Birra de Sono - para si, servido com batatinhas e arroz branco a acompanhar

Não, não estou com sono. E não, também não estou a fazer birra. Ou talvez esteja, na realidade não sei mais o que é sono e birra, crescer faz com que certas coisas deixem de existir... à quanto tempo não me acusam de ter uma birra de sono? Tenho saudades.
Para si, senhor das coisas fantásticas, das coisas fantásticas que devem ser em quantidade e não em qualidade (tau tau para si que pensa assim).
Ora, não é que o tema que sugeriu seja mau, é até bastante interessante, é daqueles que nos deixa divagar (a realidade é que não há uma resposta directa e concisa para a pergunta que me fez - pergunta ou pedido, podem ser ambos, um dentro do outro).
(Não, não foi nenhum pedido de casamento, e não, o texto que supostamente eu deveria escrever - uma página, não era, tamanho 8? - ora, não a página, o tamanho do texto... uffa, adiante)
A realidade é que não escrevi nem uma linha sobre esse tema... porquê? Porquê satisfazer assim um capricho estranho e sem qualidade?
"Sem qualidade?", diz o senhor levantando o sobrolho muito irritado com esta conversa toda, pois, é mesmo sem qualidade.
E agora chegue-se para lá que chegou a minha vez de falar das coisas que eu quero falar.
Que pode muito bem ser sobre nada.
Nada, é bom, é sinal que estamos a pensar em muitas coisas, tantas que essas coisas turvam a nossa mente de tal maneira que mais parece que estamos numa luta de lama (eu e uma chinesa? Que seja.), e então ficamos a um canto sem nada para dizer de interessante.
Isso é crime?
Diga-me, senhor da verdade absoluta?
Tome lá para si, um rebuçado de menta para lhe adoçar e boca.
E agora?
Agora deite-se e durma, eu estou com birra de sono.

Nostalgia ou queda na realidade?!...

Sweet eighteen... às vezes, às vezes parece que estou tão... "grande" (velha?!)...

há dias assim... e assado

É engraçado despertar.
Reparar em todos aqueles pequenos detalhes que nos escaparam durante toda uma vida, como se finalmente tivéssemos acordado, percebido e observado pela primeira vez a cor das folhas de Outono. Há dias em que gostaria não sentir. Passar o dia sonambulando e não sentir culpa nisso. Gostava de ler um livro. Não que não o possa fazer, claro que sim, há tanto livro por aí, perdido... mas queria ler um livro daqueles que nos absorvem totalmente para dentro de si, e ficar assim, quente e dobrada na barriga de um qualquer livro que me fizesse sonhar muito nestes dias de frio. Um livro que tivesse grandes fogueiras e salões de chá.
Mas livros assim só existem dentro da minha cabeça, e são muito difíceis de tirar para fora (demasiado quadrados para serem livros).
Talvez devesse escrever sobre os livros quadrados que são colocados fora da prateleira por não ficarem bonitos...

Inexistência

Acordei. Acordei com um medo terrível de falhar. Um medo gritante e estridente, aquele medo de não alcançar nenhuma das metas que sonhei para mim. Preciso conseguir respirar com mais calma, não perder a esperança de que afinal o sol ainda vai brilhar por alguns dias. Pensar que serei capaz - não, pensar que eu sou capaz! Pensar que afinal o sonho é um exercício normal dentro de nós, não devemos suprimi-lo. Porque me impediram de ser grande, porque me disseram que não deviamos ser ousados? Que faço agora? Como desamarrar esses nós cegos que foram sendo feitos por tantas mãos? Aquela peça de teatro despertou em mim o medo da medíocridade, o medo da não existência por ignorancia? Estarei eu a ignorar o facto de que não existo? Existo? Onde? Quando? Em que momento preciso eu existi de facto? Mostrem-mo! E os olhos vão ficando pequeninos de vergonha... vergonha por não me esforçar. Vergonha por tantas vezes ter fechado as mãos aos sentimentos mais simples. Zangada comigo. Zangada, não sei por quanto tempo.

so good... soooo goooood!

Será pedir muito? Rir mais vezes? Sorrir durante mais segundos? Olhar mais fundo nos olhos das pessoas com quem me cruzo? Inventar histórias absurdas sobre todas as coisas em que tropeço? Salvar mais e mais objectos pessoais que encontro na rua? Tentar encontrar-me numa cidade gigantesca, da qual só conheço duas ruas? Tomar café numa mesa com uma só cadeira? Roubar um pouco mais de tempo para poder sonhar sem ter que pensar no futuro? Andar de baloiço até tocar na lua com a ponta o meu dedo? Comer tarde de maça e beber um chá com os amigos do Pólo Norte? Voltar a levantar o copo e dizer "a nos"? Ter menos sono? Ter vontade de pintar as unhas dos pés? Poder fazer tudo mas não fazer nada porque não me apetece? Fazer livros para os outros escreverem? Será pedir muito viver um bocadinho mais?

para quê?

