavam do relógio, e como muitas coisas antes dessa, a noção do tempo também já não tinha grande importância. O piano começou a tocar, era a única coisa que ainda a fazia sorrir, as aulas de piano no apartamento ao lado. Muitas vezes se esqueciam que ali vivia uma senhora sozinha. Uma senhora de cabelos brancos e sorriso gigante. Não a tinham visto muitas vezes nos últimos tempos, mas ninguém se preocupava muito pois achavam que eram excentricidades dos oitenta. O isolamento, o afastamento social. Houve quem dissesse que na última semana da sua vida, aquela que precedeu ao arrombamento da porta da entrada, a ouviam cantar músicas em francês, dizem que ela viveu muitos anos em França, os melhores da sua vida, dizem. Talvez por isso cantasse dias antes de morrer. O que eles não sabem, é que ela o fazia para afastar o medo que tinha de estar sozinha. Foi como se um arrepio a tivesse acordado de um estado de sonolência induzida por ela própria. O que tinha feito? O que iria fazer? O que esperavam que fizesse? A rapariga que vivia no mesmo prédio nutria um carinho especial por aquela senhora de cabelo platina. Também ela haveria de morrer um dia, mas naquela tarde, apesar das nuvens cinzentas, tirou as sandálias e desceu a rua em direcção à areia dourada. Nunca mais, pensou, vou esperar por momentos assim.

A música de hoje... e nem tanto, ou sim

A new royal family A wild nobility We are the family I feel beneath the white There is a redskin suffering From centuries of taming No method in our madness Just pride about our maner Antpeople are the warriors Antmusic is the banner! And even when youre healthy And your colour schemes delight Down below thos dandy clothes Youre just a shade too white Shade too white! Shade too white! I feel beneath the white There is a redskin suffering From centuries of taming...

post nº 100

o número 100 era sempre bom. sempre que chegávamos ao 100 alguma coisa boa acontecia na nossa vida. uma festa, um prémio, uma revelação escaldante depois da nonagésima nona mensagem da noite. hoje é 100. e percebo que numa relação existem muitas velocidades, e 100 é uma boa velocidade não penses o contrário, não é isso o que quero dizer... mas os 150 faziam os meus cabelos voar, as mãos agarrarem o vento, as saias rodar... estávamos mais seguros no 150, mas depois tu resolveste desacelerar os teus sentimentos - problemas com a polícia, a apreensão da carta, as normas, as regras... mas tu davas-lhe outros nomes - aborrecimento, quotidiano... olha, eu lembro-me. nunca pensei que morrêssemos num choque frontal com uma bicicleta azul aos 100.

a história de uma rapariga fútil que não tinha vestidos

hoje eu queria comprar um vestido. não comprei, alguém se adiantou e quando olhei ele já não estava lá. eu queria muito aquele vestido. aliás, eu queria um vestido qualquer, mas alguém levou todos os vestidos do mundo para casa e agora... agora eu tenho de fazer uma viagem ao outro lado do mundo só para comprar a M*RD* de um vestido para ficar contente. Contente? Crap...

Memórias de um vestido verde.

Tenho saudades tuas. Daquelas que não se poderão explicar jamais por serem tão estranhas. E eu sou pequena e não sei bem o que é isso de saudade, mas dizem que é sentir falta, relembrar e sorrir. Tenho saudades tuas. Dantes, eu guardava-me dentro de um guarda-fatos pequenino com uns puxadores muito redondos, sabes, foram feitos para tu os abrires quando quisesses, mas tu nunca quiseste e agora eu já não respiro, morri fechada dentro desse armário que criei só para ti. Porque gostava de ti. Ainda gosto, mas agora já não respiro, tiraram-me de dentro desse armário e colocaram-me dentro de uma caixa de cartão cheia de outras coisas minhas. Olha, até as cartas que não te escrevi estão aqui. Os sorrisos e as mãos que te queria dar. Gostava de mãos, sabias? Dos dedos entrelaçados, do silêncio. Às vezes ainda sonho contigo. Sorris para mim, damos as mãos e vamos descalços com os pés bem húmidos sobre uma relva tão branca tão branca que parece feita do céu, sabes, daquele céu que agora quase que não me lembro, aquele, aquele muito céu!? Penso em ti, e sei que estou longe, quem sabe a navegar em direcção ao continente Africano para servir de alento aos refugiados, aos que não têm nada. Eu agora também tenho muito pouco. Só algumas cartas e esta caixa. Começo a gostar. Sinto o cheiro a água salgada e a terra molhada, devo estar a chegar a qualquer lugar. Mas penso muito nesse armário só teu que agora ficou para trás, não sei o que foi feito dele, mas penso muito nos puxadores. As minhas memórias têm fios que se prendem a ti. Ainda bem que não sou feita de lã, ou seria um novelo perdido tentando voltar atrás e ser aquela que te esperava, todas as noites, espreitando pelo buraco da fechadura. Ah... como me fazes falta. Espero que alguma menina, de cabelo encaracolado, da cor do chocolate me transforme numa boneca de trapos e me ame, como eu queria que o tivesses feito.

