"Estou farto de conversas.
Conversa da chacha. Conversa da treta.
Bla bla bla. Esta gente não se cala? Que lhes interessa que limpe o rabo com a mão direita?
Não interessa? Pois pensei que interessasse!
Quem é que inventou essa coisa de se conversar? Tenho mais que fazer do que estar a tentar parecer interessante. Interessante o caraças, queremos é saber quanto é que o outro mete no bolso. Não se vê logo que ele nos anda a aldrabar com a conversa do coitadinho, o gajo sabe é a conversa toda.
E vai chupando uns trocos aqui e ali. Pagam-lhe umas cervejolas porque o gajo é coitadinho e prontos. E é só sorrisinhos. E o povo que trabalha é que se lixa que nem tempo tem para cagar em paz. É vira pa cá o cu, e toma lá. E é sempre assim, caralho, um gajo é que leva com tudo.
É as contas, é os gajos que nos levam o couro e o cabelo. Eu não tenho nada! Eu não tenho nada! É tudo pra eles... tenho tudo empenhado que nem a porra do carro é meu... a mulher só quer vestidos, um gajo é que se lixa que nem o futebol pode ver em paz tem de tar a ouvir as conversas de merda das gajas que querem um marido compreensivo... estou farto desta merda toda...
O que me apetecia era mandar tudo pró caralho e emigrar, é que nem os velhotes merecem, porra. Agora querem que eu me preocupe e o tanas... já me exploraram o suficiente... eu estou farto disto tudo. Este país é uma merda ò Quim. Eu sou um desgraçado.
Eu já não sei o que hei-de fazer à minha vida."
(inspired by eleições 2009)
apontamento sobre a india
A cor daquela terra ficou-me no sangue. O meu corpo vive alimentado por ela. Somos da mesma matéria. Somos folhas da mesma raiz, e dentro de nós correm moléculas de um mesmo ser, muito antigo, que nos originou.
Se fechar os olhos e imaginar aquele lugar eu vejo um verde muito vivo e uma terra muito vermelha, cheia de cor e calor. Sorrisos rasgados e flores felizes, árvores livres, mulheres amadas por outras mulheres. Crianças que sabem correr de calções. Pés descalço sem medo das pedras. Pulmões cheios de ar puro.
Calor.
Calor de gente, de sol que nunca se põe ainda que haja imensas nuvens no céu. Lágrimas gordas que não foram choradas mas que se transformaram em chuva que me lavaram os braços, o peito, as pernas e os pés. Chuva que me roubou os medos e os monstros do escuro. Lavaram todas as crianças assustadas que se refugiaram na minha imaginação de velha de vinte tal anos.
Chuva que me alimentou a esperança e o sonho, esse órgão vegetal tão frágil.
A cor daquela terra roubou-me os olhos para sempre. Agora tenho olhos de argila vermelha. Olhos vividos e doridos, cheios de calos e feridas profundas de quem mexe nas pedras, de quem as amacia.
A cor daquela terra tingiu a minha vida. E de braços abertos corro pelas ruas para a abraçar e amar como a uma mulher antiga que se entregou para sempre aos amantes do mundo.
Em mim nasceu uma pequena folha verde, no ramo mais seco que era o coração.
Se fechar os olhos e imaginar aquele lugar eu vejo um verde muito vivo e uma terra muito vermelha, cheia de cor e calor. Sorrisos rasgados e flores felizes, árvores livres, mulheres amadas por outras mulheres. Crianças que sabem correr de calções. Pés descalço sem medo das pedras. Pulmões cheios de ar puro.
Calor.
Calor de gente, de sol que nunca se põe ainda que haja imensas nuvens no céu. Lágrimas gordas que não foram choradas mas que se transformaram em chuva que me lavaram os braços, o peito, as pernas e os pés. Chuva que me roubou os medos e os monstros do escuro. Lavaram todas as crianças assustadas que se refugiaram na minha imaginação de velha de vinte tal anos.
Chuva que me alimentou a esperança e o sonho, esse órgão vegetal tão frágil.
A cor daquela terra roubou-me os olhos para sempre. Agora tenho olhos de argila vermelha. Olhos vividos e doridos, cheios de calos e feridas profundas de quem mexe nas pedras, de quem as amacia.