Era bom voltar a percorrer ruas antigas, caminhar rumo ao horizonte sem nunca olhar para trás, para todos aqueles lugares que se vão desmoronando com a distância a que o tempo os vai colocando do coração. A vida não é feita de metros ou quilómetros, não são essas medidas que separam as pessoas. Poderíamos atar uma pequena fita vermelha ao nosso dedo mindinho (como aquelas que se atam quando não queremos esquecer algo importante), eu ato uma ponto do fio ao meu dedo e tu a outra ponta no teu dedo. e íamos por aí, sabendo onde nos encontrarmos. Estaríamos à distancia de um toque de fio, e tu? Do outro lado.

lágrimas de crocodilo


Listen to the girl
As she takes on half the world
Moving up and so alive
In her honey dripping beehive
Beehive
It's good, so good, it's so good
So good
Walking back to you
Is the hardest thing that
I can do
That I can do for you
For you
I'll be your plastic toy
I'll be your plastic toy
For you
Eating up the scum
Is the hardest thing for
Me to do
Just like honey
("Just Like Honey")
por vezes gostava de ter um Bob Harris a sussurar-me ao ouvido as palavras mágicas capazes de mudar vidas, capazes de eriçar pelos à muito adormecidos pelo sonambulismo "cuotidianico".
palavras que roubam sorrisos molhados por aquelas lágrimas pequeninas a que apelidam de crocodilo! quem sabe... I guess... I guess I'm not hopeless. yeah...
talvez beba chá e espere que o sono me apanhe.

Porque é que é tão difícil escolher o que queremos ser?

Lembro-me que quando era mais pequenina achava tudo fácil e simples, e crescer era a coisa mais natural da vida, crescer era poder escolher! Quero ser mil coisas todos os dias... Queria ser pequenina só mais uma vez!

o fenómeno dos cometas-leões (?)

Era uma vez... duas montanhas.
Eram umas montanhas bem especiais aquelas. Eram tão altas que lá de cima só se viam nuvens brancas e pássaros a voar. Eram tão altas, tão altas que ninguém sabia que elas existiam, ficavam mascaradas no azul do céu e só alguns as conseguiam ver, mas julgando-se a sonhar, não acreditavam que pudessem existir montanhas tão grandes.


MONTANHA 1 - OU O MAR

A Montanha 1 era tão alta que ninguém sabia bem que ela existia. Estava quase sempre camuflada de gordas e grandes nuvens brancas que a abraçavam sempre. Na Montanha 1 vivia um menino muito pequenino com umas mãos muito muito grandes.

Mãos como nunca se tinha visto.

Este menino vivia numa casinha e tinha um jardim grande cheio de estranhas plantas marinhas e pequenas árvores azuis.
Todos os dias (talvez como outro menino num planeta distante chamado B qualquer coisa...), todos os dias ele se levantava cedo para cuidar do seu jardim. E era um jardim muito especial. Um jardim cheio de golfinhos e estrelas do mar, baleias e peixes-gato, e tantos outros bichos-plantas que era de pasmar aqueles que nunca tinham visto lugar igual. Todos os dias os regava, tapava do sol, protegia do frio, do vento... E assim vivia contente desde sempre no topo da sua grande montanha.

No entanto, notavam-se estanhas alterações no seu estado de espírito nos últimos tempos... Queria mais qualquer coisa, o topo daquela montanha parecia ser-lhe pequeno para tamanhas mãos, mãos, que a seu ver teriam de servir para mais coisas além de regar e tratar plantas.

Estava mais triste o menino, mais distraído, suspirava - quem sabe - por encontrar alguém que precisasse de mãos grandes assim.




MONTANHA 2 - OU A MONTANHA
A Montanha 2 era tão alta que ninguém sabia bem que ela existia. Era grande e escarpada, cheia de ervas rasteiras de flores brancas. Flores tão brancas que pareciam algodão das nuvens.

Na Montanha 2 vivia uma menina muito pequenina com uns olhos muito grandes. Olhos como nunca se tinha visto. Todos os dias ela se levantava cedo para observar o horizonte. E bem via lá ao longe cores diferentes, pássaros que nunca vira antes, estrelas e planetas, e de quando em vez lá podia plantar um cometa.

Ela gostava de cometas, podia soprar-lhes e eles voavam alto deixando uma cortina de sonhos atrás de si. Mas o que mais gostava neles era a capacidade de voarem para lá da sua montanha, poderem ver outras coisas, serem livres de planarem céu fora.
E assim vivia contente no topo da sua grande montanha.

No entanto, notavam-se estanhas alterações no seu estado de espírito nos últimos tempos... Queria mais qualquer coisa, o topo daquela montanha parecia ser-lhe pequeno para tamanhos olhos. Olhos, que a seu ver teriam de servir para mais coisas além de observar nuvens e planetas.


O FENÓMENO DOS COMETAS-LEÕES - OU O ENCONTRO


Um dia, um estranho cometa aterrou na Montanha 2. Era mais pequeno que todos os outros que ela já vira, mais fofo, macio, semi-trasparente - frágil. Subitamente, uma comichão inesperada na narina esquerda fá-la espirrar. Deu-se um "Atchim" tão grande que o pequeno e frágil cometa se evaporou em mil pedaços voadores que se espalharam toda a parte. Triste, e sem perceber o que era aquilo, continuou a fazer o que habitualmente fazia, tentando esquecer a comichão na barriga que aquele novo e estranho cometa lhe proporcionara.