analogias

- Porque não sorris mais, homem?
- Sorrir pra quê? Os dentes já não me permitem essas aventuras.

Do lado de dentro do espelho.

"Não existes. Tudo o que existe em ti é o reflexo de outro. És eu e todos. Absorves e projectas somente aquilo que te mostram. És oco. Mentiroso. Não existes." E foi assim que o espelho se fechou para sempre e ninguém o voltou a atravessar.

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos Para que a sua espinha fosse tão direita E ela usasse a cabeça tão erguida Com uma tão simples claridade sobre a testa Foram necessárias sucessivas gerações de escravos De corpo dobrado e grossas mãos pacientes Servindo sucessivas gerações de príncipes Ainda um pouco toscos e grosseiros Ávidos cruéis e fraudulentos Foi um imenso desperdiçar de gente Para que ela fosse aquela perfeição Solitária exilada sem destino
Sophia de Mello Breyner Andresen
Queria beber. Beber até não poder aguentar mais e cair inerte sobre a relva húmida. Correu sem parar até que o sol começou a nascer do lado de lá do lago. Extasiada com o espectáculo, podia jurar que se ali morresse para sempre, não se importaria.

Pre - Post Mortum Letter

"Eu quero escrever um livro". Acordou com essa ideia tresloucada, a ideia de construir casas com palavras em vez de usar as peças azuis do lego, peças essas que haviam sido as suas favoritas desde sempre. Comprou um bloco de folhas branco e uma caneta azul, e foi sentar-se num banco de jardim à espera de se sentir inspirado. Para ele a inspiração era um acto divino, um momento de magia em que qualquer pessoa se sentiria iluminada e capaz de criar coisas fantásticas. Mal ele imaginava que também Carina, a prostituta mais famosa da casa da Gina, se sentira inspirada certa vez ao desabotoar os botões das calças do seu primeiro namorado, aos 14 anos, e que depois desse momento sentiu que havia muitas outras que gostaria de desabotoar. A vida tem muitos mistérios difíceis de desvendar, especialmente para os pais da Carina que a expulsaram de casa quando souberam que aquele novo par de jeans havia sido oferecido em troca de caricias. Sebastião esperou naquela tarde, sentado no banco pela vontade de escrever. Para ele, era a última oportunidade de se sentir útil aos 13 anos. O sol estava quente, as pessoas caminhavam de cá para lá, aproveitando aquele dia acolhedor. Nada acontecia. Desanimado, mas terrivelmente decidido, deixou no banco o seu bloco e caneta novos e dirigiu-se ao mar. Naquele momento, Sebastião tinha somente uma vontade, enfrentar o medo da água que o acompanhava desde os 4 anos, e afogar-se no pontão norte. Três horas depois Sebastião era dado como desaparecido. Três dias depois foi encontrado na praia, como uma garrafa de náufrago vazia.

Post Mortum Letter

Mãe, Pai Decidi acabar com a minha vida, no momento em que percebi que os dias de sol já nada podiam fazer por mim. O vosso filho Sebastião

.

"Onde queres ir hoje? Levo-te a qualquer lugar, escolhe!"
"Hoje? Logo hoje que não queria ir a lugar nenhum."

.

- O que é? O que é? O que foi?
- Nada.

E foi assim que eu nunca fiquei a saber.

I need your love like the sunshine...

