Constatação

Dentro dos meus olhos vive uma rapariga triste.

Porquê?

traição
s. f.
1. Acto! ou efeito de trair.
2. Perfídia.
3. Entrega aleivosa.
4. Quebra aleivosa da fé prometida e empenhada.
5. Infidelidade conjugal.
6. Emboscada desleal; surpresa vil.
à traiçãotraiçoeiramente, aleivosamente.
Pelas costas, à falsa fé.

trair (a-í) 
(latim trado, -ere)
v. tr.
1. Enganar com traição. = atraiçoar, falsear
2. Revelar informação que era secreta. = delatar, denunciar
3. Deixar perceber. = revelar
4. Não cumprir promessa, compromisso ou princípio.
5. Ser infiel a.
v. pron.
6. Revelar (o que se desejaria ocultar). = descobrir-se

"Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada."
(Clarice Lispector)

(Photo: Vogue)

Better things will surely come your way...

Desceu as escadas para comprar os cigarros. (Um homem alto)
Estava uma noite sem graça. Escura, com nuvens, tinha uma lua deslavada e sem brilho escondida por se sentir feia. A rapariga esparava-o na rua. (Uma rapariga de cabelo curto)
Foi sem querer que isto se passou, dizem, ela esperava-o sem querer - uma coincidência. Entrou no carro para lhe fazer companhia na curta viagem da compra dos cigarros. Trocaram poucas palavras, chorrilhos sobre um dia a dia sem interesse, coisas de amigos. Uma ida ao cabeleireiro, uma falta ao trabalho - o quotidiano. O carro deslizava em silêncio para ouvir a conversa, não a que saia da boca dos dois, mas a conversa que vinha de dentro, aquela que não se falava - a conversa secreta.
Pararam o carro. Saíram. A marca do tabaco era a de sempre. Ela não fumava.
Voltaram, agora os passos eram outros, falavam mais alto, a conversa secreta tinha já uma voz que se expressava. Entraram no carro.
Aconteceu o inevitável - o beijo.
Ao estacionar o carro ele pensou por breves segundos na outra que o esperava em casa.

tenho medo de me esquecer das letras e consequentemente das palavras

Nem sempre as palavras saem com verdade. Visto-me com a pele de alguém que invento e por aí vou, caminhando pelo mundo que imagino, a escapar de mim e das histórias que queria contar. Sempre encontrei um amigo nas folhas, a caneta era o café que tomávamos juntos enquanto eu desfilava os sentimentos e os desenhava com verdade. Agora, já não sei. Não sei quem é esta que luta com as folhas, que discute e que corre a esconder-se no silêncio. Continuo à procura daquela alegria infantil das pequenas coisas, mas parece que ma roubam. Sem ela, sou uma concha sem mar. Sou um objecto bonito mas sem sentido, guardada numa gaveta feita por mim. Tudo mudou neste mundo de piratas. Continuo a querer deixar escapar pequenos pássaros , mas eles caem e não querem voar. Serei uma mentira?

Everybody is a mess...

"Eu não: quero é uma realidade inventada." (Clarice Lispector)

I'll try (preciso cortar a franja (outra vez))


Há coisas que eu quero fazer, ainda que não saiba como fazê-las, quando, nem porque motivo. São coisas de míuda, e não vale a pena perguntar porquê, não vou ter respostas para todas essas perguntas. Queria que a minha festa de aniversário fosse num quarto de hotel, talvez por causa daquela ideia da minha vida o ser, de certa forma (um quarto de hotel). Uma festa com balões, álcool e langerie. Perder a cabeça, não pensar no amanhã, esquecer quem sou, esquecer no que a minha vida se transformou e dançar a noite inteira com amigos e desconhecidos. Talvez sejam parvoíces.
Parvoíces "of a dying girl in her twenties".

?

Pergunto-me: quando irá esta angústia passar?

A minha vida é um quarto de hotel

Por vezes a minha vida é parecida com um quarto de hotel. A mesma sensação, o mesmo sentimento. Nada parece permanente, tudo é transitório, se é que me faço entender. Adormeci com esta frase na cabeça. A minha vida é um quarto de hotel. E na realidade não sei o que fazer com ela, e agora chego aqui e não sei o que fazer com esta frase. Só sei que me apeteceu justificar o texto. Acho que ando a pensar demasiado em Boris Vian e no surrealismo. Tenho mesmo de comprar esse livro, porque me persegue por todo o lado, persegue-me e eu não o consigo ler, mesmo que queira. A minha vida é um quarto de hotel porque sinto este desconforto de não saber o que fazer com ela, então faço tudo o que está ensaiado, como se a usasse para todas as fantasias, menos para a viver realmente, para fazer dela a minha casa, o meu conforto, e vivo neste desconforto diário de não poder tirar as meias e sentir na pele a alcatifa, o desconforto da janela estar avariada e não poder respirar ar puro... Vivo num quarto de hotel.

Looping

I'll be seeing you
In all the old familiar places
That this heart of mine embraces
All day through.

Photograms

(Photogram by Lourdes de Castro)




A SOMBRA SOU EU
A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!



(Poem: Almada Negreiros, Photogram: Mark Magnan)
'Que minha solidão me sirva de companhia.
Que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.'