Tempo depois, começaram a crescer por toda a parte pequenas plantas verdes, e de um momento para o outro, toda a montanha se cobrira de pequenos cometas fofos. Mas eram tantos, tantos que um estranho fenómeno se desenrolou. Estes cometas começaram a criar um estranho efeito na Montanha 2. As nuvens, por causa deles, começavam a afastar-se lentamente, dando à menina a oportunidade de ver coisas que nunca vira.


A DESCOBERTA - OU O ENCONTRO


Um estranho fenómeno abatera-se na Montanha 1. As nuvens haviam começado a migrar. O menino não percebia, tentou demove-las, tentou perceber se elas estavam zangadas com ele, pediu desculpa, chorou quando elas se despediram. E sem ele se aperceber, um pedaço da Montanha 2 surge no horizonte.
O que poderia ser aquilo?
Ele mal podia conter a excitação que aquele momento lhe estava a causar. Era uma montanha igual à dele, e tão perto, era tão perto que se esticasse a mão poderia tocar no cume dessa montanha.

E foi então que a viu. Não a montanha, a menina!

Estranho momento aquele. Ela era como ele, pequenina, tinha duas pernas e dois braços, umas mãos pequeninas, que ele nem sabia ser possível existir mãos como aquelas, tinha cabelos grandes, tinha nariz... e uns olhos gigantescos!
Olhos como ele nunca vira.

Ficaram a observar-se durante alguns momentos. Ela sorridente, corada, feliz por finalmente poder ver coisas que nunca vira, e era tão bom!
Ele estupefacto, semi-alegre, semi-triste, ele não sabia bem.

«és como eu! estou tão contente

nunca tinha visto nada igual! Mas...

estás triste?»

Perguntou-lhe a menina.

«Sim»

«Porquê?»

«Porque eu pensava que quando encontrasse alguém

esse alguém seria igual a mim, ou pelo menos parecido...

tu és estranha, tens esses olhos... tenho medo de ti, és feia.

Eu queria encontrar alguém como eles»

Disse esticando a mão para uma qualquer cidade lá em baixo.

A menina ficou em silêncio, estupefacta.

Aquelas palavras magoavam-na. Não esperava que as coisas sem as suas nuvens fossem assim. Por momentos quis que tudo voltasse a ser como antes, que aqueles cometas estranhos não tivessem crescido na sua montanha e não tivessem empurrado as nuvens para longe.
O que era o medo? O que quereria dizer feia?

«Talvez devesses descer a montanha então»

E ele assim fez.


Fermez vous les yeux - ou "Faites de beaux rêves"

A menina continuou a viver na Montanha 2. A menina não deixou de fazer as coisas que fazia, tentava no entanto não pensar no menino da Montanha 1. As nuvens acabaram por voltar, depois de todos os cometas-leões terem explodido. A única coisa que mudara, é que sonhava com mais frequência. Sonhava com aquele menino estranho que tão cruel fora com ela. Sonhava que quando ela tinha frio, se deitava nas suas gigantescas mãos e sonhava com coisas boas.

Nunca mais se voltaram a encontrar.

Mas há quem diga que o menino da Montanha 1, depois de ter chegado à cidade, percebeu que de todas as pessoas à sua volta, aquela menina da Montanha 2 era a mais bonita.
Arrependeu-se das coisas que lhe havia dito. Dizem que ainda hoje ele tenta encontrar a Montanha 2 para lhe pedir desculpa, para lhe dizer que finalmente sabe para que servem as suas gigantescas mãos - para abraçar.
Não desiste, e todos os Outonos sopra com força dentes de leão ao sabor do vento na esperança que um lhe mostre o caminho da felicidade.

FIM

in a kind of storywriter mood

the untitled tale

1º CASO
Havia uma rapariga, cujo nome ninguém sabia.
Era uma rapariga como qualquer outra, provavelmente tinha um nome banal como outras tantas como ela, um nome próprio bastante comum - uma rapariguita qualquer.

Nem muito alta, nem muito gorda.
Nem feia, nem bonita.

Não era ruiva nem morena.

A única coisa diferente que essa rapariga tinha, agora me lembro, eram os olhos. Que olhos!
Eram uns olhos diferentes.

Maiores.
Mais luminosos, mais da cor do sol que outra coisa que exista na terra.
Eram daquela cor que só conseguimos encontrar quando o sol se põe bem lá depois das ultimas nuvens, bem lá depois da última gota de mar que vemos no horizonte.

Ninguém sabia que essa rapariga existia.

Tal como ninguém sabe que muitas outras raparigas existem, mas esta era ainda mais especial nesse sentido, porque não tinha família alguma e também não se lhe conheciam amigos, e ao que parece, as pessoas tinham tendencia para se esquer com terrível facilidade que ela existia.

O senhor da mercearia nunca se lembrava dela, embora a visse todos os dias a comprar o habitual - uma maçã verde e outra vermelha.

Os vizinhos esqueciam-se quase sempre dela, julgavam até que a casa não estava ocupada, havendo muitas confusões associadas.