Era uma frase solta na parede de cimento que tapava a fachada da antiga tasca do Albino. Ela descia aquela rua desde que se lembra de ter reparado que o sol era uma bola lá no alto e não uma lâmpada igual à da cozinha da avó Alice. Estava mais murcha, como uma alface nas tardes de Verão alentejano. O mundo havia-lhe roubado o punhado de sonhos que tinha, e sonhar novamente era coisa que tinha deixado de fazer, "já és uma mulherzinha, deixa-te dessas coisas". Ela não acreditava nisso, mas com o tempo pareceu-lhe que suportaria melhor o fardo de estar viva, se realmente se convencesse a si mesma que já não podia sonhar mais. Trabalhava na retrosaria da D. Maria, pobre da senhora, viuvá e sem filhos com 6 dioptrias em cada olho, já não podia contar os botões ou ver bem os metros de fita que vendia. Contratou a rapariga mas contrariada, não gostava de ter despesas. A rapariga, no entanto, gostava de trabalhar lá. Gostava dos armários brancos e altos, cheios de caixinhas mágicas com coisas lindíssimas de tempos que nem lembra ao diabo. Só não gostava quando a D. Maria resolvia lá passar as tardes, tinha de andar escadote acima escadote abaixo a mudar caixas, a limpar armários sem pó que a D. Maria insistia não estarem bem limpos, apesar de já quase nem conseguir ver a cor do cabelo da rapariga. Gostava do quotidiano da loja, davam-lhe uma certa paz no coração. Tinha freguesas fixas que se iam abrindo aos poucos com ela, contando-lhe histórias da sua diminuta intimidade, da sua longínqua juventude, longínquos amores. Ela gostava de as ouvir, sentia que todas aquelas histórias agora também faziam parte dela, e se as contasse a alguém, um dia, como de as tivesse vivido de facto, não ia sentir que estava a mentir - dentro de si, a vida daquelas pessoas que a visitavam durante as tardes de Outono, era a sua própria vida. Gostava especialmente das tardes de sábado. Fechava a retrosaria por volta da hora de almoço, vestia o seu casaco vermelho, colocava o chapéu, e descia a rua de pescoço esticado, gostava de ver tudo como se fosse aquela a primeira vez que passeava por Lisboa. Depois fazia a sua visita habitual ao Adamastor. Adamastor era um rapaz Italiano com compridíssimas barbas, enormes sobrancelhas e um cabelo impressionantemente emaranhado que costumava tocar guitarra junto à estátua do Adamastor, e ela, todos os sábados, depois do seu trabalho, o visitava. Levava consigo duas cervejas que comprava pelo caminho e umas sandes que inventava de manhã. "O que vai ser hoje?", perguntava-lhe ao vê-la descer os degraus, "Please set me free...". E nos intervalos dos golos de cerveja trauteavam a letra, entre lágrimas e gargalhadas. Tempos depois, já a D. Maria tinha sido enterrada no Cemitério dos Prazeres no jazigo que fora dos seus pais e avós, a rapariga desapareceu. Dentro de um pequeno envelope que encontraram, lia-se a letra de uma música escrita num guardanapo de tasca... ninguém se lembra que música era aquela, mas falava de sonhos e mundos onde se podia viajar sempre de comboio. Ao Adamastor, nunca mais ninguém o viu. Cá para mim, ela perdeu o medo e finalmente passou o Cabo da Boa Esperança.

Aula de dança escrita

"Um dia desses vou roubar-te. Vou aparecer como no antigamente com os meus grandes sorrisos e os meus copos coloridos cheios de bebidas tropicais e vou levar-te comigo por esse mundo fora. Um dia, quando menos esperares, estás nos meus braços, e o que te vai deixar mais surpreendido é que vais gostar."

confusões

Tenho frio, disse ela abraçando o seu fino corpo com aqueles braços compridos, tão compridos que pareciam de mais para ela.

Never mind...

Nunca mais se haveriam de beijar como naquela noite. Há coisas que acontecem numa fracção de segundo para depois serem esquecidas ou guardadas numa das muitas caixas da memória, uma imagem sem nome. Era isso que ela era. Aquela memória sem nome que aos 83 anos ele recordou ao acordar sobressaltado às 4 da manhã. Tornara-se um hábito aquele sonho, aquele sonho projectado de dentro de si, sonho que fazia parte de um pedaço de vida que lhe queria dizer alguma coisa, mas ele não se lembrava. De à dois anos para cá, esquecia-se até do nome das cores, qual das portas era a da casa de banho, o que era a vontade de fazer "chichi", o que era uma pêra. Mas aquele sonho acordava-o todas as noites, aquele beijo suspenso, aquela fotografia mental de uma mulher que ele não conseguia recordar por muita ginástica que fizesse. Voltou a colocar um pontinho no pedaço de folha azul onde ia registando a frequência daqueles misteriosos sonhos. Um dia, em que o sono lhe fugiu para sempre, esboçou a lápis aquele momento que tantas vezes lhe aparecia no sonho. Dois dias depois morria, vitima de uma queda enquanto tentava encontrar as escadas para o jardim, estava no 10 andar e pela primeira vez não soube o que eram as distancias. Alice, enfermeira estagiária guardava dentro de um grande saco azul de plástico os últimos pertences do senhor Eurico quando encontrou o papel azul. Naquele momento o mundo parou de girar, algures no coração daquela rapariga cinzenta alguma coisa estranha acontecia. Por momentos, julgou rever-se a si mesma e ao seu amante, médico casado e com filhos, naquele pequeno papel azul, ela e o seu amante naquela noite em que ambos se despiram sem pudores e se fornicaram a noite inteira enquanto os velhos do asilo gemiam de dores do reumático. Desfez o papel em bocados e guardou-o na bata. Ainda bem que o velho morreu, suspirou.