Clarice Lispector

Divagações

Tudo se resume à velha máxima: o amor.
Queremos que gostem de nós.
Mãe, gostas de mim? Pai, gostas de mim? Tu, gostas de mim?
Queremos fugir da solidão, ainda que tudo o que façamos para o conseguir seja uma mentira, uma fraude. No final continuamos sós, quando desligamos o computador à noite, olhamos à nossa volta e o quem temos, afinal? Ninguém, nada. Um computador, uma sala vazia, amigos numa cidade distante. Confunde-se a realidade com a ficção. Prefiro ler um bom livro onde, de certa forma, os meus sentimentos estão protegidos numa estante, sãos e salvos de qualquer sofrimento.

dreams

havia uma praia de outrora cheia de memórias antigas que vieram dar à costa. na areia branca jaziam garrafas de vidro translúcido muito polido, lá dentro havia cartas com sonhos de pessoas minhas conhecidas, umas de agora, outras que já não via há anos. no meio do areal estavam uns sofás brancos, velhos de serem dançados de um lado para o outro pelas ondas do mar revoltas, sento-me neles e encontro por todo lado coisas minhas que perdi há muitos anos. deito-me. uma mulher aparece e pergunta-me se estou à espera dele, eu não sei de quem ela está a falar, mas ela diz que ele não vem, que ele não se lembra de mim, que ele seguiu a sua vida em frente, e tenta vender-me uma carteira. subitamente essa mulher começa a falar-me numa língua que eu não conheço, e quando dou por mim estou na Índia.
é uma rua agitada cheia de lojas e todos me tentam vender coisas, estou confusa, pois não percebo aquela língua. entro num café, ou é um restaurante? não sei, está cheia de sofás também, e de pessoas que como eu ali foram parar, olho em volta e vejo um sofá vazio. deito-me nele. oiço murmuros, eles dizem que estou à espera dele, mas que ele não vai voltar por minha causa, todos sabem que eu estou ali por causa dele. fecho os olhos. oiço o mar novamente. quando abro os olhos ele está deitado ao meu lado no sofá. 'que estás aqui a fazer?', pergunto. ele não diz nada.
acordei.

MACHINA

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."

Clarice Lispector.

MACHINA

Ele olha para ela. Ela fuma outro cigarro, é o terceiro de seguida.
'conta-me, o que se passa?'
'estou a morrer'
'não digas disparates, o que é que tens? o que se passa contigo?'
'estou a morrer de tristeza.'
Ela fuma. Ele fica-se em silêncio sem saber o que dizer.

MACHINA

máquina 
(latim machina, -ae)

s. f.
1. Aparelho destinado a produzir movimentos ou a transformar determinada forma de energia.
2. Instrumento ou aparelho formado de peças móveis. = maquinismo, mecanismo
3. Infrm. Locomotora.
4. Infrm. Qualquer veículo, geralmente motorizado.
5. Artes gráf. Prelo.
6. Fig. Obra grandiosa e reveladora de génio.
7. Conjunto de meios, órgãos e serviços que constituem determinada estrutura ou organização.
8. Pessoa que só faz o que lhe dizem. = autómato, robô
9. Inform. Computador.
máquina de alta pressãoa que trabalha com mais de quatro atmosferas.
máquina de baixa pressãoa que trabalha com menos de três atmosferas.
máquina eléctrica!diz-se de qualquer máquina que produz ou aproveita a electricidade!.
máquina fotográficaaparelho munido de câmara escura que serve para tirar fotografias.
máquina infernalartefacto explosivo destinado a matar.
máquina pneumáticaa destinada a produzir o vácuo.

Os meus pés estão tão frios que podia julgar que estou morta.

Happy V.

Differentes
'Amour, allez-vouz en pour qu'on puisse mourir'*



Falla commigo, amor. Conta-me tudo.
assim dizia a tua linda carta
As saudades que soffres quem se aparta!
E como eu sou feliz, porque me illudo!

Custou-me que partisses. E, comtudo,
murmurei ao sabel-o: «Pois que parta.
Aborreceu-se? Tambem eu estou farta.
E, se mudar, então tambem eu mudo.»

Foste. O que escreves são banalidades.
E contas-me sem sombra de saudades:
«passeio... mato o tempo, assim... assim...»

Commigo quasi o mesmo se está dando ;
mas, em vez de ser eu que o vou matando,
o tempo é que me vae matando a mim.

(Virginia Victorino, Namorados, 3ª Edição, Lisboa 1921)
* O amor vai embora assim que podemos morrer

Amor
'Amour, allez-vouz en pour qu'on puisse mourir'*


O amor! o amor! Ninguém o definiu.
E' sempre o mesmo. Acaba onde começa.
Quem mais o sente menos o confessa.
E quem melhor o diz nunca o sentiu.

Conhece a todos mas ninguem o viu.
Se o procuramos foge-nos depressa.
Se o desprezamos, todo se interessa.
Só esta presente quando já fugiu.

E quanto mais se quer, menos se alcança.
E' homem feito sendo uma criança.
Ninguém o encontra e em toda a parte mora.

Mata a quem dele vive. E' sempre assim.
Só principia quando chega ao fim.
Morreu ha muito e nasce em cada hora.

(Namorados de Virginia Victorino, 3ª Edição, 1921)
 * O amor vai embora assim que podemos morrer

Pensando em parvoíces...

Irei algum dia ouvir o meu rugido de tigre?

Tarde de expedição na Livraria Galileu

Depois de alguns momentos encantada no meio de milhares de livros, acabei por encontrar um amoroso livro de poesia chamado Namorados. Tem poemas de amor, um amor bitter, triste, um pouco ao estilo Romeu e Julieta. O amor impossível. A poesia do amor não carnal. Data de 1921. Encantada com a minha descoberta! Mal posso esperar para voltar à Galileu para mais uma tarde de tesouros!