Era como se esta rapariga não existisse para ninguém se não para ela mesma.


2º CASO
Aquele palhaço, estranho o Palhaço.

Ele tinha sido um dos maiores artistas circenses de que há memória. Os seus truques alegres eram a maravilha de tanta gente, a sua roupa surreal de belos losangulos, as suas histórias sempre tão reais, os seus improvisos, a sua exagerada teatralidade, a sua comoção, o seu sofrimento ensaiado, a sua entrega ao público... "um génio", diziam-lhe.

Toda a gente o queria ver. Os bilhetes esgotavam-se numa questão de horas, e era amado por muitos por este mundo fora.

Com o passar do tempo, no entanto, tornou-se mais soturno, as suas histórias mais reais, mais próximas daqueles que o iam ver, que o iam ouvir. Tão próximas, que muitos se comoviam ao ver as suas vidas representadas num tapete de lona, numa tenda suja de circo.

Aquele palhaço, estranho o Palhaço.

Um que sabe com detalhe a vida de cada um de nós. Um Palhaço que nos observa e representa na perfeição - todos os nossos movimentos, os nossos tiques, que mima detalhadamente os nossos maiores medos, as nossas tristezas mais tristes. Não tardou a ser despedido e por muitos esquecido.

Aquele palhaço, estranho Palhaço aquele.

Desolado, só e mal amado, deu por si numa rua escura a representar para o passeio.
O seu chapéu, outrora lustroso, está agora na laje fria esperando as caricias de algumas moedas atiradas a medo e à distância, uma moeda que lhe pede silêncio.

Conta ainda histórias que são demasiado parecidas com a minha e com a tua vida, e todos lhe fogem, todos tentam não escutar da sua boca a história da vida que não queremos ter.

1º CASO + 2º CASO = 3º CASO
Um dia, sem qualquer aviso, sem ninguém prever que tal fosse acontecer, essa rapariga cruzou-se com esse Palhaço, em mais um daqueles estranhos eventos a que podemos apelidar de coincidência.

"Para onde ia ela?", é a pergunta sem resposta que muitos fazem. Na realidade ninguém sabe ao certo, e poucos se lembram de a ver nesse dia.

O que é certo é que ela seguiu por ruas que desconhecia. Coisa que jamais fazia, não fosse ela também esquecer-se de si e do pouco que sabia da sua vida. Mas aquele dia pedia mudanças extremas na rotina, e ela cedeu a esse ímpeto infantil - contrariar aquilo que lhe parecia certo.

E tudo aconteceu da seguinte forma...
Era o seu dia de folga, de um trabalho que talvez nem exista neste mundo. Era Outono. E sem saber explicar porquê, as folhas coloridas agradavam-lhe bastante. Pareciam acenar-lhe muitas "boas-vindas" lá do alto.

Depois de regar com atenção os seus 9 "vazinhos", com a mais estranha variedade de plantas que se possa imaginar, saiu de casa em direcção à mercearia, onde mais uma vez comprou as habituais maçãs e se apresentou, mas sem grandes explicações como fazia de costume, hoje o dia apressava-a para outras ruas, e não havia tempo.

Decidiu andar a pé. Deixaria os túneis do metro para dias mais banais que aquele, parecia-lhe bem assim. As árvores atiravam belas folhas carmim à sua passagem, os pombos, irrequietos faziam danças nos seus pés e os sem abrigo cumprimentavam-na ao longe com um breve movimento de cabeça. Tudo lhe parecia estranho naquele dia.
Talvez fosse a luz, mais amarela que o costume, talvez a presença das pessoas na rua.
Pessoas de caminhar apressado, de olhar vazio que se desviava das árvores, pessoas de mãos frias que empurravam levemente quem caminhava devagar.

Parecia que poucos a conseguiam ver. Talvez, somente aqueles que tinham tempo.
Andou o dia todo.
Perdeu-se por muitas ruas encontrando-se noutras que nunca tinha visto.
O sol começava a pôr-se quando decidiu parar um pouco.

Parou num banco de jardim. Um jardim pequeno, daqueles redondos, daqueles que ninguém sabe para que serve e que "mais valia ser transformado em rotunda" (alguns comentam).

Um jardim tão pequeno que tinha apenas quatro bancos, uma grande árvore no meio e uma estátua (daquelas estátuas de alguém de quem ninguém se lembra, com uma chapa em bronze com um punhado de palavras gravadas).
Comeu a maçã verde. Observou com detalhe o céu, as casas à volta, a árvore, a estátua que era afinal de uma poeta já falecida, e cujo poema dizia assim:
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

E foi então que o viu - O Palhaço. Lá longe, ao fundo da rua da esquerda.
De pé. Gesticulando e pulando para as pessoas que passavam.
Parecia contar histórias. Parecia que ninguém o queria escutar.
Parecia que como ela, não existia.

Ao vê-la aproximar-se ele baixou os braços e ficou em silencio.
Olhou-a demoradamente até ela estar próxima o suficiente para lhe ver os olhos cor de sol.
Ela sorri-lhe e pergunta-lhe.