A cor daquela terra tingiu a minha vida. E de braços abertos corro pelas ruas para a abraçar e amar como a uma mulher antiga que se entregou para sempre aos amantes do mundo.
Em mim nasceu uma pequena folha verde, no ramo mais seco que era o coração.
agradecimentos especiais
Obrigado.
Obrigado a todas as televisões deste mundo.
Às primeiras televisões a válvulas.
Às a preto e branco.
Às televisões com comando.
Às televisões flat screen.
Às televisões HD.
Às televisões full HD e todas as outras não mencionadas aqui.
Obrigado.
Obrigado por terem impedido gerações de pensar por elas mesmas.
Obrigado por continuarem a sedar as mentes das pessoas.
Obrigado por salvarem o mundo, corajosa e silenciosamente durante tanto tempo.
Continuem o bom trabalho.
Obrigado a todas as televisões deste mundo.
Às primeiras televisões a válvulas.
Às a preto e branco.
Às televisões com comando.
Às televisões flat screen.
Às televisões HD.
Às televisões full HD e todas as outras não mencionadas aqui.
Obrigado.
Obrigado por terem impedido gerações de pensar por elas mesmas.
Obrigado por continuarem a sedar as mentes das pessoas.
Obrigado por salvarem o mundo, corajosa e silenciosamente durante tanto tempo.
Continuem o bom trabalho.
coisas do dia
O meu café vai fechar.
Ele não é meu, mas gosto de assim lhe chamar.
Gostava de poder ignorar esse facto durante mais algum tempo, mas já não posso. O tempo, como sempre, ganhou a corrida e ele vai fechar amanhã. Acabou-se aquela rotina de descer a escada e entrar naquela portinha branca. Tomar um café, escrever umas linhas.
Gosto de cafés. Gosto sobretudo das pessoas que nele vivem. Eu faço parte delas. Somos uma família grande que tem em comum a mesma chávena e o mesmo copo.
Vai-se acabar. E acaba também o meu espaço de reflexão.
No últimos tempos já não ia lá para escrever, ia somente para pensar. Descobri que quando as pessoas passam a conhecer-me, deixo de ser capaz de escrever. É uma "pudicidade" idiota, dizem alguns, eu diria que não gosto de me leiam assim, à descarada. Mas para pensar, aquele era certamente o meu lugar favorito.
Gostava de ficar a ver as mesas rodeadas de velhinhas com suas bengalas, falavam de Troia e de uma Maria qualquer... todas tão arranjadinhas.
E agora vai fechar. Ainda não acredito. Mas as coisas vão mudando e... nada há a fazer. Ao menos pintei as unhas e penteei-me. Hoje vou bonita tomar café.
Ele não é meu, mas gosto de assim lhe chamar.
Gostava de poder ignorar esse facto durante mais algum tempo, mas já não posso. O tempo, como sempre, ganhou a corrida e ele vai fechar amanhã. Acabou-se aquela rotina de descer a escada e entrar naquela portinha branca. Tomar um café, escrever umas linhas.
Gosto de cafés. Gosto sobretudo das pessoas que nele vivem. Eu faço parte delas. Somos uma família grande que tem em comum a mesma chávena e o mesmo copo.
Vai-se acabar. E acaba também o meu espaço de reflexão.
No últimos tempos já não ia lá para escrever, ia somente para pensar. Descobri que quando as pessoas passam a conhecer-me, deixo de ser capaz de escrever. É uma "pudicidade" idiota, dizem alguns, eu diria que não gosto de me leiam assim, à descarada. Mas para pensar, aquele era certamente o meu lugar favorito.
Gostava de ficar a ver as mesas rodeadas de velhinhas com suas bengalas, falavam de Troia e de uma Maria qualquer... todas tão arranjadinhas.
E agora vai fechar. Ainda não acredito. Mas as coisas vão mudando e... nada há a fazer. Ao menos pintei as unhas e penteei-me. Hoje vou bonita tomar café.
Sim... Sou da geração Disney. E tu?
Sim, eu acredito mesmo que o "Monstro" mudou pela Bela.
Sim, eu acredito que o Príncipe não se importa que a Ariel cheire a peixe.
Sim, eu acredito que o Príncipe não se importa que a Branca de Neve tenha vivido com 7 Anões.
