Carta de Amor por João Villaret (escutada a dois)


Ouve-me!, se é que ainda


Me podes tolerar.

Neste papel rasgado

Das arestas da minh'alma,

Ai!, as absurdas intrigas

Que te quisera contar!

Ai os enredos,

Os medos,

E as lutas em que medito,

Quer dê, quer não dê por isso,

Sem descansar

Um momento...!

Quem sofre - pensa; e o tormento

Não é sofrer, é pensar.

O pensamento

Faz engolir o vómito de fel...

Ouve! se sou cruel

Neste papel queimado

Dos incêndios da minh'alma,

é de raiva de que embalde

Te procure dizer sem falsidade

Coisas que, ditas, já não são verdade...

E procuro eu dizê-las,

Ou procuro escondê-las?

E procuro eu dizer-tas,

Ou procuro a vaidade

De mas dizer, a mim, de modo que mas ouçam

Esses mesmos que desprezo,

E cujo louvor me é caro?

Não me acredites!

O que digo,

Antes ou depois, o peso;

E não!, não é a ti que me eu declaro!

Sei que me não entendes.

Sei que quanto melhor te revelar

O meu mundo profundo,

O fundo do meu mar,

Os limos do meu poço,

O antro que é só meu (sendo, apesar de tudo, nosso)

Menos me entenderás,

Tu..., - a minha metade!

Por isso me não és senão vaidade,

Meu amor!, meu pretexto

Deste miserável texto...

Vês como sou?

Mas sou pior do que isto.

Sabe que, se me acuso,

é só por vício antigo

De me lamber as mãos e agatanhar o peito,

De me exibir a Cristo!

Sabe que a meu respeito

Vou além de quanto digo.

Sabe que os males que ora uso,

Como quem usa

Cabeleira ou dentadura,

São a pintura

Que esconde os mais verdadeiros,

De outro teor...

E sabe que sou pior!:

Sabe (se é que o não sabes)

Que ao teu amor por mim foi que ganhei amor.

Que a ti..., sei lá se te amo.

Sei que me deixam sozinho

Ante o girar dos mundos e dos séculos;

Sei que um deserto é o meu caminho;

Sei que o silêncio

Me há-de sepultar em vida;

Sei que o pavor, a noite, o frio,

Serão jardim da minha ermida;

Sei que tenho dó de mim...

Fica tu sabendo assim,

Querida!,

Porque te chamo.

Mas amar-te?!

Não!, minha vida.

Não! Reduziram-me a isto:

Só a mim amo.

Ama-me tu, se podes,

Sem procurar compreender-me:

Poderias julgar que me encontravas,

E seria eu perder-te e tu perder-me...

Ao menos tu..., desiste!

A sobre-humana prova que te peço,

A mais heróica!,

A mais inglória e a mais triste,

é essa..., - é este o meu preço.

Mais que o despeito, o ódio, a incompreensão

Dos por quem passei sereno,

Estendendo a mão afável

Ao frio, pérfido, amável

Aperto da sua mão,

Me punge,

Me pesa no coração,

O fruste amor dos que me interpretaram.

Ai!, bem quiseram amar-me!

Bem o tentaram.

Mas nunca me perdoaram

O não serem dominados

Nem poderem dominar-me...

E assim o nosso amor foi uma luta

De cobardes abraçados.

Entre eu e tu,

Tão profundo é o contrato

Que não pode haver disputa.

Não é pacto

Dum pobre aperto de mão:

Entre nós, - ou sim ou não.

Despi-me..., vê se me queres!

Despi-me com impudor,

Que é irmão do desespero.

Vê se me queres,

Sabendo que te não quero,

Nem te mereço,

Nem mereço ser amado

Pela pior

Das mulheres...

Poderás amar-me assim,

(Como explicar-me?!)

Por Qualquer Cousa que eu for,

Mas não por mim!, não a mim...!



Beijo-te os pés, meu amor."

José Régio

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