«que tipo de espectáculo fazes tu?»
«eu conto a história sobre a vida de cada pessoa que vejo.»
«verdade? como fazes isso?»
«não sei explicar, nem eu entendo bem.
mas não é importante, não há quem queira escutar-me...»
«sabes a história de toda a gente?»
«toda»
«podes contar-me a minha?»

De dentro do seu saco retira uma maçã vermelha que estende na direcção do Palhaço.
«gostava que me contasses a minha história
mas não tenho moedas. Se aceitares esta maçã...?»

Ele aceita. Segurando com força naquela maçã que ele tanto ansiava. Pega no seu chapéu gasto e leve, coloca-o na cabeça, oferece-lhe o braço com uma grande vénia "mímica".
«sentemo-nos»
Sugeriu.
Voltaram ao jardim, agora de candeeiros acesos. Deu a primeira trinca na maçã e começou.


«Um dia, sem qualquer aviso, sem ninguém prever que tal fosse acontecer,
encontraste um Palhaço, em mais um daqueles estranhos eventos
a que podemos apelidar de coincidência.
"Para onde ia ela?", é a pergunta sem resposta que muitos fazem.
Na realidade ninguém sabe ao certo, e poucos se lembram de te ver nesse dia...»

Depois daquele estranho dia, poucos são os que se lembram daquele palhaço que costumava estar na rua da esquerda com um velho chapéu no chão. Menos são os que se recordam da rapariga. Diz-se que andam por aí, apanhando folhas do ar, saltitando, sorrindo, vivendo as pequenas coisas, atrasando os que querem andar depressa para lugar nenhum.
Diz-se que vão mudando aos poucos a vida das pessoas que se recordam deles ou da história do palhaço, que aceitou a maçã vermelha de uma menina, que até esse momento, nunca tinha existido.
FIM

Julie Doiron - Pour Mon Amour

Penses donc une deuxième fois Tu réaliseras Que sans mon corps près de toi Tu ne grandiras pas Tu penses que tu serais mieux Très très loin de moi Une fois partie tu réaliseras Que tu es seule Prends ma main, ma petite main Le vent ici est fort Et si je semble trop méchante C'est que j'ai peur de toi Penses, penses, penses une fois Tu réaliseras Que sans mon coeur près de toi Tu ne grandiras pas
tenho saudades tuas

Jogo de palavras francesas

lupa - nó - vaca - peixe *
Peguei na lupa da minha avó e pus-me a espreitar pelo buraco da fechadura. Inocentemente, pensava que assim via melhor as coisas do outro lado. Espreitei. E o que vi era bizarro: o meu avô António prendia a vaca a uma trave de madeira velha com um nó muito apertado. Depois, subiu a um banco e abriu a berguilha tirando para fora um peixe corado. Não sei como aquilo foi: a vaca a comer palha desajeitadamente e o avô pra cá e pra lá a esconder o peixe. Uma coisa eu sei: em casa dos avós não como mais peixe.
*não são palavras francesas, mas também, não interessa
se gostavas que eu escrevesse uma tontice com palavras tuas
deixa-as em comentário e eu lá escreverei qualquer "bizarria"

Got life, I got my life

Aint got no home, aint got no shoes
Aint got no money, aint got no class
Aint got no friends, no schoolin
Aint got no wear, aint got no job
Aint got no man
Aint got no father, aint got no mother
Aint got no children, aint got no
Aint got no earth, aint got no water
Aint got no ticket, aint got no token
Aint got no love

I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my tits
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex
I got my arms, I got my hands
I got my fingers, got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, got my blood

Got life , I got my life

[Nina Simone

Bonecos de Trapos - Kodamas


Foram desenhados com uma velha caneta de feltro e daí a tê-los na mão, foram apenas alguns momentos. Ainda não têm nome mas aceitam-se propostas. Gosto do nome Camila para ela... mas para ele não sei. Aguardemos!

Histórias de estranhos

Sinto uma parede dentro de mim. Uma parede que não me deixa ler as coisas que tenho dentro dos lugares mais secretos.
Tento saltar, espreitar, ter só uma pequena imagem do que há do outro lado, mas não consigo ver nada. Então sinto-me como uma actriz a representar o papel de mim mesma, papel que não sei onde me leva pois nunca sei as deixas, nunca sei quem vem a seguir para representar comigo, uma improvisação gigante onde todos participam mas onde ninguém entrega aquilo que realmente tem dentro de si - o seu verdadeiro eu.
Não quero ter cortinas nem muros a tapar aquilo que está do outro lado, mesmo que seja um monstro horrível que cresceu e come bananas enquanto me espera, calmo e plácido, para uma confrontação diante do tabuleiro de xadrez onde cada um dos peões é um bocadinho de mim cortado delicadamente para caber dentro dos quadrados.
É preciso encontrar a porta secreta, encontrar a chave secreta, a escada secreta... talvez precise somente de alguém que me ajude a trepar este incrível muro que esconde jardins (jardins certamente, pois tenho para mim que os monstros gostam de flores, e beijam-nas). Sinto-me como quando tinha uns 9/10 anos. Nunca tinha andado de bicicleta. Pensava que nunca ia puder aprender, nínguém à minha volta parecia interessado em ajudar-me a ultrapassar essa lacuna da minha infância, acreditava que ia crescer com mais uma dentada nas minhas aventuras e vivências infantis. E é quando a Maria José aparece. Uma miúda pouco mais velha que eu (chamavam-na de maria rapaz, miúda de rua, desleixada, asneirenta e impertinente - sem papas na língua) e foi ela que tratou de me preencher esse vazio infantil que muitas vezes me entristecia.
Com uma pequena e velhíssima bicicleta branca, deu-me as primeiras lições - "travas aqui, inclinas "prá li" pra virar e depois pões os pés no chão se achares que vais cair" - e lá ia ela a correr atrás de mim, com aquelas mãos pequeninas a segurar a bicicleta para eu acreditar que estava a conseguir.
Lembro-me de ter tido medo, mas confiei naquelas pequenas e trémulas mãos para me ensinarem a correr vento adentro, para nunca mais me esquecer de como se faz. Talvez precise da Maria José para trepar aquele muro. Talvez precise da sua rapidez de decisão, da sua coragem destemida de enfrentar o mundo dos adultos. Preciso vencer este muro.