Tarde de mais...

Só depois, enquanto limpava a pequena faca de cortar legumes, se deu conta das muitas coisas que gostava nela, eram os seus cabelos a voar ao vento o que lhe iria fazer mais falta. Quando o juiz lhe perguntou o porquê daquele acto atroz ele respondeu seguro, remexendo nas mãos a pequena boina, única recordação sobrevivente ao incêndio, que ele jamais poderia ser o homem que ela gostaria que ele fosse, e para não a matar à pancada um dia desses em que bebesse pinga a mais, ou dar-lhe algum desgosto, matando-se com a corda dos bois, resolveu degolá-la, no 13 aniversário de casamento.Eu gostava muito da minha Alzira, senhor doutor juiz, dizia, mas eu não queria mais aquela vida.

o tiro certeiro

Meu filho, gritou a mãe ao vê-lo chegar com a camisa rasgada, sangrando. Não se aflija minha mãe, disse-lhe o filho já nos seus braços, é só um coração.

exercício 1 de dia 25-2-08

Acordou mais cedo, naquela específica manhã de Inverno. Não sabia bem porque escolhera aquela manhã, era preciso, pensava. Vestiu-se com a calma do costume, não tinha pressa. Escolheu um chapéu ao acaso e saiu sem fechar a porta. O dia estava fresco, fresco mas quente, os raios de sol despoletavam um pequeno confronto com aquela manhã de Inverno. Caminhou sem prestar especial atenção aos buracos acidentais da calçada, sem reparar nas montras encardidas, sem ver as velhinhas que alimentam os gatos das redondezas com deliciosos gaspachos que cozinham só para eles. Subiu a rua sem nunca abrandar o passo. Gostaria até de ter o vigor de antes nas pernas moles. Olhou o relógio. Estava quase na hora, receava que não chegasse a tempo. Já conseguia ver a estação. Ainda tinha 5 min para descansar daquela euforia matinal quando chegou. Olhou à volta. Sim, era um bom dia aquele. Por cima dos edifícios pode ainda admirar o mar e alguns navios perdidos. O apito do comboio não tardou a fezer-se ouvir ao longe, estou a chegar, gritava. Estava na hora, e se as suas pernas não lhe falhassem, como já havia acontecido noutras alturas, ia conseguir. Naquele segundo, aquele que nunca ninguém consegue explicar bem, onde tudo parece acontecer lentamente, Maria Adelaide Ferreira, nascida em Linhares a 1942, atirava-se sorridente para a linha do comboio que fazia a ligação entre duas insignificantes cidades vizinhas. Naquele segundo, aquele que nunca ninguém explicou, Maria Adelaide realiza um sonho infantil - o de fazer com que as pessoas vivam um dia, um pouco diferente de tantos outros. A 25 de Janeiro, 458 pessoas faltaram ao trabalho por causa da linha estar cortada. Há quem diga que era louca. Há quem diga que sorria.

Texto 1 de 1000 que irão ser escritos em diferentes fases da minha vida

Sentou-se no bar. As mãos tapando o rosto. A agonia de mais um dia naquelas mãos. O barman olha-a. Limpa um copo com paciência, pergunta-lhe o que vai ser e ela atira-lhe "cheio". Whisky. Ela não gosta de whisky, fá-la sentir agoniada. Bebe. Precisa sentir algo forte. Resumindo, precisa sentir qualquer coisa para além das suas duas mãos frias. O copo fica vazio. Pede outro. Não sabe porque está a beber. Acha que é por estar triste. Ela não se sente triste, na realidade seria bem mais fácil se ao menos pudesse saber com exactidão que raio de tumulto é aquele que atravessa. Olha à volta. Um par de velhos olha intrepidamente um jogo de futebol, trocam comentários sem nunca desviarem o olhar. De vez enquando o barman para de esfregar os copos com o seu farrapo para ficar a admirar o ecran fluorescente. Abana com a cabeça quando discorda com alguma coisa. "Mais um?" pergunta-lhe o homem ao ver o copo novamente vazio. Só a conta. Quer sair dali, precisa caminhar durante um bocado, caminhar destila-lhe o furor de mais um dia vazio de nadas absurdos e sem sentido. Sai do café, a pergunta que lhe aparece na cabeça irrita-a "esquerda ou direita?", está-se a foder se é para a esquerda ou direita. Acaba por ir para a direita, a rua é a descer e vai em direcção ao mar. Ao rio, já não se lembra do que é aquilo, que cidade é, qual o nome. Lembra-se vagamente de ter ouvido falar de outros lugares no mundo. Hoje? Hoje é só um dia para não ser, e na realidade, ela não acredita mais nisso.