Sim, eu acredito que o Príncipe nunca tratou mal a Cinderela por ela ter feito limpezas no passado.
Sim, eu acredito que o Dumbo cresceu e nunca mais foi gozado por ter umas orelhas grandes.
Sim, eu acredito que a Bela Adormecida foi feliz para sempre, ainda que se tenha casado aos 16 anos e nunca tenha visto nada do mundo.
Sim, eu acredito que o Mickey (50 anos depois) se vá casar com a Minie.
Sim, eu acredito que o Simba foi um bom rei.
Sim, eu acredito que há mais Prícipes por este mundo fora do que aqueles que eles dizem.
(está tudo isto imbuído na minha personalidade?)
Sim, eu acredito que o Príncipe não se importa que a Ariel cheire a peixe.
Sim, eu acredito que o Príncipe não se importa que a Branca de Neve tenha vivido com 7 Anões.
Sim, eu acredito que o Príncipe nunca tratou mal a Cinderela por ela ter feito limpezas no passado.
Sim, eu acredito que o Dumbo cresceu e nunca mais foi gozado por ter umas orelhas grandes.
Sim, eu acredito que a Bela Adormecida foi feliz para sempre, ainda que se tenha casado aos 16 anos e nunca tenha visto nada do mundo.
Sim, eu acredito que o Mickey (50 anos depois) se vá casar com a Minie.
Sim, eu acredito que o Simba foi um bom rei.
Sim, eu acredito que há mais Prícipes por este mundo fora do que aqueles que eles dizem.
(está tudo isto imbuído na minha personalidade?)
CERTIFICO QUE
maria caxuxa
ainda acredita que o amor existe,
ainda que não tenha sido cientificamente comprovado
ainda acredita que a amizade é para sempre
(mesmo que nunca mais tenha visto a pessoa que
considera amiga, mesmo que a tenha beijado na boca,
mesmo que ela lhe tenha roubado o namorado)
ainda acredita em trevos de quatro folhas
ainda gosta de ver romances e histórias de amor no grande ecrã
Ainda chora no escuro
A presidente de todas as lamechices do mundo inteiro
Albertina Augustina Alvaro Anjos
sobre mim e sobre todas elas
Querer nem sempre significa compreender essas vontades.
Queremos uma data de coisas, necessitamos delas e somos proporcionalmente felizes à quantidade de quereres que conseguimos concretizar. Pelo menos é dessa forma que agora ela vê as coisas. Dantes acreditava que a felicidade era somente composta por lugares e pessoas. Hoje em dia já não acredita em nada disso. Poderia mesmo dizer que já não acredita em nada. Apenas quer coisas. As coisas são mais fiáveis, não podem enganar, trair, magoar. Temo-las, amamo-las e quando deixam de nos servir guardamo-las dentro de uma caixa esquecida em cima do guarda-fatos. Esquecemos e temos logo outra coisa para a substituir. Em breve vai ser assim com as pessoas. Já somos quase de plástico, mas no futuro vamos ser ainda mais dispensáveis. Talvez os livros deixem de existir e passem a escrever manuais sobre "como aprender a sorrir", "aproveite uma tarde no parque", "história da amizade", "como fazer um piquenique". Infelizmente o decorrer do tempo vai apagando muitas coisas - palavras, hábitos... e as coisas vão mudando. Seremos velhos um dia, já sem familiares e amigos, sozinhos num apartamento pequeno e cheio de caixas com coisas que ninguém quer ver. Sozinhos com coisas que também já não queremos.
manhã
Eram as manhãs a sua nova descoberta. A hora antes de o mundo acordar. Foi por acaso que a fez.
Acordou.
E ao reparar no silêncio e na ausência de gente sentiu que se podia sentir mais a si mesma, percebeu as mil e uma possibilidades da madrugada e apaixonou-se para sempre. Era a hora perfeita para criar.
Acordou.
E ao reparar no silêncio e na ausência de gente sentiu que se podia sentir mais a si mesma, percebeu as mil e uma possibilidades da madrugada e apaixonou-se para sempre. Era a hora perfeita para criar.
summertime
Summertime.
Está tudo a acabar. A validade está no fim e estou certa que não vamos chegar a tempo de aproveitar a última dentada.