a[gostos] X - o grito

O mais triste em sermos mulheres é termos de pintar por fora coisas que não somos para que gostem um bocadinho mais de nós.

a[gostos] IX- também eu tenho que aprender a existir?

Era cedo, cedo nos meus dias. O céu estava cinzento e eu não queria ouvir o mundo. Puxei de um cigarro. Na realidade não puxei, penso que puxei, puxei um cigarro e fumei-o diante de uma bica quente (a bica não existia, somente nos meus delírios e papilas gustativas). As cores não me feriam os olhos porque não havia cores, só ruas com nomes de gente. Gente que eu não conheço, nem às ruas. Admiro-me com as poucas coisas que sei... deveria aprender os nomes daquelas ruas. Eram só ruas, aquilo que são, sem grandes significados escondidos dentro delas. E depois vinham aqueles sorrisos, aqueles que nada iluminam dentro de mim, aqueles que me vão corroendo por dentro por não serem sorrisos. São bocas, bocas grotescas com dentes e batons de cores garridas, cores que não existem porque afinal o mundo está cinzento... são bocas negras que mentem sorrisos. E eu pego-lhes, todos aqueles sorrisos feios, de mãos trémulas, tentando agarrar aquele momento que é mentira e que se desfaz lento. Sorrisos no ar como papel a arder. E lá fui, no dia cinzento, por dentro (ou fora) da palavra (não, da rua, era na rua), com a maça na mão. Eu queria comer aquela maça, mas queria come-la noutro lugar, algum lugar verde, vivo, e não este esboço de lugar a preto e branco. Eu gosto de preto e branco, mas queria mesmo comer aquela maça. Sabia que depois eram só janelas à minha volta, mãos que escorregam no vidro e tentam tocar as árvores, sem nunca o conseguirem fazer. Aquelas mãos tristes... e escorregam essas mãos que dantes tocavam outras mãos, muitas, na relva, no verde.
Eu queria comer aquela maça.
E comi. Dentro de mim, por dentro de mim. De pé. Sofregamente, como quem não vive.

Desfaz-se o tempo em rotinas e vontades
Em projectos e verdades
Em desgostos que se alastram
Em vestígios distorcidos
De nascentes que encontramos
E é sempre quando seca que
Tudo se tem que se agarrar
Tudo o que faz fugir
E a verdade passa a estar
No fundo dum copo cheio do que se quer ser
E a beata no chão que faz os olhos arder
É a nova moda das crianças que ainda estão a aprender
Como têm que estar e andar e beber
E dançar e comer e falar e ouvir
E sentar e sorrir pra saber existir aaaahhhhhh
Só eu sei ver o sol nascer
Só eu sei ver o sol nascer
Desfaço-me em pedaços, em retratos em…
Mentiras que trocámos e abraçámos sim
Fugimos mas voltámos
E o que presta, o que
Resta em nós…
Num fim de festa onde…
Todos sabemos quem somos
Ou quem não se quer lembrar
Ou quem precisa de estar
Perdido noutro sonho
A mesma noite, o mesmo copo,
O mesmo corpo, a mesma sede que não sabe secar
Onde se encontra sem se procurar
Onde se dança o que estiver a tocar
Muito fumo muito fogo muito escuro
Quando somos o que queremos
Quase somos o que queremos
Quase fomos o que queremos aaaaahhhhhhhh
Só eu sei ver o sol nascer
Só eu sei ver o sol nascer
Quase fomos o que queremos
Quase somos o que queremos
Quase fomos o que queremos
Quase somos o…
aaaAAAHHH
Só eu sei ver o sol nascer
Dança em mim. Dança em mim! Mundo, vida e fim! Dorme aqui.
Dentro de mim..
[Toranja no MP3 da Maria Caxuxa

a[gostos] VIII

wada na tod, tu wada na tod

tu wada na tod, tu wada na tod
(meri chadhti jawaani tad
petu munh na mod, tu wada na tod
tu wada na tod, tu wada na tod)
(neend humaari piya, tune chura
ayikahaa chupa hai piya tu hai harjaayi)
meri chadthi jawaani ..... tu wada na tod
(koi nahin hai tere mere bin yahan pechal
baithe chhao tale dekh wahan pe)
meri chadthi jawaani ..... tu wada na tod
(wada nibana hoga saajan tujhkodoli mein
bhi taake apne daal le jaa mujhko)
meri chadthi jawaani ..... tu wada na tod /

(Lata Mangeshkar - wada na tod)

a[gostos] VII- o grito

É aquele grito que nasce no fundo da barriga e cresce como uma papoila por dentro das coisas que não vemos - uma manhã, abre em violência como um grito vermelho no amanhecer do amarelo.