I want you, I want you so bad

Encostado a uma esquina sombria, chupava uma beata apagada que encontrara no bolso. Esperava por ela desde as sete. De vez enquando espreitava os ponteiros do relógio, e estes insistiam em dizer-lhe que ela se atrasava uma vez mais. Ia espreitando para a rua da esquerda para ver se sentia o seu cheiro intenso a fruta silvestre, mas não sentia nada, e os nervos iam corroendo aquela alma empedernida de romântico incurável. Sentou-se uma vez mais nos degraus da Rua Almirante Reis e acendeu de novo a beata morta. Pensava nela, nas coxas redondas, o seu decote redondo que mostrava sempre mais do que devia. Desejava-a. De uma das janelas abertas, uma música incendiava-o ainda mais, como se isso fosse humanamente possível pensou. "I want you, I want you so bad..."

histórias que nunca foram escritas ou inventadas - do livro que nunca vou escrever

O homem tremia de frio. A neve cobria-lhe os pés, estava ali à muitas horas, semi nu, com uns trapos rotos, de pé, encolhido como uma criança crescida. Das longas barbas pendiam pequenos cristais, o bafo da sua boca era o que ainda ia mantendo quente o seu nariz. As mãos apertavam-se a si mesmas na esperança remota de se conseguirem aquecer, os joelhos fraquejavem, todo ele parecia desfalecer. Como foi ali parar, perguntava no forno da sua mente, como chegara ali? Quem o trouxera? Fora ele a pedir? Um homem fardado aproxima-se, parece ser militar. Traz nas mãos uma caneca fumegante. «Do nosso Capitão», e entrega a chávena que cheira intensamente a café ao prisioneiro que ali passara a manhã inteira à espera do fuzilamento. Ah... lembrava-se, era prisioneiro, e deveria morrer nessa manhã, mas por motivos que ainda desconhecia, a sua morte havia sido adiada para a tarde desse mesmo dia. E ali ficara, de pé, junto ao muro, semi e no meio da neve, à espera. Agradece com um suave abano de cabeça e segura na chávena quente - uma fogueira. O militar afasta-se apertando o casaco. Ele fica a olhá-lo do seu pelouro de insignificância, não percebe destes amores. Leva a chávena aos lábios e pensa que não poderá haver no mundo inteiro nada melhor que o cheiro, o ou o sabor a café... Tão puro, tão forte, inebriante. O calor dói-lhe nos ossos. Fecha os olhos e deixa-se adormecer nas lembranças que aquela chávena branca lhe aquece no coração. Lembra-se de quando era novo. A mãe fervendo água para o chá, a janela do seu quarto quando foi viver para Paris aos 19. O cheiro da primeira mulher. O calor da mão do seu grande amor. O barulho do mar a ser cortado por cascos de navios selvagens, os voos picados das gaivotas famintas. O barulho das rochas ao serem trepadas. O seu primeiro poema. Uma vida, pensou o velho olhando o céu leitoso que se despedia dele atirando-lhe gotas de gelo. Uma vida que se apagaria para sempre naquela tarde, um rascunho que desapareceria para todo o sempre com ele. Não é estranho que a vida se apague assim? Que sejamos a nossa própria biografia e que jamais a possamos partilhar? Quem me ouviria, pensou naquele delírio de café. Histórias de um homem senil que envelheceu como milhares de outros, que nada construiu que o mundo tivesse dado conta. Bebe mais um golo e sorri para a árvore vazia que o observa do lado de lá do pátio. Talvez a vida seja aquilo, uma chávena de café minutos antes de se morrer para sempre. Um velho feliz sorri agora, segura entre as mãos uma chávena de café vazia. Quando os tiros se ouvem, no final desse dia, um navio atravessa o horizonte como numa despedida triste.