Vão devorar o mundo inteiro e nós não vamos comer nada.
Eu queria era beber, comer nem é o que me preocupa. Queria embebedar-me com o mar e dizer todas as parvoíces que guardo na caixa de pandora.
Mas não vamos a tempo.
Restam-nos os calos nos pés para o Inverno. Eu a odiar os teus, tu a evitar os meus. Não bastam cremes para recuperar a suavidade destes dedos gretados, estes calcanhares que já nada sentem. Se assim continuarmos, vamos viver para sempre.
Com calcanhares destes não precisamos temer a morte. Coitada, por muito que tente, não vai atravessar nunca este escudo de insensibilidade.
Hoje, toquei nos meus pés e não senti nada. Eu só queria ter pés de barro para poder caír, cair e quebrar todas as partes que me compõem, ficar em pó. E desse pó fazer cimento. E desse cimento construir uma auto-estrada barulhenta para dar cabo da cabeça a toda a gente.
Está tudo a acabar. A validade está no fim e estou certa que não vamos chegar a tempo de aproveitar a última dentada.
Vão devorar o mundo inteiro e nós não vamos comer nada.
Eu queria era beber, comer nem é o que me preocupa. Queria embebedar-me com o mar e dizer todas as parvoíces que guardo na caixa de pandora.
Mas não vamos a tempo.
Restam-nos os calos nos pés para o Inverno. Eu a odiar os teus, tu a evitar os meus. Não bastam cremes para recuperar a suavidade destes dedos gretados, estes calcanhares que já nada sentem. Se assim continuarmos, vamos viver para sempre.
Com calcanhares destes não precisamos temer a morte. Coitada, por muito que tente, não vai atravessar nunca este escudo de insensibilidade.
Hoje, toquei nos meus pés e não senti nada. Eu só queria ter pés de barro para poder caír, cair e quebrar todas as partes que me compõem, ficar em pó. E desse pó fazer cimento. E desse cimento construir uma auto-estrada barulhenta para dar cabo da cabeça a toda a gente.
Peter Sarstedt
You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there's diamonds and pearls in your hair
You live in a fancy appartement
Of the Boulevard of St. Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head
I've seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does
When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pines
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan, on your back and on your legs
When the snow falls you're found in St. Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon Brandy
But you never get your lips wet
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
Your name is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for chistmas
And you keep it just for fun, for a laugh haha
They say that when you get married
It'll be to a millionaire
But they don't realize where you came from
And I wonder if they really care, they give a damn
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head
I remember the back streets of Naples Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly brown tags, yes they try
So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
'Cause I know you still bear
the scar, deep inside, yes you do
I know where you go to my lovely
When you're alone in your bed
I know the thoughts that surround you
'Cause I can look inside your head
(adoro a intro desta música! soundtrack do dia)
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there's diamonds and pearls in your hair
You live in a fancy appartement
Of the Boulevard of St. Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head
I've seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does
When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pines
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan, on your back and on your legs
When the snow falls you're found in St. Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon Brandy
But you never get your lips wet
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do
Your name is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for chistmas
And you keep it just for fun, for a laugh haha
They say that when you get married
It'll be to a millionaire
But they don't realize where you came from
And I wonder if they really care, they give a damn
But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head
I remember the back streets of Naples Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly brown tags, yes they try
So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
'Cause I know you still bear
the scar, deep inside, yes you do
I know where you go to my lovely
When you're alone in your bed
I know the thoughts that surround you
'Cause I can look inside your head
(adoro a intro desta música! soundtrack do dia)
will
Eu sei que vou morrer.
Mas quero morrer fuzilada. Por favor, não me tirem este meu último desejo.
apontamentos sobre um passado inexistente
"Há que mudar o mundo!" ouvia-se nas ruas o eco de uma voz sem corpo.
Ainda que ninguém soubesse o que mudar, onde ou quando.
Apregoava-se no escuro, escondendo-se o rosto numa capa preta de mentiras. Apregoavam-se promessas de um futuro melhor, de um mundo menos triste e com menos diferenças.
Ainda que tudo fosse mentira, sabia bem fingir acreditar.
Ainda que ninguém soubesse o que mudar, onde ou quando.
Apregoava-se no escuro, escondendo-se o rosto numa capa preta de mentiras. Apregoavam-se promessas de um futuro melhor, de um mundo menos triste e com menos diferenças.