Alberto Caeiro

Todos os Dias

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo.
I'm mad, mad, mad, mad.

Hoje... hoje sinto-me fútil.

Coisas que quero sem saber bem porquê, mas que ao me questionar "porque é que quero estas coisas?", a resposta que obtenho de mim mesma é:
Porque sim, ora!
1ª coisa fútil: uns óculos, desde que perdi os meus que sinto que não sou a mesma pessoa.
2ª coisa fútil:um guarda chuva, especialmente se for aquele que eu vi no outro dia.
3ª coisa fútil: tecidos, apetece-me fazer coisas.
4ª coisa fútil: pintar o cabelo de uma cor qualquer... ruivo, loiro escuro, sei lá, qualquer coisa que me faça esquecer este desastre "cabeleireirico" que estou a atravessar com um corte de cabelo pavoroso que me faz parecer uma maçã (não faz, se fizesse até que era bom).
5ª coisa fútil: ganhar o euro milhões ou coisa parecida (era bom não ter que pensar em dinheiro, já chega ter de pensar se tomei ou não a pílula - hum!?).
6ª coisa fútil: expulsar as minhas ideias fenomenais da minha cabeça (quando tenho muitas ideias é difícil criar o que quer que seja, é só ruído - vvzzzzjjjjjjzjsdgdgttttatasfdddchhhhchcchhc).
7ª coisa fútil... aaahhh, e por aí adiante: não ter vento, ir ao pedicure, manicura, não ter pele seca e acabar com os problemas hormonais de uma só vez... ter um tesoura que corte! Bah... fútil!

a[gostos] VI

Eu tinha sonhos que eram os meus. Guardava-os numa parte de mim onde os pudesse ter sempre por perto. Com lápis de cor ia escrevendo mais e mais sonhos, numa espécie de lista só minha. Eram tantos. Um dia cresci, e cresci lista de sonhos.
[título original "a lista", julho de 2007

a[gostos] V

Precisava de sentir as velhas viagens de comboio. A velocidade, o barulho, aquele cheiro que só as linhas de comboio têm. A paisagem passando lenta do lado de lá do vidro que impede o calor de entrar e de me tocar o cabelo. É somente esse pequeno pormenor que me faz falta para acordar só mais um bocadinho para os dias de Verão. Essa espécie de pausa entre o tempo e os lugares que conhecemos, bem ou mal. E um menino pequenino de olhos grandes e pretos pergunta-me: "queres que te empreste o meu?", olho-lhe para as mãos, uma velha e ferrugenta locomotiva da lata pende-lhe dos dedos magros e pequenos. "Levas-me a passear nele?", perguntei-lhe eu, tentando esconder por de trás das grossas pestanas a emoção que cresce num coração a dormitar.
Sentados lado a lado lá ficamos a ver o jardim através das minúsculas janelas daquele esquecido comboio de lata. E que bem que me fez aquela viagem por esses mundos imaginados por aquela criança, que inventei ou que conheci, e que os descrevia tão bem com cores de lápis de cera!
[s/ título, agosto de 2007

a[gostos] IV

As memórias parecem fugir-me como as cabras selvagens. Poderiam ser cavalos, cavalos desses selvagens que me escapam velozes, mas não o são, são cabras. "Porquê cabras?", pergunta alguém curioso, afinal parece que a palavra fere susceptibilidades! Como cabras selvagens pois fogem-me pulando sobre outras memorias, comendo memórias ainda mais antigas, escondendo-se dentro das memórias mais recentes, dormitando e empurrando as lembranças mais queridas, fazendo com que toda a minha vida pareça miseravelmente impossível e confusa. Por vezes tento pastar essas memórias tresmalhadas por campos verdes e floridos, mas elas fogem-me pulando muros e embrenhando-se em florestas escuras e pântanos. Eu chamo-as, aceno-lhes alto com o meu cajado de pastor, mas elas correm velozes, devorando lilazes e rosas. E eu fico a vê-las ao longe fugindo-me - pois eu as amo como memórias minhas, memórias queridas que eu quero guardar para mim, que eu quero acariciar nas noites de inverno à lareira, sorrindo por tê-las a todas novamente comigo. Mas são memórias selvagens, estas minhas memórias. Selvagens como as cabras que pulam nas montanhas altas voando para lá de mim.
[titulo original "As Cabras", Julho de 2007