Ainda que tudo fosse mentira, sabia bem fingir acreditar.
apontamentos
Não quero fazer nada. Não quero viver nem um bocadinho. Vou ficar sentada no sofá a olhar para a parede branca até o mundo acabar. Não quero ver nada nem sentir nada. Sentir é um vírus que nos fragiliza e eu quero ser forte. Eu quero ser como as pedras. Quero ser uma coisa morta para que nada nem ninguém tenha grandes expectativas. Matar tudo e não deixar ficar nada. Enterrar debaixo de muita terra os sonhos, os cheiros e os amores. Não dar mais erros ortográficos, destruir todas as canetas e rasgar todos os papéis. Não ter medo de falar. Queimar o cabelo, cortar o rosto e partir os espelhos - esses monstros. Quero destruir tudo o que faz de mim um ser humano... quero apenas não ser.
sorri, olha o passarinho
Não sei o que fazer com este tempo morto. Morreu. Eu não queria mata-lo mas ele estava na mira da minha arma. Eu, eu não queria mata-lo mas ele morreu.
essa miuda... sim, eu quero ser (Jorge Palma)
Essa miúda é uma fogueira
Que te acende as noites em qualquer lugar
E tu desejas arder com ela
Enquanto bebes o perfume
Que ela deita nos seus trapos de cor
Para te embriagar
Essa miúda é um exagero
Diz que sem ti não sabe voar
Mas tu adoras voar com ela
Enquanto inventas espaços novos
Ela vai arquitetando uma teia
P´ra te aconchegar
Essa miúda faz-te acreditar
Que o sol é um presente
Que a aurora trás
Principalmente p´ra ti
Essa miúda é uma feiticeira
Prende-te a mente e põe-se a falar
E tu bem tentas compreende-la
Mas o que sai da sua boca
Não parece condizer com o que ela
Te diz com o olhar
Essa miúda faz-te acreditar
Que o sol é um presente
Que a aurora trás
Principalmente p´ra ti
voltar
Não me tinha ocorrido que o regressar fosse uma dor. Não uma dor física, mas sim uma dor num lugar que não sabemos reconhecer. Sinto a falta da confusão e daquelas ruas muito pequeninas que nunca mais acabavam e que nos punham a cabeça a andar a roda. Voltar, é encontrar tudo nos mesmos lugares quando dentro de nós nada está na mesma. Queria andar nua e... e poder sorrir para as crianças e elas sorrirem de volta. Falar com estranhos e receber um sorriso. Fazer amigos. Comer coisas que não conheço, chorar por perceber que o mundo é gigantesco e diferente. Queria não ter de parar, não ter de voltar... e continuar por essas estradas, essas linhas de comboio que não acabam.
Voltei, e fico triste.
Eu queria ter ficado e ver o nascer do sol mais uma vez.
Hoje, em Lisboa. E a Rute? A Rute está num lugar que vocês nunca viram.
as meninas bonitas comem gelado - olha que feias!
Pah pah ta tum tum
Acho que é quarta feira e o sol está a pôr-se.
Noite e dia sonho em caminhar por caminhos de terra que não me levam a lado nenhum.
Uma confusão. Pah pah ta tum tum
Depois lembro-me do pôr do sol e sei...
Sorri todos os dias como as meninas bonitas.
Sê feliz, como te ensinam nas revistas.
Para então descobrires que a porra da felicidade é um unicórnio inútil,
só serve para foder cabeças.
A felicidade, quer acredites ou não, é uma puta.
Vai com todos e não fica com ninguém.
Vende-se, como os gelados na praia, por tuta e meia.
Vende-se barata e quanta mais felicidade tu compras mais fodido vais ficar no final - vais ver.
Estou farta de pílulas cor-de-rosa.
Felicidade isto, felicidade aquilo.
Que se foda a felicidade com todos esses que por aí andam, essas capas de revista.
Eu queria ser uma menina bonita mas não posso.
Nasci feia e os meus pés magoam-me.
São grandes.
Pés de homem. Tenho pés de pai.
Pés de ausência, de estar longe.
Quando olho os meus pés lembro-me de quando era pequena
e lembro-me também de como me faziam sentir feliz - tenho os pés do meu pai.