a[gostos] III

Quem não se sentiu já, como um daqueles leves e fúteis sacos de plástico que voam soltos ao vento? Quem não se deixou voar, de olhos fechados, dentro de um qualquer veículo que circule a velocidades proibitivas? Quem não se emocionou por motivos inexplicáveis e, que por esses mesmos motivos, se sentiu terrivelmente vivo?
Ao ouvi-lo tocar do alto da montanha, algo se quebrou. Procurei-o pelas íngremes ruas até que o avistei ao longe, numa escadaria, a tocar ao vento, a tocar para a montanha. Subi os degraus e fiquei a escutar as suas notas musicais com terrível comoção. Era como se aquelas notas fossem a chave para a libertação de tantas emoções guardadas, em malas e gavetas esquecidas, gavetas que nunca soube existirem. Ao vê-lo, de tão longe, um homem velho, cego, segurando nas mãos trémulas uma concertina que parecia suportar a sua velhice, senti com todo o meu corpo que naquele homem se concentrava a paixão pelo belo.
Senti que, adormecidas pelo tempo, as minhas emoções se haviam fossilizado, era preciso sentir e libertar tudo, só mais uma vez. E dentro de mim procurei em todos os jardins e todas as cidades aqueles que me acompanhavam em passeios sem fim pelos telhados imaginados, aqueles que nas folhas secas desenhavam estrelas, procurei, passando todas as pontes e espreitando para dentro de todos os rios os que me faziam correr, correr nas mãos e correr na mente as listas de palavras que se criam na imaginação.
Corri, corri todos os vales que havíamos inventado, espreitei dentro de todos esses copos agora vazios e não os podia encontrar em lugar nenhum. Onde poderiam estar depois de todo este tempo?
Foi naquele banco de jardim que os fui encontrar, aquele vermelho junto ao grande carvalho. Adormecidos, com os seus sapatos pousados em fila.
Queria tanto acorda-los, acorda-los e dar-lhes a mão para voltarmos a trepar telhados e luas. Mas estavam longe, e nem era dentro de mim, era nalgum lugar ainda mais distante.
Eu também sei muitas mais histórias, mas nem todas me lembram agora. Seria preciso um mapa maior que o mundo para os encontrar de novo. Se eles ainda dormem? Julgo que nem eles sabem. Mas sinto-lhes a falta, como as amoras sentem dos dedos macios.
I dont wanna say goodbey.
Can I prove my love to you?
Maybe this is the end, I hope is not the end.
[agosto de 2007

a[gostos] II

É uma espécie de carta de mim para mim e ao mesmo tempo para os que por cá andam por mim. Sentia a falta desta brecha na janela. É pequena. Mas serve para poder enfiar o nariz e sentir o cheiro das amoras; das amoras e não só, também aquele cheiro a pinho, que independentemente da altura do ano nos faz desmaiar em sonhos. Senti-me a fugir. Escondi-me aqui e ali e senti que ninguém sabia onde me encontrar. Uma estranha liberdade esta de não estar em lado nenhum e de não esperar nada de ninguém. Tive um sonho estranho entretanto, talvez deitada na erva seca. Sonhei que calçava uns sapatos brancos muito velhos. Tão velhos, que tinham já um remendo em tecido como se fosse um penso rápido (nunca lhe chamaram curitas?); um penso rápido a sarar as feridas dos velhos e gastos sapatos. O meu sonho tinha as cores das fotografias dos anos 80 (sim Esquimó, acho que foi contigo que realmente me apercebi dessas cores pastel e dessa fina camada amarelada que parece cobrir os azuis e de repente o céu é verde!), estava vestida de verde, ou seria um amarelo?, não sei já precisar, foi um sonho que já se dissolve lento na minha memoria. Voltemos ao sonho: calçava uns sapatos brancos, velhos e gastos, e estava sentada numa janela. As minhas pernas nuas reflectiam o sol, que não via directamente mas sabia que estava algures do meu lado direito. Alguém me observava as pernas e era torturado pela curiosidade de saber o que é que escondia aquele remendo do meu sapato. Com o dedo desliza pela minha pele, faz a curva do meu joelho e vai descendo até ao peito do meu pé. Focalizando toda a sua atenção no remendo começa a puxa-lo com uma curiosidade hercúlea, uma vontade gigantesca de o arrancar de uma vez. Consegue por fim. Por baixo, uma pequena e inocente mancha negra vê a luz. Fico a vê-lo olhar a pequena nódoa com alegria, com prazer. Foi um sonho estranho. Porque falar nele? Porque parece-me que por vezes queremos muito ver e tocar numa qualquer coisa que nos esteja vedada… quer seja a vida de uma pessoa, um sonho ou ate um simples e patético desejo. Quase como se tivéssemos nascido com uma tendência inata que nos faz escrutinar ao ínfimo pormenor tudo o que nos rodeia… Então, então penso… penso alto também para vos fazer ouvir… penso; porque não nos deixamos deliciar com essas coisas pequenas, tão pequenas e insignificantes como a nódoa dos meus inventados sapatos brancos? Sinto-me tonta. Deve ser do sol. Levanto-me e sacudo a erva que se agarra ao meu cabelo. Seguro nos sapatos e caminho lenta em direcção ao sol.
[título original "Primeira Carta", agosto de 2006