O que é que eu queria?
Não mudes. Talvez nos encontremos no futuro e então...
então eu serei uma boneca de porcelana.
Tudo isto se os meus pés não me traírem.
Acho que é quarta feira e o sol está a pôr-se.
Noite e dia sonho em caminhar por caminhos de terra que não me levam a lado nenhum.
Uma confusão. Pah pah ta tum tum
Depois lembro-me do pôr do sol e sei...
Sorri todos os dias como as meninas bonitas.
Sê feliz, como te ensinam nas revistas.
Para então descobrires que a porra da felicidade é um unicórnio inútil,
só serve para foder cabeças.
A felicidade, quer acredites ou não, é uma puta.
Vai com todos e não fica com ninguém.
Vende-se, como os gelados na praia, por tuta e meia.
Vende-se barata e quanta mais felicidade tu compras mais fodido vais ficar no final - vais ver.
Estou farta de pílulas cor-de-rosa.
Felicidade isto, felicidade aquilo.
Que se foda a felicidade com todos esses que por aí andam, essas capas de revista.
Eu queria ser uma menina bonita mas não posso.
Nasci feia e os meus pés magoam-me.
São grandes.
Pés de homem. Tenho pés de pai.
Pés de ausência, de estar longe.
Quando olho os meus pés lembro-me de quando era pequena
e lembro-me também de como me faziam sentir feliz - tenho os pés do meu pai.
O que é que eu queria?
Não mudes. Talvez nos encontremos no futuro e então...
então eu serei uma boneca de porcelana.
Tudo isto se os meus pés não me traírem.
a feira
Deixa-me inventar uma história. Senta-te aí nesse banco e puxa de um cigarro, falarei enquanto aqueles lá ao fundo tocam. Sou como uma cigana de feira, sabes? Finjo saber o futuro de todos para sentir que também sei alguma coisa do meu. Conto histórias aos que me pagam, com a esperança de encontrar no meio da minha ladainha a resposta que eles não sabem, e ali, no meio do povo e das cenouras ao quilo eles idolatram-me como uma deusa, eu sou a verdade que eles não podem encontrar em lugar nenhum. Do risco das mãos suadas e calejadas que me estendem a medo, faço letras e com elas construo palavras que não passam de canções de embalar. Abano as minha ancas de cigana sem casa e ao longe eles me vêem chegar, cheia de sabedoria, cheia de histórias para contar aos meninos sem pai nem mãe.
Se soubesse escrever inventaria uma história sobre a minha vida onde incluía leões, Reis e bailarinas dotadas. Barcos com velas cheias de vento na barriga e montanhas encorpadas vestidas de árvores e bichos.
Sou uma cigana pobre e só, comigo apenas trago o saco com trapos que me deu meu pai no dia em que morreu, o coitado, já nem sabia quem era, quem foi. Também lhe contei histórias da sua vida, hoje, depois daqueles serões, ele parece-me um grande homem.
Para mim a alegria da vida é acordar cedo e ir para a feira chamar as meninas e sussurrar-lhes sobre o amor, vê-las sorrir, bonitas e alegres. Sou uma falsa farsa, porque na realidade também eu não passo de uma história contada por mim, e sou aquilo que eu quiser. Quem me dera poder ir dançar para os senhores da nobreza em troca de moedas de ouro, mas hoje em dia só há televisões a cores, das ciganas já ninguém fala. Saudades do tempo em que no Verão tirava os sapatos e corria descalça o tempo inteiro, ignorando os avisos sábios da minha mãe que me advertia sobre as pedras mais malvadas. Nenhuma delas, nem as mais afiadas me fizeram calçar de novo as minhas sandálias. Dentro da minha cabeça a vida tem uma cor mais intensa, as pessoas são mais belas e as estradas são para andar nelas sem se pensar em voltar para trás. Pudesse eu dançar noite dentro e seria feliz numa cabana de estrelas.
Eu quero ser a Ana Lee...
Ana Lee... Ana Lee. Tigre de papel.
Porque não escrevem uma música sobre mim?
Ópio do Povo - dizer o quê
Não querer nada é como uma doença. Começa com o excesso de merda. Há demasiadas opções no caderno da vida. É um totoloto de cruzes que não podes apagar ou mudar. Escolhes a tua chave e jogas com ela. Dão-te é a ilusão que podes ganhar alguma coisa com isso.
Casa-te.
Trabalha.
Estuda.
CALA-TE. Não fales, não penses.
Come. Comer é muito importante.
Tens um prémio, sabes? O dinheiro, o protagonismo, a importância na escala social. Uma televisão, um carro e no fim - uma casa. Depois vem a reforma. Os filhos que não querem saber de ti.
Queres ser alguém? Entra no jogo!
É que o relógio "tique-taca" sem parar e quando menos esperares estás a urinar para um fralda com uma agulha enfiada na veia do pé para te alimentar o sangue. És velho e já não queres saber mesmo de nada. Pensas na tua vida lá longe nos confins do passado e achas que realmente não viveste nada. Sabes que mais? Não viveste. Jogaste nos números errados e não ganhaste NADA. A tua televisão é uma merda. O teu carro? Quem o quer? Com sorte, mudam-te a marca das fraldas para que não fiques com o rabo assado.
Temos opção? É uma ilusão. A vida é uma fábrica gigante de carne para alimentar o chão. Vivo para morrer e dar de comer à terra. E eu nem me importo. Eu sempre quis ser uma flor.
A dor de querer. Quero.
Eu quero acabar com tudo e não me importar com nada.
Passear semi-nua no areal. Comer conchas. Beber o céu.
Mas nada disso existe. Querem matar as metáforas. Fazer delas frases esquecidas dentro de livros que talvez nunca sejam lidos.
Eu não existo. Não existo neste conceito de existência que me querem vender.
Sou como as línguas mortas. Um vago registo de algo que ninguém se lembra.
apontamentos 2
O suicídio, naquele momento, era o ponto final da burrice.
25 anos de ignorância eram de mais para aquele corpo franzino.
Queria acabar com tudo - os livros que nunca lera, os países que nunca visitaria, o sexo que não viveria por medo e ignorância.
A ignorância tinha marcado aquela vida para sempre.
E ela sabia que não importava, as pernas dela eram longas. Mas para quê pernas longas quando não há o conhecimento que acompanhe essa "longura"?
25 anos de futilidade iriam acabar com uma garrafa de rosé e uma bala.
Que acabe tudo, logo e depressa para não mais ter de me enfrentar diante do espelho.
idiotice
Andei a visitar os meus primeiros posts naquela sede de me reencontrar nas linhas que já não me lembro bem de onde são. Na realidade essa outra Maria tinha uma inocência que fui perdendo - afinal as maçãs crescem nas árvores, mas não são para toda a gente.
Não quero esconder a cabeça debaixo da areia e não ver a realidade, ando numa busca desenfreada para perceber os motivos de tudo.
E eu nunca quis saber de nada. Como me irritam estes momentos inclassificáveis em que me perco em explicações que não fazem sentido nenhum.
X = Y
Odeio café. O sabor... o amargo causa-me arrepios.
No entanto, tenho dentro de mim esta crença que me diz - se eu gostar de café, alguém há-de gostar de mim.
a felicidade, esse unicórnio que nos enlouquece
Escrever é uma dor de cabeça na ponta dos dedos. Tens coisas que queres dizer, mas sabes bem que não há quem tenha pachorra para te ouvir. Então, escondeste debaixo da cama e escreves esses teus diários onde falas nas futilidades da tua vida. Mas pensas o quê? Que apenas tu tens perguntas e dúvidas? Apenas tu sofres esse mal universal que é estar vivo e trabalhar para comer e... e sorrir? Somos alimentados para sorrir, "sejamos felizes vá lá, vamos fazer um passeio porque somos muito felizes".
Estou farta de pessoas, tenho um ódio universal por toda a gente, especialmente aquele miúdo das riscas azuis, quem ele pensa que é para sorrir e saltar?
Ah... este vicio de escrever que não me larga e me corrói.
Tenho medo de morrer... medo de morrer...
O conto da formiga.
Acreditar é difícil.
É difícil acreditar que as coisas são o que são. Queremos sempre que sejam outra coisa qualquer - melhor.
Damos tudo para não ver a realidade tal como ela é - feia.
Somos como as formigas - um ponto qualquer que se mexe lá em baixo - para quê?
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